Talk Talk | A melhor canção de cada álbum

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Celebramos o génio de Mark Hollis elegendo a melhor canção de cada álbum dos Talk Talk. Só serviu para a MHD perceber que todas elas deveriam estar aqui.

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The Party's Over - Talk Talk - Mark Hollis
Capa de The Party’s Over

“Talk Talk”, The Party’s Over (1982)

O new wave foi um dos géneros de música basilares da década de 80, abandonando a sonoridade rock and roll e blues e acolhendo a música disco, electrónica e a utilização de sintetizadores como elementos prepotentes. Enraizada no punk rock, esta “nova onda” da música popular, acessível e comercializável, herdou a inconvencionalidade lírica do género-mãe, convertendo a acentuada conotação política, o desagrado comunitário pelo status quo, em dissabor, inquietação privativa. De sonoridade dançável e visualmente lustrosas, foram várias as bandas new wave a agitar os clubes nocturnos, os meios de comunicação, as lojas de discos vinil e, pois claro, os corações das moças. Marionetas dos produtores musicais e editoras discográficas, do objectivo geral de satisfazer o hedonismo presente numa sociedade consumista, materialista? Em grande parte, sim. John Taylor, baixista dos Duran Duran, descreveu Colin Thurston, produtor de Duran Duran (1981) e Rio (1982), como um dos “principais catalisadores do som dos anos 80”, atribuindo o mérito real a quem trabalha “do outro lado”. No caso dos Talk Talk e do seu álbum de estreia The Party’s Over (1982), também produzido por Colin Thurston, a situação é diferente.

The Party’s Over (1982), a contribuição inaugural da banda de Mark Hollis para a indústria da música popular, não deve ser escutado e exposto como “qualquer outro álbum new wave” lançado durante a primeira metade da década de 80, mesmo tratando-se do seu disco mais comercial. E a razão? Nada mais, nada menos, do que o génio por detrás da banda de Londres, da sua obstinação por um afastamento, integralmente fundamentando na sofisticação musical, da bidimensionalidade e subserviência criativa. Ainda sem “carta-branca” para arquitectar produtos artísticos desamarrados de intervenções externas (como sucedeu, parcialmente, com Spirit Of Eden (1988) e, após a rescisão de contrato com a EMI Records, Laughing Stock (1991), Mark Hollis foi delineando este derradeiro estágio dos Talk Talk através de intrigantes ensaios precoces (“The Party’s Over”, por exemplo), ocultando-os por entre notáveis canções pop, superficialmente contagiantes e, perante um ouvido atento, portadoras de uma ânsia pelo desconhecido, pela livre experimentação. “Talk Talk”, o segundo single de The Party’s Over, é a nossa favorita do disco. O discernimento requerido para elaborar uma canção que agrade ao público geral (justificando, economicamente, o investimento da editora discográfica) não deve ser subestimado, muito menos quando camufla a (perigosa) ambição do próprio artista por debaixo da densa camada comercial.

Atentemos: Imediata e resoluta, “Talk Talk” é uma perspicaz escolha para inaugurar The Party’s Over, estabelecendo a atmosfera do disco de estreia da banda e, teoricamente, regendo-se pelas tendências do mercado. Acordes de sintetizador firmes definem o corpo da canção, complementados por uma batida e linha de baixo indissociáveis do género new wave. Colin Thurston fá-los sobressair no seu trabalho de produção, propositadamente. Contudo, as melodias vocais de Mark Hollis marcam a diferença. O vocalista alterna, incessantemente, entre o sussurro e a exclamação, nunca deixando cair a melosidade exigida pela indústria popular da década em causa. A voz é um instrumento enfático, sem receio de alvejar uma agudeza atípica suplicada pela componente electrónica, retornando, ciclicamente, à condição base.

