Opinião | O Futuro das Salas de Cinema e o Capitalismo de Plataforma

Será que este novo confinamento colocará definitivamente em risco as salas de cinema? As salas de cinema cumprem uma importante função social e cultural, mas a verdade é que as pessoas estão cada vez mais ‘agarradas’ às plataformas de streaming e não saem de casa. Como seria um mundo sem salas de cinema?

Este novo confinamento voltou a decretar o encerramento, de pelo menos de duas semanas, de todos os equipamentos culturais do país, incluindo as salas de cinema, que até aos meses de Março, Abril e Maio de 2020, nunca tinha fechado na sua história, nem mesmo quando no século passado, a Europa estava flagelada pela II Guerra Mundial. Desde Junho do ano passado, com a apoteótica estreia de ‘Tenet’, — que aliás não correspondeu às receitas esperadas — de filmes independentes inclusive muitos portugueses que as salas de cinema funcionavam — e diga-se em segurança — com a lotação reduzida, em dias sem recolher obrigatório e com circulação de pessoas permitida entre concelhos. Mas nos próximos tempos, não haverá filmes em nenhuma sala, grande, pequena ou independente, e cinema só na televisão ou em streaming. Em Portugal o receio do encerramento definitivo de algumas salas de cinema por causa da pandemia, ainda  não passa por enquanto de uma possibilidade. No entanto, em Lisboa, antes deste novo confinamento, já estavam ‘encerradas temporariamente’, o City Alvalade, algumas da UCI-El Corte Inglês e dos complexos de salas da NOS. 

salas de cinema

Efectivamente tem sido o streaming, que tem substituído as salas de cinema, uma forma de exibição onde podemos assistir aos filmes, tanto sozinhos, como acompanhados. Contudo, as salas cumprem uma importante função social que começa a estar também em risco, aliás como um certo o recuo da socialização entre as pessoas. Depois das salas de cinema fechadas quase dois meses no período do primeiro confinamento, tanto o governo como os várias players e instituições, dos profissionais à distribuição e exibição, tentaram incentivar as pessoas a regressarem às salas de cinema. Até houve festivais como o LEFFEST que tiveram coragem de alterar a sua programação para facilitar a ida dos espectadores à sala de cinema, a partir das 11h da manhã, e recusando totalmente sessões no formato on-line. O encerramento ao fim-de-semana com o recolher obrigatório depois das 13h, limitou ainda mais as sessões nas salas de cinema. Por isso, é natural que além dos receios dos riscos de contaminação em grandes espaços fechados, todos estejamos preocupadas nos possíveis impactos económicos e sociais de um encerramento definitivo dos cinemas. Sobretudo o encerramento das principais cadeias de multiplex — a Warner Bros revelou por exemplo que, para além da estreia em sala, todos os filmes planeados para 2021, irão também ser lançados na nova plataforma de streaming HBO Max e isso vai ter reflexos óbvios — porque as salas-estúdio, com um público bem fiel e cinéfilo pareciam estar menos mal, em termos de público. Logicamente há uma preocupação com o fantasma do desemprego de muitos profissionais, desde a produção à exibição de cinema — a boa notícia é a continuidade das filmagens anunciada pela Portugal Film Commission — e o receio dos efeitos colaterais, que se reflectem em geral nas nossas saídas de casa, nos restaurantes, bares ou mesmo nos alugueres de lojas nos centros comerciais, onde estão a maioria dos multiplex. Olhar esta questão do encerramento das salas de cinema na perspectiva económica é igualmente muito importante. Apesar da forte concentração de salas de cinema em Portugal num só operador, a NOS,é a empresa responsável pela gestão de 214 salas de cinema — o governo deveria talvez ajudar também mais esta actividade a recompor-se, aliás como todo o sector cultural, que está num grande aperto, apesar das medidas de apoio anunciadas recentemente. Mas além dos apoios financeiros não sei exatamente como o Estado poderá ajudar mais? Receio que os apoios financeiros não serão suficientes, para manter a maioria das salas de cinema abertas no pós-pandemia. Uma grande maioria das pessoas está saturada de ficar em casa, porque estão-nos tirando a nossa liberdade, e tudo o que torna a nossa vida mais prazerosa, suportável e animada: bares, restaurantes, futebol, teatro, concertos, mas talvez menos os cinemas, por causa do streaming. Mas creio, que todos, sendo mais ou menos cinéfilos, perderíamos muito em termos culturais, se as salas de cinemas se reduzissem ao mínimo, partindo do princípio mais optimista, de que as mais pequenas conseguiriam sobreviver. E perderíamos ainda mais se os cinemas deixassem mesmo de existir, colocando algumas reticências aquela ideia de que a verdadeira partilha de emoções, só é possível numa sala de cinema. Para mim não há coisa melhor que sair de casa, para entre outras coisas que gosto de fazer e tenho fácil acesso, do que ver um filme numa boa sala de cinema.

