©Warner Bros.

Aos 64 anos, Tom Cruise é talvez a maior estrela de cinema viva. Consagrado por filmes como “Top Gun” ou “Missão Impossível“, o norte-americano foi cultivando uma carreira de grandes sucessos comerciais e grandes riscos. Havia sempre um equilíbrio entre o Cruise em modo blockbuster e o Cruise que se entregava aos grandes autores como Stanley Kubrick (“De Olhos Bem Fechados“) ou Paul Thomas Anderson (“Magnólia”).

Nos últimos anos, essa faceta mais artística do intérprete desapareceu. É que Cruise mudou o chip e decidiu que iria saltar de filme gigante em filme gigante, superando-se sempre nas acrobacias. Contudo, longe ficou então a componente mais dramática do ator, e só sobrou o espetáculo.

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Em 2026, Tom Cruise arrisca e protagoniza “Digger”. Pela primeira vez em muito tempo, não há arnês, não há motos, não há aviões. Há uma transformação física, e mesmo debaixo de camadas de maquilhagem e próteses, encontrámos um ator que consegue estabelecer contacto com a sua humanidade e vulnerabilidade.

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Tom Cruise nas mãos de Alejandro González Iñárritu

Quem faz a proeza de tirar Cruise da sua zona de conforto é Alejandro G. Iñárritu, o multioscarizado realizador. No seu currículo, o mexicano conta com estatuetas por “Birdman” e “The Revenant“, o filme que valeu a Leonardo DiCaprio o cobiçado prémio. Agora, o cineasta volta a juntar-se a Alexander Dinelaris e Nicolás Giacobone, os argumentistas de “Birdman”, com Sabina Berman e o próprio Iñárritu para uma comédia de proporções catastróficas.

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Cruise é Digger Rockwell, o homem mais poderoso do mundo, um magnata do petróleo ostensivo cuja perfuração na Gronelândia liberta uma plataforma de gelo de um glaciar e desencadeia um desastre global. Perante o caos que ele próprio criou, Digger tem de convencer a humanidade de que é o seu salvador. A Cruise, junta-se um elenco talentoso com nomes como Sandra Hüller (“Anatomia de uma Queda“), Jesse Plemons (“Bugonia“), Riz Ahmed (“Sound of Metal“), Sophie Wilde (“Fala Comigo“), Michael Stuhlbarg (“A Forma da Água“), e John Goodman (“Argo”).

A sátira hóstil de Iñárritu que se vai revelando

Num tom operático e que quer mesmo ser desagradável, “Digger” vai-se desenrolando com uma frieza que quase nos dá vontade de desistir a meio. A comédia parece que nunca acerta no alvo: as piadas não têm graça, as falas são todas aos gritos e distantes, roçando o grosseiro. Iñárritu filma com uma energia exagerada e insiste numa piada que teima em não aparecer. O tom é demasiado hóstil e abrasivo. Durante um bom bocado, ficamos só à espera de uma pausa, de um momento de descanso que ajude a atenuar esta sátira tão puxada.

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A verdade, no entanto, é que o centro de tudo é Digger, uma personagem que conseguimos logo detestar. Nele, tudo foi feito para chamar a atenção: a voz, a maneira de gesticular, aquela certeza absoluta de que o mundo gira à sua volta. Tom Cruise veste a pele desta figura como se nada fosse e ajuda a endireitar o rumo da história. E o melhor é que, quanto mais interessante Cruise consegue tornar este homem detestável, mais o filme se começa a encontrar.

A maquilhagem e as próteses em “Digger” fazem muito mais do que simplesmente disfarçar Tom Cruise: soterrando por completo o rosto icónico que o público conhece há quatro décadas, obrigando-nos a redescobrir o ator através do que resta: a voz, o peso do corpo e o timing dramático.

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Por baixo da caricatura física, Cruise revela uma faceta intensa no meio deste exagero operático. Há uma inquietação fascinante, uma dúvida constante que contamina a performance: quanto de verdade genuína é capaz de caber dentro de uma caricatura tão grotesca? É essa vulnerabilidade inesperada que confere um peso magnético a tudo o que vemos no ecrã.

Tom Cruise não está sozinho… Um elenco de figuras excêntricas

À volta de Cruise, move-se um elenco de figuras excêntricas, todas interessantes. E é Hüller que entra logo com uma energia maníaca e vai de igual para igual com o protagonista, plantando a primeira faísca de que o filme precisa para arrebitar.

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Mesmo assim, é na cena do gabinete, onde somos apresentados a Goodman e ao resto do governo americano, que a longa-metragem entra nos eixos. O texto fica verdadeiramente engraçado e afiado, o visual pouco aprazível realça a comédia e Iñárritu enche o enquadramento de character actors (Stuhlbarg, Gorman, Burke) que dão peso ao momento só com o semblante carregado e expressivo.

Goodman não vai além da caricatura do presidente americano que tem para fazer, mas o veterano é a escolha ideal para equilibrar gravitas e repugnância. As cenas com Cruise são um deleite, apresentando dois titãs em perfeita sincronia.

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Digger é um filme que não quer ser ignorado

Digger Tom Cruise
© Legendary Entertainment

A opulência domina cada canto de “Digger”, transformando o excesso numa engrenagem essencial para a visão de Alejandro G. Iñárritu. A banda sonora de Cosmo Sheldrake pontua ativamente a calamidade. Em sintonia, os cenários e os figurinos ostentam uma extravagância calculada, evocando uma simetria e um cromatismo com ecos da estética de Wes Anderson, mas aqui aplicados de forma corrosiva a um apocalipse iminente.

Em vez de esconder o artifício técnico, o filme abraça-o orgulhosamente como uma virtude, usando essa artificialidade hiperbólica para sublinhar o extremo da situação.

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Uma aposta divisiva de Tom Cruise

No fundo, “Digger” é um filme sobre o que fazemos com o fim do mundo: como continuamos a viver, o que procuramos quando tudo à volta desaba, e para que serve a sátira quando a realidade já parece uma. É essa pergunta, mais do que o humor, que fica connosco, e é aí que Iñárritu deixa a sua declaração.

Há quem o ache vazio, grotesco demais, e o desconforto inicial afasta quem não tiver paciência. Mas esse desconforto é uma escolha. Convém guardar alguma paciência, porque o filme reserva uma mudança de perspetiva que dá outro peso ao que fica para trás. Quem ficar é recompensado com uma sátira surpreendente, que tem mais a dizer do que parece. Não é o filme mais fácil de Cruise, mas é o que mais o expõe em muito tempo, e essa exposição justifica a aposta.

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“Digger” chega aos cinemas portugueses esta quinta-feira, dia 1 de outubro.

Conclusão

Apoiado num tom operático e numa artificialidade deliberada, “Digger” aposta num visual desafiante e num humor que demora a aparecer para criar uma sátira altamente hostil. No entanto, com um elenco de apoio extravagante e um Tom Cruise transformado a servir de centro gravitacional, o filme acaba por justificar largamente a paciência de quem aceita o desafio.

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