"Nightmare Alley" | © NOS Audiovisuais

Nightmare Alley | Os figurinos de Luís Sequeira

Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas,” o novo filme de Guillermo del Toro, tem guarda-roupa assinado com nome português. Luís Sequeira vestiu este noir moderno, apelando à ostentação, ao glamour e ao grotesco do cinema de outra era. O lusodescendente conquistou a sua segunda nomeação para os Óscares com esta obra, também nomeada para Melhor Filme.

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© Searchlight Pictures

O film noir nasceu nos anos 40, apesar de as suas raízes serem mais antigas. Os filmes criminais da década anterior e o Expressionismo dos loucos anos 20 também tiveram influência no estilo nascente dos tempos de guerra. Só que o film noir concreto é assim um movimento cinematográfico nascido do trauma coletivo, do cinismo ganho no campo de batalha e na frente doméstica. Quando críticos franceses consolidaram o termo e suas características, a sombra afigurou-se como centro temático e estético da análise. Por isso mesmo, o noir é quase exclusivamente associado ao preto-e-branco. Sempre houve exceções, como o pesadelo Technicolor de “Amar Foi a Minha Perdição,” mas a escala de cinzentos é rainha.

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Apesar de ter lançado uma versão a preto-e-branco em alguns cinemas americanos, o mais recente filme de Guillermo del Toro sempre foi feito com a intenção de ser um noir a cores. Essa faceta definiu todo o design da peça, desde a cenografia grandiosa até aos mais fugazes figurinos. Veja-se o esquema cromático que privilegia o verde e o vermelho, quase fazendo homenagem às primeiras técnicas do cinema a cores, onde só essas duas se conseguiam capturar com relativa fidelidade. Assim se define o mundo de uma feira carnavalesca. Quando o filme e seu protagonista trapaceiro vão para a cidade, mais cores se acrescentam à paleta limitada.

A noite torna-se azul marmóreo, a lua pintando cada pessoa como um cadáver frio. Há também o mundo de ouro velho e madeira daqueles milionários ancestrais, a fortuna antiga personificada em figuras como a pérfida psicanalista Lilith Ritter.

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© Searchlight Pictures

Para melhor controlar a evolução das cores, Sequeira definiu uma panóplia limitada para cada personagem. Tal como noutros filmes do mesmo realizador, estas escolhas são tanto baseadas no prazer visual como na simbologia. Veja-se a personagem de Molly Cahill, interpretada por Rooney Mara. Em entrevistas, figurinista e realizador falam dela como um elemento da vida e do amor, um píncaro de compaixão no mundo calculista de “Nightmare Alley.” Neste beco das almas perdidas, ela destaca-se pelo figurino metálico nos tempos do circo e da feira. Quando ganha dinheiro ao lado de Stanton Carlisle, a jovem passa a vestir veludos quentes, escarlates sanguíneos. Em certas cenas, ela quase parece um coração a bater em silhueta feminina, uma chama que arde intensa, mesmo quando todo o mundo a tenta apagar.

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Zeena representa vitalidade diferente, menos romântica e mais maternal. É ao lado dessa vidente e seu companheiro que Stanton aprende a manipular pessoas, falseando a clarividência para fins mercenários. Assim, a atriz Toni Collette aparece-nos em forma de sol, luminosa em dourado fosco e malhas em tons outonais. O orientalismo rege a imagem de palco, mas, na intimidade, ela é quase maternal na sua humildade estilística. Assim a personagem se apresenta como uma fonte de conhecimento e guarida, calor humano, um futuro sorridente cheio de ouro e cheio de mentira. Note-se como, enquanto mulher mais velha e de menores posses, existe uma qualidade démodé no seu guarda-roupa. Comparada com Lilith e Molly nas suas modas mais próximas da década de 40 e seus estilos de guerra, Zeena ainda carrega o espectro dos anos 20 em algumas peças.

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Sequeira é um amante das modas da primeira metade do século XX, tendo uma vasta coleção de objetos vintage. Algum desse espólio foi usado no filme, incluindo gravatas. Contudo, foi o conhecimento das especificidades da época que realmente marcou o trabalho do figurinista neste novo filme de Guillermo del Toro. Lilith Ritter é perfeito exemplo disso. Seus figurinos são uma materialização do poder económico, glamour enquanto teatralidade social e precisão estilística enquanto evidência de uma personalidade impiedosa, tão afiada como um bisturi. Sequeira terá vestido Cate Blanchett em modas parisienses, pensando que, em mostra de estatuto, teria as roupas feitas no estrangeiro e importadas. Além disso, os materiais foram pensados para o cenário do seu escritório.

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Coberto em painéis de madeira desnuda, o espaço é um palco de sombras onde só algumas chamas brilham. Por isso mesmo, há uma riqueza nas blusas de seda lustrosa, as lãs texturadas e na alfaiataria arquitetónica dos seus fatos. Em certas composições, a atriz parece um demónio nascido diretamente da escuridão, suas unhas pintadas com crescentes rubras para parecerem garras pontilhadas de sangue. Outra figura marcada pela riqueza do material e a precisão do alfaiate foi Stanton, cujo arco narrativo é ilustrado também nos figurinos. Bradley Cooper começa o filme em plenas modas da Grande Depressão, roupas velhas e encardidas que gradualmente dão aso a novas transformações. Trabalhando para Zeena, começamos a ver um gosto pela falsidade do espetáculo, camisas falseadas com uma frente cosida a t-shirts gastas.

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Depois vem o salto temporal e a mudança da sorte. Como um vidente popular, Bradley Cooper passa a envergar o mais fino figurino imaginável. Em palco, usa smoking como uma estrela da Velha Hollywood, um ídolo de matiné em plena forma e máximo poder. Fora da vista geral, ele é, como Lilith, uma criatura das sombras. Se ela é uma femme fatale feita demónio primordial, ele é o anti-herói noir depurado até à sua essência iconográfica. Sequeira e o ator terão experimentado mais de uma centena de fedoras em busca do chapéu perfeito, por exemplo. Está tudo na silhueta que ele desenha quando visto ao fundo de um corredor tenebroso, ou enquadrado pela luz de um candeeiro de rua solitário. A narrativa estilística dividida essencialmente em dois capítulos – o circo e a cidade – reflete a estrutura do filme.

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Só a primeira metade do ”Nightmare Alley” englobou mais de 240 figurinos completos, desde as audiências burguesas até a mulheres vestidas de aranha e homens mascarados como halterofilistas pré-históricos. Houve aí um gosto pelo burlesco e pela saturação de detalhes vistosos. Só algumas personagens primaram pela simplicidade e, nesses casos singulares, o figurino serviu como delineador de tentação. Veja-se como Sequeira pensou em Willem Dafoe como um Mefistófeles coberto em cabedal preto, materialismo e sedução numa figura tenebrosa. A cidade tem menos figurinos pois as cenas são mais íntimas, mais dominadas pelo espetáculo exclusivo e as conversas conspiratórias em gabinetes de hospitais, clínicas e luxuosos hotéis. Com bordados em fio de cobre, algumas figuras brilham quais chamas ilusórias de um film noir reinventado para a era do cinema digital.

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Não admira que o figurinista tenha conquistado uma segunda nomeação da Academia de Hollywood. Em termos de moda, de design e psicologia em jeito de roupa, “Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas” é um triunfo monumental.

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Não percas a nossa cobertura dos Óscares, desde críticas a previsões. Será que o filme de Guillermo del Toro vai ganhar um prémio?

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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