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Originalmente redigido pelo irmão de Mark Hollis, Ed Hollis, o single foi subtilmente recomposto pelo rosto dos Talk Talk, adaptando-se à mudança dos tempos e às modas em vigor. Mark Hollis substituiu o peso sociopolítico da versão dos The Reaction, “Talk Talk Talk Talk”, por uma vertente mais íntima, entranhada na emoção pessoal. Todavia, agrada-nos a ideia de que uma canção sobre traição, extenuação gerada por um relacionamento tóxico, possa ter um fundamento distinto, simbólico, a trabalhar em simultâneo com este ângulo literal. A genialidade de Mark Hollis permitiu-lhe incrementar, progressivamente, a abstracção do seu produto musical, amparada pelo comprovado savoir-faire, pela percepção da estrutura pop. Como tal, faria sentido a idêntica inclusão de penetrantes indicações na secção lírica da música dos Talk Talk. “Well, did I tell you before when I was up?/ Anxiety was bringing me down/ I’m tired of listening to you talking in rhymes/ Twisting around to make me think you’re straight down the line”. O desabafo de uma alma exausta, fragilizada pelas adversidades de uma relação amorosa? Certamente. O desejo de dispersão da comercialização trivial, genérica, por enquanto restringida pela imprescindibilidade de integração na mesma? Porque não? O compromisso afectivo de um artista com a indústria musical baseia-se num câmbio contínuo de favores, privilégios e interesses. Frequentemente, a resolução não é amistosa e os objectivos de fundo colidem, como se veio a comprovar mais tarde. “When every choice that I make is yours/ Keep telling me what’s right and what’s wrong”. Mark Hollis só foi capaz de conceber os seus dois últimos projectos devido aos múltiplos sucessos comerciais prévios. Até aí, abdicou de muito, mas nunca da sua visão autêntica. (DAP)

TALK TALK | “TALK TALK”

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It's My Life - Talk Talk - Mark Hollis
Capa de It’s My Life

“It’s My Life”, It’s My Life (1984)

Segundo dos cinco álbuns de estúdio dos Talk Talk, “It’s My Life” é mais uma dos grandes obras da história do pop e considerado como um dos mais significativos exemplares do art-rock. Embora nenhum dos álbuns dos Talk Talk seja idêntico entre si, cada um afirmando sempre uma eclética evolução e novas fórmulas, o som da banda foi sempre imediatamente identificável, não importa a faixa ou o álbum. A sinergia singular de new wave, clássica, jazz e mais tarde ambiente, presentes sobretudo a partir deste segundo álbum, são uma marca de água indelével, a par da genialidade de composição e a voz singular do grande senhor que a liderou.

Repleto de grande canções, como “Dum Dum Girl” ou “Such a Shame” as quais poderiam bem ter igualmente merecido este destaque, “It’s My Life” reflecte de forma exemplar o refinamento de composição conseguido neste álbum, a par do amadurecimento da voz de Mark Hollis.

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“It’s My Life”, a canção, evolui às ordens da  batida quase matemática e imperturbável de Lee Harris, que constrói um edifício sólido como um prédio à prova de qualquer sismo, enquanto os sintetizadores se fundem com instrumentos reais como o piano e guitarra acústica, desenvolvem a narrativa e produzem melodias fantásticas, tal como uma orquestra sinfónica, criando o palco e pano de fundo a uma das mais belas e inconfundíveis vozes do rock, a de Mark Hollis. A capacidade de Mark Hollis se transcender e nos tocar emocionalmente, é aqui já notória, mesmo que “It’s My Life” possa parecer à superfície como apenas uma lindíssima canção pop. O génio afirmava-se. (RR)

TALK TALK | “IT’S MY LIFE”

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The Colour of Spring - Talk Talk - Mark Hollis
Capa de The Colour of Spring

“Living In Another World”, The Colour of Spring (1986)

Este foi de todos os álbuns dos Talk Talk, como seria de esperar, o mais difícil de sintetizar numa só canção, porque escolher o melhor tema de uma obra de transição tão notoriamente cindida entre o que vinha de trás e o que se adivinhava para a frente obrigava a uma decisão prévia. Devíamos situá-lo no seu tempo e vê-lo como o lugar da maturidade pop dos Talk Talk, onde a fórmula fora afinada e equilibrada, beneficiando da instrumentação mais orgânica, até produzir pérolas new wave únicas como “Life’s What You Make It” ou “Living In Another World”? Ou devíamos dar largas à nossa inclinação pessoal (e à da própria banda), assumindo a inevitável perspectiva histórica e vendo neste álbum a geração da nova e tão mais idiossincrática personalidade de Spirit of Eden e Laughing Stock? Mais ainda porque “April 5th” e “Chameleon Day”, bem como os casos mais intermédios de “Happiness is Easy” e “Give It Up”, têm um mérito próprio, em nada devedor do seu carácter de prenúncio, um valor que, embora só no contexto do porvir tenha emergido totalmente, sempre lhes coube.

