"Pornomelancolía" | © Gem Films

Queer Lisboa ’23 | Pornomelancolía, a Crítica

“Pornomelancolía” de Manuel Abramovich considera a depressão persistente de um influencer e ator porno – Lalo Santos interpretando uma versão ficcionada de si mesmo. A obra mexicana teve a sua primeira projeção em San Sebastián no ano passado e chega agora ao Queer Lisboa, onde integra a Competição de Longas-Metragens da 27ª edição do festival.

Nunca sabemos o que vai na cabeça do outro. Por muito que julguemos saber, jamais teremos um entendimento total. Quando se refere a estranhos, então não temos a mais pequena ideia da sua interioridade. Pensar o oposto é cair no mais profundo poço de arrogância. Enquanto narrativa, “Pornomelancolía” é um exercício de autoficção sensibilizante, alertando o espetador para uma realidade que, enquanto seres humanos tendemos a instintivamente ignorar. Trata-se de uma lembrança dos nossos próprios limites e, a seu jeito, um pedido de compaixão, até quando a empatia esgota ou nos foge por entre os dedos.

Tudo começa em imagem singela, tão mundana que seria possível descartá-la como inconsequente. Vemos um homem de bigode e bem-parecido na rua, o seu reflexo espelhado numa janela qualquer enquanto as pessoas em seu redor caminham sem lhe prestar atenção. Ele, contudo, está imóvel, talvez na espera de algo ou então perdido no pensamento. A segunda opção parece mais provável quando, sem aviso, a face inexpressiva se desmancha num pranto. Mesmo assim, só a câmara e o nosso olhar param para lhe considerar a dor. Todos os outros permanecem transeuntes, passando no fundo de cena em borrão desfocado.

pornomelancolia critica queer lisboa
© Gema Films

Enquanto gesto cinematográfico, o realizador Manuel Abramovich ensina-nos imediatamente como ver o seu filme, propondo a melancolia do título antes de a contrapor com pornografia. Essa virá também, e não demora muito apesar dos ritmos ponderados com que a história se desenrola. Seguimos Lalo, perdido na tristeza quotidiana e que, na intimidade secreta das redes sociais, se expõe para incontáveis olhos. Temos o nosso primeiro vislumbre desses afazeres num tableau caseiro, mas a primeira nudez gráfica é feita na oficina do trabalho comum. Aproveitando o momento a sós, lá se faz proveito do cenário para uma sessão fotográfica em selfies despidos.


Com pouco diálogo e sempre numa observação estudada do seu sujeito, “Pornomelancolía” retrata-nos a interseção entre o êxtase carnal e um vazio que nem o orgasmo nem a admiração alheia colmatam. Os desvios estilísticos só se fazem para o ecrã do telemóvel, onde se tiram e editam fotos, se faz curadoria da imagem privada feita pública e se respondem a propostas de trabalho pornográfico. Também há sexo fora do alcance das redes sociais, mas esse faz-se sem grande paixão. Primeiro temos o quarto escuro de um clube qualquer, zona de cruising banhado em luz vermelha. Depois, um encontro casual na calada de um ginásio.

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Os códigos do desejo estão todos lá, a imagem gráfica e explícita, sem pudores ou vergonhas. Contudo, falta o elemento final que torna o sexo em algo erótico, tanto para a câmara como para os corpos comungados. Isto não é um apontamento negativo, diga-se de passagem. Abramovich não está a fazer um filme sobre o júbilo sexual, mas sim um retrato de depressão escondida pela fachada bela. Também não está em julgamentos morais, estando “Pornomelancolía” sempre distante de qualquer tipo de declaração anti-sexo, ou mesmo contra o trabalho sexual com que Lalo passa os dias, com que se explora.

A objetificação do próprio para o prazer do outro não é um crime nem um pecado e não será a câmara de Abramovich que se porá a contradizê-lo – fora os puritanismos! De facto, há uma clara adoração pelo corpo de Lalo Santos, um influencer e ator porno aqui num papel próximo da autoficção. Ora em momentos casuais, como um chuveiro matinal, ou na coreografia feita para o Twitter, celebra-se esta masculinidade entesada e assumidamente queer. Diríamos mesmo que é na encenação, no plateau de um porno sobre Emilio Zapata, que esta trama mais se aproxima de um tom eufórico e encontra chance para o riso, para o discurso inspirador e preciosa leveza.


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© Gema Films

É como se Lalo só atingisse o fulgor do desejo quando o finge para espetadores. Não tanto num termo de exibicionismo como na necessidade de mentir a si mesmo, talvez na companhia de outros que pensam como ele em relação ao corpo, ao sexo, e ao trabalho. Também se abrem as portas para uma vertente meta-cinemática, não fosse “Pornomelancolía” um filme sobre aqueles que fazem filmes. Podem não ser obras que passem no circuito de festivais prestigiados, mas não deixam de ser comunicações de ideias entre criadores e espetadores por meio da câmara. Há algo a valorizar nesta arte que muitos condenam como não tendo valor artístico. Há que valorizar o lavoro da sua construção – trabalho duro em mais do que um sentido.

Há um momento caricato em que até se faz apelo às dualidades Buñuelinas patentes n’“Este Obscuro Objecto do Desejo.” Ou talvez seja só o pretexto para um jogo solipsista no qual Lalo está, em jeito da ficção dentro da ficção, tendo sexo consigo mesmo. Enfim, no final, até o idílio das filmagens se perde e lá volta a cair o protagonista nas marés da depressão, as ondas mais altas que nunca. Também voltam as redes sociais e o sexo que mais pica dá é aquele que pode ser feito em jeito de negócio e performance. Sente-se o prazer quando se interpreta o prazer, mas o vazio por detrás permanece. “Pornomelancolía” não oferece solução para esse mal, deixando-se ficar na maravilha de um retrato franco sobre problemas de saúde mental e uma pessoa marginalizada pelo cinema mainstream. Não são necessárias falsidades ou a arrogância de uma solução, de uma catarse. Aqui, o honesto é rei.


Pornomelancolía, em análise
pornomelancolia critica queer lisboa

Movie title: Pornomelancolía

Date published: 25 de September de 2023

Director(s): Manuel Abramovich

Actor(s): Lalo Santos, Adrián Zuki, Chacalito Regio, El Indio Brayan, Netito, Lothar Muller, Delmar Ponce, Diablo, Mauricio Alivias, Octavio, Turko, Juan Ro

Genre: Drama, 2022, 98 min.

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

“Pornomelancolía” é um estudo de personagem onde se intersecta um tom introspetivo com o trabalho do sexo. Lalo Santos interpreta uma versão adaptada de si mesmo nesta docu-ficção de Manuel Abramovich que muito faz para desconstruir a imagem erótica e analisar aqueles que a produzem. De poucas palavras, mas muita nudez, a fita atinge um teor forte de autenticidade sem cair em clichés.

O MELHOR: A franqueza do retrato principal, tanto da personagem como seus proveitos carnais. Passagens em que se evidencia o lavoro da pornografia são de especial interesse sem cair em parvoíces púdicas ou lasciva inestética.

O PIOR: Seguindo as palavras de Lalo Santos em relação ao filme, sente-se que não foi experiência agradável ou que o resultado reflita a opinião do ator. Numa mensagem recente, até assumiu que não faria parte de “Pornomelancolía” se pudesse voltar atrás. Tais desavenças internas causam a dor de quem admira a fita, especialmente quando tanto do seu valor devém da entendida simpatia que tem por trabalhadores do sexo.

CA

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