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MONSTRA 2023 | Sky Crawlers, em análise

A 22ª edição do Festival de Animação de Lisboa – A MONSTRA decorreu em várias salas de cinema lisboetas  entre os dias 15 e 26 de março de 2023. E num ano que celebra um dos maiores produtores de animação como país convidado, o Japão, é um prazer ver em retrospetiva grande obras de anime. Uma delas foi, sem dúvida, este “Sky Crawlers”. 

Com o Japão como país convidado, 2023 é o ano para a MONSTRA exibir vários clássicos da animação nipónica, como por exemplo o revolucionário “Akira” (que podes encontrar no catálogo da Filmin, por exemplo) obras do estúdio Ghibli, “O Rapaz e o Monstro” ou “Demon Slayer”, entre outros clássicos modernos. Da autoria de Mamoru Oshii (responsável por “Ghost in the Shell” – a versão japonesa e animada, naturalmente) , na cadeira da realização,  “Sky Crawlers” situa-se algures entre as fronteiras de uma narrativa de animação e um tratado acerca do significado da guerra e paz.

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Mais uma narrativa japonesa que recupera a paixão pelas máquinas e o trauma da guerra (como, por exemplo, o belíssimo “As Asas do Vento” de Hayao Miyazaki), esta longa-metragem distingue-se através da sua natureza alegórica e criação de um sufocante sentimento de eterno retorno – onde o sofrimento, memória e fantasmas do passado abundam.

Japao na MONSTRA - Sky Crawlers
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“Sky Crawlers”, um filme maravilhosamente animado e musicado, situa-nos num planeta terra alternativo, onde as nações deixaram para trás as guerras diretas e onde a guerra se faz através de empresas especializadas. Agora, a paz reina em todo o planeta terra. Todavia, para que os povos verdadeiramente valorizem a paz oferecida, esta não pode nunca ser plena, havendo sempre um preço a pagar.

Neste mundo, a guerra torna-se quiçá ainda mais perversa, sempre omnipresente e travada em literais ‘teatros de guerra’, feita entre empresas de aviação, com pilotos que dedicam, única e exclusivamente, a sua vida a esta atividade. Desde logo, tal temática não torna difícil concluir que “Sky Crawlers” é pautado por um constante tom melancólico e por uma névoa de sofrimento e depressão.

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Todavia, uma metáfora central torna tudo um pouco pior. É que estes pilotos, jovens homens e mulheres, não são já seres humanos ‘normais’. Através de experiências laboratoriais, a ciência criou um novo híbrido humano chamado os ‘Kildren’, pessoas eternamente condenadas a permanecer, para sempre, na sua adolescência. E embora estes protagonistas possam fazer tudo o que um adulto faz: beber álcool, fazer sexo e até procriar, a verdade é que ninguém os leva verdadeiramente a sério, encarando-os antes como crianças birrentas.

© 2008 MH/NI and BWDVYHDYCH. All Rights Reserved.
As letárgicas ‘kildred’ do filme |© 2008 MH/NI and BWDVYHDYCH. All Rights Reserved.

Estes kildren estão sempre à beira do precipício, conformados no seu papel de quase-crianças e quase-adultos, pois se o dia de amanhã é assim tão incerto, podendo a qualquer momento morrer em batalha, para quê envelhecer? No final do filme, uma reviravolta narrativa, ou antes, uma suspeita tenebrosa acerca do destino destes pilotos é confirmada (embora não tenhamos planos de entrar em spoilers tão intensos e eventualmente estragar a experiência de visionamento a alguém), tornando toda a premissa geral ainda mais angustiante.

As vidas dos nossos protagonistas precipitam-se como pesadelos recorrentes, dos quais não conseguem escapar. E se a premissa inicial, do ‘forever young’, parece meio tosca, rapidamente conseguimos compreender o quão apropriada é ao enredo, e também compreender as suas ramificações existencialistas. Estes e estas jovens vivem sob a ameaça da morte a cada segundo e, à semelhança do que acontece nas guerras reais, nunca vão chegar à idade adulta. Tal qual como aconteceu a tantos recrutas ao longo da história da humanidade.

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Por outro lado, o facto de serem praticamente só adolescentes a conduzirem estes aviões de guerra também tem muito que se lhe diga. O teatro da guerra é por estes encarado quase como um jogo, embora tenham consciência da sua potencial letalidade. Ainda assim, só esta réstia de inocência lhes permite aceitar, de forma mais ou menos passiva, o seu trágico distinto.

Em termos de estrutura, “Sky Crawlers” não é um filme assim tão complexo, mas as suas ideias e temáticas tornam-no verdadeiramente impressionante. Neste plano, a existência depende da brevidade, e uma vida mais longa leva apenas a sofrimento e desilusão. Haverá um ‘silver lining’ nesta história tão devastadora? Não o conseguimos encontrar.

A MONSTRA 2023 visitou Lisboa entre os dias 15 e 26 de março de 2023. Que obras tiveste a oportunidade de ver? 

Sky Crawlers, em análise
Sky Crawlers 2008

Movie title: Sky Crawlers

Movie description: Numa linha temporal alternativa, o mundo parece ter alcançado a paz. As guerras são agora travadas por corporações privadas em vez de nações pacíficas. ​​​​Yuuichi Kannami, um recém transferido para a Área 262, simplesmente faz o seu trabalho como piloto de combate contratado. No entanto, quanto mais tempo ele passa na sua nova base, mais mistérios vêm à tona.

Date published: 27 de March de 2023

Country: Japão

Duration: 131'

Director(s): Mamoru Oshii

Actor(s): Rinko Kikuchi, Ryô Kase, Shôsuke Tanihara

Genre: Animação, Sci-fi, Drama

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  • Maggie Silva - 90
90

CONCLUSÃO

“Sky Crawlers” é um belíssimo filme de animação japonês, com uma banda-sonora perfeitamente sintonizada com as emoções e reflexões pesadas que dominam este enredo altamente filosófico e de difícil ‘digestão’. Um filme fácil de ver, mas que promete atormentar quem vê durante muito tempo, “Sky Crawlers” examina com perícia a natureza humana e, sem margem para dúvida, merecia ser mais afamado junto do público em geral.

Pros

  • A excelente banda-sonora.
  • As grandes questões que atormentam a narrativa.
  • O terror existencial, nem sempre assim tão poderoso no género da animação.

Cons

  • Alguma falta de capacidade de síntese na montagem, talvez, mas nada particular a apontar.
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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