Suponho que acabámos por privilegiar a maturidade pop em detrimento da juventude experimental, até porque o contrário terminaria, no limite, numa visão unívoca dos Talk Talk. Seria sempre possível, para cada álbum, até o de estreia, eleger como a melhor canção a que mais fazia prever o futuro – “The Party’s Over” ou “Renee” – mas esta abordagem esqueceria tanto a genialidade pop dos Talk Talk, como quanto deve ao outro cada um dos lados da sua personalidade artística, fermentando-se mutuamente.

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Ao que soaria a “Living In Another World” se gravada de acordo com os planos iniciais da banda, nunca saberemos. Segundo Keith Aspden, a canção foi alterada para cumprir as necessidades de comercialização do álbum: “Dei-lhes a ver que não havia faixas gravadas que pudessem ser tocadas na rádio. Para promoverem o álbum eficazmente, compuseram a ‘Life’s What You Make It’ e reconfiguraram a ‘Living In Another World’.” Tal como nos chegou é, provavelmente, a maior canção pop da banda, e não há razão para pensar que a versão final não seja melhor do que a inicial. Uma das grandezas da canção é precisamente a tensão entre a textura densa e repetitiva das estrofes, mais experimental e sugestiva de improvisação, e o crescendo eufórico da melodia pop do refrão. Numa base, sempre cada vez mais frenética, de ritmos hiperactivos de percussão e guitarra acústica, entretecida de solos de harmónica e guitarra elétrica, que aproximam esta canção do blues e revelam a estima da banda pelo rock progressivo da década de 70, entra na ponte a melodia tensa do órgão sublinhando o drama da prisão no labirinto: “Help me find a way from this maze/ I can’t help myself”.

Esta tensão explode no refrão com a melodia vocal tão eufórica quão exasperada se ouvida no contexto da letra, onde Mark Hollis admite a sua loucura: “But only angels look before they tread”. Porque como dizia Alexander Pope, o autor da expressão, “fools rush in where angels fear to tread”. Desta incomunicabilidade, deste encontrar-se já do outro lado do outro, num outro mundo, não se consegue sair sozinho. E assim, a exasperação gerada pela textura nervosa das estrofes e impulsionada pelas melodias de órgão e voz do refrão encontra na performance e no lirismo de Hollis o seu culminar. Tudo neste pedido de ajuda é convertido em grito, num dos desempenhos vocais mais francos e desinibidos que lhe conhecemos. (MPA)

TALK TALK | “LIVING IN ANOTHER WORLD”

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Spirit of Eden - Talk Talk - Mark Hollis
Capa de Spirit of Eden

“I Believe In You”, Spirit of Eden (1988)

À primeira audição, Spirit of Eden, de 1988, nem parece resultado da mesma banda que compôs The Party’s Over (1982). A electrónica new wave e estruturas ainda assim claramente pop começam a ficar para trás e a dar lugar a uma etapa mais ambiciosa, mais complexa e atmosférica, transcendentalmente bela, no melhor sentido da arte.

Seu quarto LP, Spirit of Eden começou a ser gravado em 1987, numa igreja abandonada em Suffolk. De mãos dadas com Tim Friese-Greene, que muitos consideram o virtual quarto elemento da banda. Na verdade Spirit of Eden consolida uma importante viragem, numa carreira inicial só por si já exemplar, pressentida em It’s My Life. Mark Hollis encontrou em Tim Friese-Greene a inspiração necessária à evolução traçada, mais atmosférica, rica e complexa, bebendo mais dalgumas formas ambientais de Jazz e um certo culto do silêncio, onde claramente less is more.