salas de cinema

Sou da geração que construiu uma boa parte da sua cinefilia, nas velhas videocassetes ou nas maravilhosas sessões da RTP; que aliás tive a chance de dar continuidade, não há muito tempo como apresentador das Noites de Cinema na RTP Memória. Por isso acho que é bom assistir a um filme tanto sozinho, como acompanhado, tanto num pequeno como num grande ecrã. Tudo depende do filme e da nossa disposição. E não tenho nada contra o streaming, embora prefira ver os filmes numa boa sala de cinema: acreditem que é um gozo enorme assistir a um filme nos três grandes auditórios dos festivais de Berlim, Cannes ou Veneza, com 2000 pessoas. E depois  não tenho paciência para ver os episódios e as longas temporadas das séries de televisão. Sei que algumas das séries de televisão têm excelentes actores e uma qualidade muito próxima da estética dos bons filmes. Quando era jovem, juntava todos os escudos para ir ao cinema — fosse nos cinemas da Avenida, fosse no cinema lá do bairro, em Campolide — com os amigos ou com a namorada, — as candidatas a novas namoradas, tornavam-se mais permeáveis ao romance, no escurinho do cinema — para no final, haver um pretexto para uma boa discussão cinéfila, acompanhada de um café ou da imperial. No entanto, nunca me senti constrangido ou deixei de ter prazer em ir sozinho ao cinema — ou à Cinemateca, ou aos Ciclos da Gulbenkian — para assistir ao tal filme, do tal realizador. Lisboa era pequena e naturalmente encontrava sempre muitos dos meus amigos ou conhecidos, com quem ainda hoje me relaciono profissionalmente na minha actividade; gostava também muito de assistir a um filme na intimidade do meu quarto, daqueles que tinha ido buscar ao videoclube da esquina e que estava disponível nesse dia. Era assim a vida de muitos jovens da década de 80, do pós-revolução de Abril, que liam livros avidamente e reuniam-se por exemplo também nas sessões da meia-noite do Quarteto ou na pequena sala-estúdio do Centro Comercial City, na Tomás Ribeiro. Não vale a pena agora ser sentimental ou nostálgico sobre algo que já passou e nos deu tanto prazer, distração, cultura e crescimento como indivíduos e cidadãos(ãs). Os cinemas são espaços públicos e independentemente desta crise, que vão continuar a ser aquele lugar especial, onde podemos viajar pelo mundo, cercados por outras pessoas que conhecemos ou não de lado nenhum. Mas se quisermos também o podemos fazer sozinhos, sem que isso diminua as nossas emoções e prazeres. Numa época em que o vício da internet se tornou praticamente um padrão de várias gerações de utilizadores, a sala de cinema continua a ser felizmente um espaço onde ainda seremos criticados se tivermos determinados comportamentos pouco sociais: acender a luz do telemóvel, este tocar durante uma sessão e atendermos, chegar atrasados e incomodar os outros espectadores. Enfim a sala de cinema ainda tem os seus códigos de conduta e socialização. Apesar da falta de civismo de alguns espectadores, as salas de cinema são uma espécie de mundo à parte, mesmo com os novos padrões de entretenimento de massas: os filmes de super-heróis, os refrigerantes e as pipocas ou com aqueles que fazem barulho a comê-las ou conversam avidamente durante os filmes. Pelo contrário e a verdade é que quase toda a gente que conheço, tem também muita dificuldade em pôr o telemóvel de lado quando está a assistir a um filme em casa no streaming ou na televisão. Mesmo que estejam a ver uma obra-prima do cinema ou o último lançamento da temporada, todos seja qual for a idade, têm muita dificuldade em resistir ao toque das notificações e não pegarem no telemóvel. Façam (ou observem) pelo menos uma vez esta experiência lá em casa!

