A ativista e vereadora Erika Hilton em "Corpolítica" |©Liz Dórea, Blinia Messias

Queer Lisboa ’22 | Corpolítica, em análise

“Corpolítica”, filme assinado pelo realizador brasileiro Pedro Henrique França, teve estreia mundial no Queer Lisboa. Como obra com elevado teor ativista, este documentário provocou notória emoção na plateia mobilizada na Sala Manoel de Oliveira. Como consequência, não é espantoso que a obra tenha saído do Queer Lisboa 26 com o Prémio do Público na categoria de Documentário. 

Lê Também:
Queer Lisboa ’22 | Nuestros Cuerpos Son Sus Campos de Batalla, em análise

As eleições gerais do Brasil estão à porta (já em outubro) e, por isso, um objeto documental como “Corpolítica” faz todo o sentido na programação do Queer Lisboa 2022 – na capital este ano entre 16 e 24 de setembro. Embora Lula da Silva siga já à frente nas sondagens, à altura da redação deste texto, a política de Bolsonaro nestes últimos anos tem conduzido a nefastas consequências na vivência do povo brasileiro.

A uma crise espiritual e de valores acrescentam-se o aumento dos fundamentalismos religiosos, cristãos e evangélicos, perante uma população cada vez mais extremada e que responde de forma incendiária ao discurso de ódio promovido pelo líder da nação.

Como Pedro Henrique França evidenciou em sala, ao apresentar o seu filme e posteriormente na sessão de perguntas e respostas, Bolsonaro não era uma nova cara. O seu ódio e políticas misóginas e discriminatórias contra a comunidade LGBTQIA+ não eram novidade alguma, como o seu filme bem ilustrou através de uma cuidada organização de arquivo. Por isso, a sua eleição provocou a divisão no seio familiar e em diversas comunidades, perante o choque de aqueles que se opõem veemente ao seu regime de intolerância.

 

 

Ver esta publicação no Instagram

 

Uma publicação partilhada por Corpolítica (@corpolitica.doc)

Agora, o Brasil tem a hipótese de revitalizar a sua democracia. “Corpolítica” tem como intuito contribuir para uma visão mais positiva do mundo da política e das estruturas de poder, transmitindo uma importante lição acerca de inclusividade e participação ativa. O filme, inserido na Competição de Documentários, posiciona-se num cenário devastador de pronunciada ascensão da extrema-direita – que vimos esta semana chegar também a Itália – e procura explorar um ângulo que contrarie drasticamente o sentimento intenso de desastre iminente.

“Corpolítica” explora o medo sentido pelas pessoas LGBTQIA+, o seu sofrimento e dificuldade em sobreviver no país do mundo que mais pessoas LGBT mata. Por outro lado, explora também as suas contra-reações e os seus atos de coragem pronunciados. Jair Bolsonaro tomou posse no início de 2019. Nas eleições de 2020 houve um número recorde de candidates LGBTQIA+ para postos de vereadores nas câmaras municipais de todo o Brasil, como nunca antes se havia verificado.

Esta enorme mobilização inédita, como consequência direta de um apagamento cruel que estas pessoas têm vindo a sofrer, motivou Pedro Henrique França, que acompanhou de forma quase integral as campanhas de vários candidatos, e as quais nos apresenta ao longo de cerca de 1h40 de filme. A luta por direitos mais plenos, as suas histórias de vida, na esfera política e pública mas também familiar, privada e afetiva, são nos apresentadas de forma intercalada e fragmentada, através de um registo de documentário bastante tradicional.

Do ponto de vista formal, a obra sofre vários percalços: o tratamento do som direto, nitidamente problemático nalgumas cenas; a sobreposição de demasiado texto no ecrã, combinado, para piorar a situação, com a adição da voz off do realizador em simultâneo, impossibilitando a concentração nos dois elementos ao mesmo tempo; ou ainda a necessidade constante que a realização sente em narrar a história, ao invés de deixar brilhar a solo os seus intervenientes.

Não obstante, estas questões formais menos louváveis são muito bem contrabalançadas pelo trabalho de investigação exímio que caracteriza “Corpolítica”, um filme que não acompanha apenas a jornada de candidatura de várias pessoas em 2020, como estabelece uma relação direta e bem fundamentada entre falta de representatividade e crimes perpetuados contra a população LGBTQIA+.

Jean Wyllys, o primeiro deputado abertamente gay a integrar a Câmara de Deputados, desistiu do seu cargo à terceira reeleição, em 2019, após inúmeras ameaças de morte. Hoje, o académico, escritor, ativista e antigo vencedor do Big Brother Brasil encontra-se em exílio político. O seu testemunho em “Corpolítica”, a par do das vereadoras trans eleitas nos últimos anos, permite-nos construir um estudo mais estruturado acerca da política no Brasil, a qual chegou a níveis quase insanos de disseminação de fake news e violência verbal/ incitamento à violência em plena sessão plenária.

