E se os Óscares não distinguissem entre atores e atrizes?

Em buca de maior igualdade de género no mundo do cinema, já houve quem propusesse que os Óscares deviam parar de separar os seus prémios de atuação entre homens e mulheres. Será que isso seria uma boa ideia?

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Quando, em maio, Emma Watson venceu um prémio pela sua performance em A Bela e o Monstro na cerimónia dos MTV Movie Awards, o seu discurso ainda deu muito que falar. É que o prémio dado a Watson não foi um mero troféu de Melhor Atriz, mas sim um galardão feito intencionalmente para não oferecer distinções de género, um prémio para a suposta melhor performance do ano, independentemente da identidade do intérprete.

No seu discurso, a atriz erroneamente falou do seu prémio de atuação como o primeiro na História a não separar os nomeados com base no seu sexo (algumas associações de críticos e festivais de cinema, por exemplo, fazem isto há décadas). Ignorando tal afirmação sem fundamento, é admirável o desejo de que o prémio simbolize o modo como atuar, não sendo algo diferente entre homens e mulheres, é simplesmente a arte de se colocar no lugar de outra pessoa.

Depressa muitas publicações, incluindo o prestigiado New York Times, desenvolveram a ideia em artigos que exigiam que tais iniciativas fossem tomadas por mais instituições de Hollywood, nomeadamente a mais respeitada delas todas, os Óscares. É fácil perceber a popularidade dessa ideia, mesmo não contando com questões de representação ou o modo como tais categorizações podem ser discriminatórias para pessoas com identidades que saiam do espectro binário de homem ou mulher. Afinal, há quem discorde da justiça latente às palavras da atriz que apresentou o prémio a Watson, Asia Kate Dillon, quando disse que a única distinção que se devia fazer é entre a qualidade das maravilhosas performances em si?

EMMA WATSON MTV MOVIE AWARDS

Tudo isto é fantástico no vácuo ideológico de uma utopia, mas o que é que aconteceria se os Óscares tivessem decidido, há anos, acabar com distinções entre homens e mulheres no que diz respeito a prémios de atuação? A triste verdade é que, muito provavelmente, quase nenhuma mulher venceria ou teria sequer a oportunidade de ser nomeada. Nada disso seria uma justa consequência de algum tipo de diferença qualitativa, mas sim mais uma mostra do sexismo institucional que permeia Hollywood, a indústria cinematográfica em geral, e a sociedade global em que vivemos – afinal, a inexistência universal de igualdade salarial entre géneros é, no fim, a recusa de reconhecer que homens e mulheres deviam receber a mesma recompensação pelo mesmo trabalho.

Veja-se, por exemplo, o que acontece em categorias onde a distinção de géneros não existe. Até agora, com quase 90 anos de existência dos prémios, apenas 4 mulheres foram nomeadas para o Óscar de Melhor Realização e somente Kathryn Bigelow venceu por Estado de Guerra. É óbvio que é mais difícil para uma realizadora conseguir fazer um filme e distribui-lo do que é para uma atriz conseguir um papel, mas não é qualquer papel que garante um Óscar ou uma nomeação.

kathryn bigelow oscars

A Academia sempre demonstrou uma preferência por obras anglófonas envolvidas numa pátina de prestígio e autoimportância, filmes históricos e dramas sérios sem frivolidades vistosas. Infelizmente essas ideias normalmente são vistas como antitéticas de feminilidade, por muito repulsiva que tal realidade possa parecer. A mania, que transcende a Academia, por celebrar prestações ditas de “Método” é um reflexo disso mesmo, uma celebração de esforço sério, visível e intrinsecamente masculino. Normalmente quando uma atriz faz o mesmo tipo de loucuras de Leonardo DiCaprio e Jared Leto em nome de um papel, não recebe Óscares ou admiração, mas sim Razzies e a reputação de ser “difícil”. Não acreditam? Vejam o exemplo de Faye Dunaway nos anos 80.

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Focando-nos somente nesta década, nos filmes de 2010 a 2016 que foram premiados e nomeados pela Academia de Hollywood, repare-se na ínfima quantidade de histórias com protagonistas femininas entre os supostos Melhores Filmes do ano. Em 62 nomeados ao galardão de Melhor Filme desde 2010, só 18 títulos (descontando Indomável, pois a Academia categorizou Hailee Steinfeld como uma presença secundária) é que apresentaram personagens femininas em papéis principais. 8 desses 18, incluem ainda um coprotagonista masculino, como é o caso de La La Land e Mad Max: Estrada da Fúria.

filmes na tv

Para além do mais, os filmes nomeados a Melhor Ator têm estatisticamente maior probabilidade de serem apreciados noutras categorias que os de Melhor Atriz. Neste mesmo período, tivemos 35 filmes nomeados para Melhor Atriz e 35 para Melhor Ator (La La Land, A Teoria de Tudo, Golpada Americana e Guia Para um Final Feliz são comuns às duas categorias) e, enquanto apenas três filmes com protagonistas masculinos se tiveram de contentar com uma só nomeação, houve 10 filmes nomeados a Melhor Atriz que não foram reconhecidos em mais categoria alguma.

25 dos filmes nomeados para Melhor Ator foram também nomeados para Melhor Filme, contra 14 dos nomeados para melhor Atriz. A Academia é muito mais predisposta a recompensar histórias sobre homens do que sobre mulheres, o que não surpreenderá ninguém quando vemos o modo como os grandes estúdios de Hollywood continuam a produzir uma oferta proporcionalmente minúscula de filmes com personagens femininas de relevo.

Com tudo isto dito, ainda nem mencionámos as diferenças usuais entre os atores e atrizes nomeados para estes prémios. Enquanto a idade média dos cinco nomeados para Melhor Ator ronda sempre a casa dos 40, a de Melhor Atriz varia de ano para ano dependendo da presença de Meryl Streep ou Judi Dench para inflacionar o número. É muito mais comum ver mulheres com menos de 30 anos serem nomeadas do que mulheres com mais de 40 – exatamente o oposto dos homens, onde idade significa mais probabilidade de ser nomeado e vencer.

Acima de tudo, é fácil ver como a Academia e a população em geral, estariam sempre mais dispostas a dar o prémio a um veterano da indústria com uma filmografia rica e o apoio dos estúdios do que a uma estrela do momento que está ainda a começar. No final, o resultado é sempre o mesmo. Um prémio de atuação sem diferenciação de géneros é uma ideia magnífica, mas, tendo em conta as injustiças de oportunidade e representação prevalentes na indústria cinematográfica, isto acabaria por roubar ainda mais oportunidades a atrizes e dificultar ainda mais a chegada de títulos de prestigio com personagens femininas aos cinemas.

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Este artigo é só a primeira parte de uma série em que iremos examinar esse hipotético prémio unissexo de atuação ao longo das várias décadas dos Óscares. Vamos apenas considerar os nomeados e vencedores dos galardões para prestações principais, para tornar a decisão mais clara e evitar discussão de fraudes de categorização, e, para além disso, destacaremos também a prestação que, na nossa opinião, deveria justamente ter sido recompensada de entre os nomeados. Explora a galeria que podes abrir com o link abaixo para veres os casos dos últimos sete anos.

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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