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O grande perigo para as salas de cinema não é o streaming, os dispositivos móveis, as plataformas de filmes ou as séries de televisão. Os modos de ver cinema já passaram por muitas revoluções na sua história, até chegarem ao streaming. Mas parece-me óbvio que toda esta actividade e negócio do cinema mesmo ao nível das grandes produções de Hollywood, e por via da digitalização, da automação, tenha de ser todo repensado, quer pelo lado dos vários players, — e estou-me a lembrar  inclusive como vão ser os festivais de cinema, mesmo os grandes, depois da pandemia? — quer pelo lado do consumidor ou espectador. O problema mesmo é que nos últimos 20 anos, temos sentido um certo declínio da socialização, talvez devido às sucessivas crises económicas, instabilidade social, incertezas profissionais e familiares. As pessoas andam mais desconfiadas dos outros, estão mais inseguras e intolerantes, talvez porque passam demasiadas horas nas redes sociais, interagem cada vez menos fisicamente umas com as outras. E quase sempre com a desculpa de se preservarem mais, preferindo exporem-se — às vezes nem sempre de uma forma autêntica — no espaço virtual e nas redes sociais. Por isso, também saem menos, bebem menos álcool, fumam menos cigarros — isto não é necessariamente algo de mau — e se calhar até fazem menos sexo (real), que lhes fazia aliás muito bem, dizem os entendidos! E claro vão menos ao cinema, a não ser que toda a gente fale do mesmo filme e se sintam os únicos que não o viram. Essa questão da possibilidade de ver por antecipação, até já foi ultrapassada com as plataformas, onde aos poucos é cada vez mais possível encontrar todos os filmes em antestreia ou estreados recentemente, sem esperar pelas habituais janelas de exibição que começava nas salas de cinema; ou mesmo com a utilização dos projetores caseiros com ecrãs maiores, que proporcionam (para alguns) quase as mesmas vantagens da sala de cinema. No entanto, estamos a começar a viver na chamada era do ‘capitalismo de plataforma’, onde podemos fazer quase tudo sem sair de casa, inclusive trabalhar. Na verdade, estamos mesmo ser incentivados a fazê-lo em definitivo, com ou sem Covid -19!

