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Nitram, em análise

Justin Kurzel (“Assassin’s Creed”) regressa ao grande ecrã com “Nitram” em menor escala que promete conquistar o público português!

O DIABO DA TASMÂNIA

Na semana em que se inicia mais uma edição do INDIELISBOA, convocando inúmeras e justificadas atenções para a sua programação, não posso deixar de louvar a coragem da ALAMBIQUE FILMES em estrear um filme como NITRAM, 2020, realizada pelo cineasta e argumentista australiano Justin Kurzel, que merece igualmente a nossa melhor disponibilidade para o descobrir e apreciar. Do realizador pudemos ver anteriormente um leque diverso mas interessante de obras: entre outras estreadas ou por estrear no nosso país, a sua primeira longa-metragem, SNOWTOWN, 2011, apresentada na Semana da Crítica do Festival de Cannes onde recebeu uma Menção Especial do Júri, MACBETH, 2015, mais uma versão da obra clássica aqui protagonizada pelos actores Michael Fassbender e Marion Cotillard, ASSASSIN’S CREED, 2016, e o mais recente TRUE HISTORY OF THE KELLY GANG (O BANDO DE NED KELLY), 2019.

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Dito isto, as qualidades do vigor criativo e uma presença segura do autor, nem sempre consensual, dentro e fora dos grandes palcos do cinema, alimentaram expectactivas face a esta nova aventura cinematográfica. Desde as primeiras sequências, Nitram surge como um rapaz igual a muitos outros mas algo desenquadrado do meio em que vive. Iremos acompanhar as suas venturas e desventuras, e no processo os sinais de diferença que o distinguem da restante população que com ele se cruza, habitantes de uma região suburbana da Tasmânia (para quem não saiba, aquele Estado insular que fica no Sul da Austrália, local para férias ditas paradisíacas, um arquipélago com 68 401 km2 e com uma população de pouco mais de meio milhão de almas). Nesta fase do desenvolvimento narrativo, a realização preocupou-se sobretudo em situar o jovem adulto Nitram junto de potenciais interlocutores anónimos, assim como da própria família, pai e mãe com personalidades vincadas e de certo modo contraditórias, atribuindo-lhe um lugar muito particular no quotidiano de uma sociedade australiana, classe média remediada, habituada a um dia a dia mais ou menos rotineiro, aparentemente descontraído, sem grandes necessidades e sem grandes luxos. Para tal usa imagens relativamente banais que contrastam com os ecos das imagens e sons que ouvimos e vimos antes misturados com os grafismos do genérico inicial, material gravado com depoimentos de uma criança a propósito de um pequeno drama existencial que nos revela, por um lado, o incidente pirotécnico que lhe provocou lesões graves e, por outro, a forma um pouco bizarra como encarou o problema e que, no mínimo dos mínimos, introduz junto do espectador um grau de perplexidade que nos vai ajudar a perceber por associação as convulsões comportamentais do adolescente Nitram. Diga-se, a partir de certa altura nem importa muito se a personagem pré-adolescente do início era ele em mais novo, a figura que serviu de inspiração ao argumentista Shaun Grant, ou uma outra real ou imaginada para efeitos ficcionais. Porque o poder da representação de Caleb Landry Jones no papel de Nitram, muito justamente premiado no Festival de Cannes de 2021 (Prémio Melhor Actor), consegue a proeza de nos fazer por si só mergulhar no reino do consciente do protagonista, ou daquilo que parece ser o racional daquela personagem, mas cujas manifestações exteriores da sua psique, mostradas sempre no fio da navalha, o empurram para o abismo que aqui e além espoleta a mais explosiva e perigosa dimensão do seu inconsciente, o seu lado irracional e descontrolado provocado por episódios que numa abordagem superficial parecem inofensivos, mas que acabam ampliados no interior da sua mente de um modo que podemos apelidar de assustador. Pouco a pouco Nitram passa a surgir aos nossos olhos como um ser relativamente imprevisível, mesmo perigoso. De repente, passamos a criar dentro de nós medos, com maior ou menor intensidade, como quando o vemos fazer uma festinha num gato e ficamos sobressaltados com a ideia de que a uma esperada atitude de carinho possa seguir-se um inesperado acto violento contra o pobre animal. Não sendo a maioria dos espectadores formados em psiquiatria – e acredito que este filme seja um dos que podia gerar interessantes discussões se mostrado a professores, estudantes ou amantes da disciplina – a percepção dos factos inerentes ao seu comportamento não se faz necessariamente pela análise científica mas pela partilha de emoções. Por acumulação, vamos acompanhando a forma como Nitran se aproxima e afasta dos diversos homens e mulheres que com ele se relacionam, voluntária ou involuntariamente. Em geral, vão desde os condescendentes que procuram compreender os seus desequilíbrios emocionais, mas nem sempre a razão de ser das suas idiossincrasias, aos autênticos canalhas, figuras que se aproveitam da sua falsa ingenuidade e fragilidade no campo da inserção social, quase sempre relegando Nitram para o estatuto de marginal, neste caso, o que não está do lado da barreira que os “normais” consideram normal, aquele que segundo estes passou para o outro lado contrariando a que muitas vezes, no fundo, não passa de uma ilusória normalidade.