Os vários candidatos e candidatas a cargos públicos pensam também aquilo que, na sua subjetividade, constitui um “corpo político”, refletindo acerca de classe social, raça, orientação sexual e de género a partir de vários pontos de vista.

Lê Também:
Queer Lisboa ’22 | BR Trans, em análise

Num exercício completo e que coloca muitas questões, Pedro Henrique França também entrevista dois vereadores municipais LGBT – um trans e um gay e negro – onde nenhum dos dois tem qualquer preocupação em defender pastas alusivas aos direitos LGBTQIA+, ainda pouquíssimo salvaguardados no Brasil. Será que o seu não ativismo, a forma como são passivamente aceites no meio político, faz mais mal que bem? O filme parece dizer-nos que sim e estamos inclinados a concordar.

É-nos também apresentado um interessantíssimo (e perverso) debate em torno da polémica do “kit gay”, onde há vários anos uma campanha de Lula da Silva (programa “Escola Sem Homofobia”) , que prometia implementar uma linha educacional contra a discriminação, acabou por ser utilizada como moeda política para um discurso absurdo em torno da suposta “ideologia de género”. No fundo, uma versão ainda mais perigosa da que temos vindo a ouvir em Portugal em torno da disciplina de cidadania e o seu alegado conteúdo promotor de uma “ideologia de género”. Este capítulo permite-nos compreender o quão transversal é realmente o problema.

 

Mas “Corpolítica” não é apenas uma obra informativa, é uma longa-metragem documental muito emotiva e que nos apresenta sujeitos de forma plena. Introduz-nos à história de Monica Benicio, companheira de longa data de Marielle Franco – feminista, ativista junto das comunidades locais e vereadora assassinada, cuja morte chocou o mundo. Monica concorreu pela primeira vez a vereadora para simbolicamente preencher o lugar que Marielle deixou vazio, e é com emoção que a vemos tomar posse no final do filme.

Outra história de esperança muito especial neste filme é a de Erika Hilton, vereadora de São Paulo desde o início de 2021. Erika foi expulsa de casa, como tantas outras mulheres trans no Brasil e como tantas outras teve de se virar para a prostituição para sobreviver. Contudo, conseguiu sair das ruas, ser novamente aceite no meio familiar, voltar a estudar e procurar a representatividade a que nunca teve direito. Foi a vereadora mais votada em todo o país e a primeira vereadora trans da Cidade de São Paulo. A sua história e dedicação enriquecem sobejamente a obra documental.

“Corpolítica” teve estreia mundial no 26º Queer Lisboa e, passados poucos dias, a 26 de setembro, exibiu pela primeira vez no Brasil no Festival Internacional de Cinema de Brasília.

[Trailer] Corpolítica | Political Bodies | EN-US from SUMA FILMES on Vimeo.

Corpolítica, em análise

Movie title: Corpolítica

Movie description: Num cenário global de ascensão da extrema-direita ao poder, e diante de um recorde de candidaturas LGBTQIA+ nas eleições de 2020, váries candidates e polítices do Brasil relatam as suas experiências e violências na afirmação e luta por direitos no âmbito da política institucional do país.

Date published: 27 de September de 2022

Country: Brasil

Duration: 103'

Author: Pedro Henrique França

Director(s): Pedro Henrique França

Actor(s): Erika Hilton, Monica Benicio, Andréa Bak, William De Lucca

Genre: Documentário

[ More ]

  • Maggie Silva - 78
78

CONCLUSÃO

Com “Corpolítica”, o realizador Pedro Henrique França apresenta uma tese muito clara. Provar como a baixíssima representatividade política de pessoas queer no Brasil contribui ainda mais para a sua marginalização. Consegue fazê-lo de forma bastante inequívoca, através de múltiplos testemunhos e de um muito competente trabalho de arquivo. Assim, “Corpolítica” assume méritos tanto do ponto vista humano como sócio-político.

Pros

Uma investigação detalhada e o acompanhamento, ao longo do tempo, das campanhas políticas de várias pessoas LGBTQIA+.

Cons

Despojamento artístico do ponto de vista formal. Este é um filme feito para informar, educar e pontualmente emocionar, mas não para deslumbrar através de técnicas de cinema.

Sending
User Review
0 (0 votes)

Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

Maggie Silva has 485 posts and counting. See all posts by Maggie Silva

Leave a Reply