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Assistimos a um certo declínio de sair de casa todos os dias para nos divertirmos ou simplesmente estar com os amigos no café. Esta tem sido uma tendência de alguns anos para cá, — o turismo massivo retirou grande parte das pessoas das grandes cidade, atirando-as para a periferia — e a pandemia veio acelerar todo este processo de ‘dessocialização’. O simples Nespresso, — parceiro aliás de muitos eventos de cinema e que tem o rosto de uma grande estrela, George Clooney —  por exemplo, conseguiu quase eliminar aquele velho hábito bem português do passeio higiénico: sair de casa depois de jantar para ir tomar um ‘cafézinho’. E muitos cafés de bairro até fecharam ou encerram à noite. Também os jovens estão cada vez mais caseiros e muitos transformaram-se numa espécie de ‘donas-de casa de robe e chinelos’. Há dias um amigo meu que é professor do ensino secundário, contou-me que a propósito das aulas on-line, durante o primeiro confinamento, chamou a atenção de vários alunos que assistiam às lições em pijama. Afinal de contas estavam ou não na Escola? Mas também muitas das pessoas que estão agora em teletrabalho mudaram os seus hábitos: estão online, e isto torna-se mais um pretexto para pedirem, comprarem, jogarem, interagirem e assistirem a tudo pela internet. À medida que as actividades esfera pública se vão deteriorando, com tendência a acentuar-se nos próximos anos, muitos pessoas começaram a reagir passivamente a esta nova forma de vida: ’o tal novo normal’. Se há muita gente farta deste isolamento forçado e angustiante que precisa do ar livre, de exercício, dos espaços de convívio cultural como as salas de cinema, há também cada vez mais ‘confinados passivos’: preferem pedir comida, assistir a um conteúdo nas múltiplas plataformas de entretenimento que assinam sem saírem do sofá ou da cadeira em frente ao ecrã do dispositivo digital (computador, smartphone ou tablet). Para muitos começa a ser esta a melhor opção de vida, pensando que esta é a evolução normal, para um admirável mundo novo e virtual.

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Este ‘capitalismo de roupão ou robe’ tem-se afirmado cada vez mais com a pandemia de Covid-19. Tem havido, mesmo nos momentos de alívio da pandemia, um crescimento enorme do uso de aplicações de streaming e take away, porque ficar em casa passou a ser visto como moralmente virtuoso e até mesmo cool ou giro. O que vai acontecer depois da pandemia não sabemos ainda muito bem. Acho mesmo que ninguém sabe! Mas corremos o risco de mais uma vez responsabilizar como sempre e como vejo muitas vezes, sobretudo nas redes sociais — eu também as uso ! — os governos, as autoridades de saúde, os outros, geralmente os mais fracos e impotentes, os políticos radicais ou populistas e esquecermos completamente que isso depende sobretudo das nossas opções de vida e pensamento, como cidadãos-consumidores e da nossa acomodação ou não, em relação ao tal mundo novo que aí vem. O modelo de teletrabalho já há muito que era discutido e estava mais ou menos previsto para um futuro próximo mesmo antes da pandemia. Só que agora parece quase inevitável e generalizado, sobretudo no que diz respeito aos serviços e a muitas actividades criativas. Embora não sem alguns riscos de uma certa ineficiência, quer ao nível das relações humanas, quer ao nível da produtividade. Também tenho sentido isso sobretudo no que diz respeito ao atendimento e assistência ao cliente. O teletrabalho, necessita de muitas adaptações tanto para as pessoas como para as empresas! Contudo, a pandemia veio impor este processo de passarmos mais tempo em casa em frente a um dispositivo digital. E parece que as pessoas vão continuar a passar ainda mais tempo em casa. Sem querer ser demasiado pessimista, a continuar assim, haverá talvez cada menos lugares públicos e espaços culturais para irmos, menos coisas para fazermos e menos espaços comuns para nos divertirmos e interagimos uns com os outros, como simplesmente dançar. Se não resistirmos em parte a esta mudança, corremos o risco de ficarmos em casa a verificar pela centésima vez se chegou alguma notificação aos nossos telemóveis, enquanto assistimos ao último lançamento da Disney + em filme ou de uma nova série de televisão da Netflix — passo a publicidade destas duas plataformas, mas foram as que me vieram agora à cabeça. Quem sabe se quando chegar essa altura,  haverá igualmente muita gente a arrepender-se desta opção de vida demasiado condicionada e com muitas saudades de uma sala e de um grande ecrã de cinema?

José Vieira Mendes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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One thought on “Opinião | O Futuro das Salas de Cinema e o Capitalismo de Plataforma

  • Muito Bom! Concordo com tudo o que está escrito.

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