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Mas NITRAM, o filme, não se fica pela história de um rapaz peculiar, mal ou bem inserido num meio sui generis, que irá encontrar alguém com uma personalidade dominada por uma inquietante ambiguidade, pessoa que não sendo marginalizada se marginalizou no interior de uma mansão povoada pelas memórias do seu passado artístico. Trata-se de uma mulher de meia-idade, que Nitram conheceu por acaso numa das suas deambulações em busca de um biscate para ganhar algum dinheiro, e com quem irá partilhar a casa, depois de abandonar a dos pais onde era fustigado por um ambiente pesado, castrador e deprimente. Por detrás de um rosto passivo como uma máscara, não menos perturbadora do que a face e o olhar de Nitram no momento das suas fúrias, o papel daquela mulher fica por definir, nem mãe nem amante, na altura em que desaparece devido a um acidente provocado por uma manobra irresponsável e meio infantil de Nitram. Será, aliás, aqui que se desencadeia o decisivo momento de viragem que vai acentuar o crescendo da espiral de violência já antes adivinhada, o quadro que vai precipitar o crescente e insano isolamento do rapaz, contaminado por recalcamentos e desejo de vingança em relação, entre outros factores, a um acto miserável por parte de uma imobiliária que desfaz os sonhos do seu pai. Face ao que interpreta como uma agressão do mundo que o rodeia, Nitram prepara-se para uma missão de força bruta que julga redentora e que leva até ao limite da sua ira na posterior descarga que atinge o paroxismo nas sequências finais. Não vou revelar como, nos derradeiros minutos e sobretudo no último plano, Justin Kurzel resolve a visibilidade invisível da violência extrema, mas posso dizer-vos que o faz da melhor maneira, evitando o massacre imagético que um realizador de segunda não hesitaria em mostrar e que, na melhor das hipóteses, iria destruir aquilo que antes se desenhara com a subtileza possível considerando o peso avassalador e adulto da matéria em causa. E a sua opção acaba por ser bem-sucedida porque antes soube lidar com precisão e pontaria milimétrica com a questão muito controversa da venda de armas na Austrália dos anos a que se refere a narrativa, os anos 90. Particularmente sinistros são os “retratos” dos encontros de Nitram com os negociantes e anónimos que lhe fornecem as armas, como quem vende um brinquedo a um preço de amigo, e particularmente esclarecedoras são as intenções dos produtores ao referirem antes do genérico final aquilo que por outras palavras o argumentista declarou, a saber: “Há certos acontecimentos catastróficos que permanecem connosco e que não nos deixam esquecer quando e onde chegaram ao nosso conhecimento. Para o meu país e para mim, isso sucedeu com as notícias do massacre de Port Arthur, em que um único atirador matou 35 pessoas e feriu 23 (…) Fui rever as pesquisas que fizera na altura e descobri online que algumas leis sobre armas na Austrália foram aliviadas desde a introdução do Acordo Nacional de Armas de Fogo, em 1996, e que muitas das sugestões do Acordo nunca foram postas em prática. Na verdade, descobri que há hoje mais armas na Austrália do que em 1996. Procurei ao longo dos anos contar aquela história sobre vários pontos de vista (fosse ele o da polícia, o das vítimas ou o dos sobreviventes). Percebi que a melhor maneira de o fazer, para passar a minha mensagem, era usar apenas um ponto de vista, o do perpetrador. Queria que o público, sobretudo o que defende a posse de armas, conhecesse uma personagem que claramente não deveria aceder a armas de fogo com a facilidade com que ele as adquiriu”.

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É um ponto de vista que fica muito claro neste filme, poderoso e urgente, num mundo em convulsão e que parece cada vez mais longe de aceitar o significado maior da palavra paz.

Nitram, em análise
Nitram

Movie title: Nitram

Date published: 28 de April de 2022

Director(s): Justin Kurzel

Actor(s): Caleb Landry Jones, Judy Davis, Anthony LaPaglia, Phoebe Taylor, Sean Keenan

Genre: Drama, Thriller, 2021, 112min

  • João Garção Borges - 80
80

Conslusão:

PRÓS: Excelentes interpretações, quer do protagonista Caleb Landry Jones no papel de Nitram, sem qualquer favor premiado no Festival de Cannes de 2021 (Prémio Melhor Actor), quer dos actores que fazem de seus pais, duas notáveis composições defendidas por Judy Davis e Anthony LaPaglia, e ainda de Essie Davis no papel de Helen, a amiga inesperada e até certo ponto improvável de um jovem em rota de colisão com a realidade circundante.

Planificação e Fotografia perfeitamente articuladas para nos dar o que importa ver sem rodriguinhos e floreados artísticos desnecessários, considerando que a matéria de que são feitas as linhas gerais da narrativa exigia um olhar directo, cristalino e incisivo, um olhar exigente e cru sobre as diferentes circunvoluções da acção.

Magnífica montagem de som e misturas que resulta num espaço sonoro que se ouve quase como um segundo filme, como se fosse o fluir interno de uma corrente pronta a aflorar em ondas de choque junto da vida vivida do protagonista, do fim dramático do pai, a enigmática presença final da mãe sentada imóvel com o som de um ninho de vespas ameaçador mas que aparentemente não a perturba, e ainda o das muitas personagens anónimas que com ele se cruzam.

CONTRA: Nada. Não deixem o filme sozinho nas salas de cinema num período de maior oferta cinéfila, porque se o fizerem nem sabem o que perdem.

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