Mark Hollis afirma definitivamente um novo rumo, e impõe as suas regras à EMI, recusando prazos, singles pré-promocionais e sobretudo atuações em palco dificilmente capazes de reproduzir os níveis de performance que Mark e Tim tinham conseguido criar durante cerca de ano e meio de gravação. Esta convicção da arte acima da sua comercialização pareceu não agradar à EMI. Acusando mesmo os Talk Talk de terem criado um álbum anti-comercial, a editora resolveu lançar, à revelia da banda, um single de “I Believe In You”. Mark Hollis bateu com a porta e virou-lhe as costas, o que deu lugar, como resposta da EMI, ao lançamento das compilações Natural History e History Revisited, ambos sem qualquer envolvimento da banda.

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Mas a obra prima estava aí para nosso deleite e para constar dos anais da História da Pop. Apenas com 6 longas faixas, Spirit of Eden, como o próprio nome indicia, tem tudo o que seria necessário para nos levar ao paraíso, não fossem as fraquezas do ser humano e a dor implícita. “I Believe In You” é uma obra genial, da mais pura delicadeza e beleza artística, que se (re)visita com a mesma reverência que outras obras de arte, que pode ser colocada ao lado duma Pietà de Michelangelo.

“I Believe In You”, mais do que uma homenagem ao irmão Ed Hollis, também ele um dos fundadores dos Talk Talk, músico, compositor e produtor de parte da sua obra inicial, foi sobretudo um sofrido apelo de Mark Hollis para salvar o seu irmão mais velho do consumo de heroína e da sua ruína associada. Infelizmente demasiado tarde. Ed Hollis faleceu em Setembro de 1988. “I Believe In You” tem uma capacidade singular de nos agarrar como muito poucas canções conseguem. O conteúdo lírico não podia ser mais explícito quanto à sua dor, mas é sobretudo na entoação e no ambiente que Mark consegue criar que sentimos que algo de religioso emana da sua voz e nos arrepia o corpo, ao mesmo tempo que uma paz redentora nos conforta a alma. Para alguns de nós esta é a melhor canção dos Talk Talk, e uma das melhores da história da música moderna dos nossos tempos. (RR)

I Believe(d) in You, Mark.

TALK TALK | “I BELIEVE IN YOU”

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Laughing Stock - Talk Talk - Mark Hollis
Capa de Laughing Stock

“New Grass”, Laughing Stock (1991)

Não é fácil fazer sentido de Laughing Stock, nem aliás de Spirit of Eden ou outros artefactos semelhantes que jazem no limiar dos vários idiomas, baseados na recorrência e na variação. Pilhando diversas tradições musicais como o rock, o jazz e a música clássica, abstraindo de cada um destes idiomas certas características só para as manipular, recontextualizar e ordenar em sequências de eventos soltos e esporádicos, Mark Hollis deixa-nos perplexos diante de um objecto do qual não sabemos o que fazer. Um convívio aturado com ele, contudo, descobre as regras deste jogo único e desvela as pequenas obsessões e intenções que o orientam. No tempo, a identidade única e inimitável de cada tema emerge por memorização. Sabemos o que vem a seguir, não porque satisfaça ou brinque com as expectativas produzidas pelo que o antecedeu, mas porque o conhecemos de cor, numa familiaridade crescente que vai tornando tudo cada vez mais pungente e misterioso.

Uma batida sincopada suave mas marcial de bateria explora a sonoridade aguda e enervante dos pratos ou da tarola. Ao mesmo tempo que acusa a inspiração jazzística de Laughing Stock, gera uma tensão de fundo que raramente alivia, lembrando talvez a iminência do juízo divino que virá para destrinçar o bem do mal, fazendo justiça e renovando todas as coisas, a que o título da canção alude: “Then you will see this, and your heart will be glad, and your bones will flourish like the new grass; and the hand of the Lord will be made known to His servants, but He will be indignant toward His enemies” (Isaías 66, 14). Sob este fundo metálico inquieto, instala-se uma malha de guitarra elétrica de andamento lento, onde as notas reverberam límpidas, isoladas e indecisas, levando o seu tempo a surgir, a soar, a desaparecer, resistindo à nossa tentativa dominadora de abstrair o padrão do que nos escapa.

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Nela vão-se entrelaçando fios melódicos soltos de instrumentos que, pelos timbres ou o modo como são tocados, vão instalando a canção numa indefinível e etérea fronteira entre a música pop e a música clássica atonal. Desde as notas nostálgicas do piano ou os gemidos plangentes, trémulos e insistentes da harmónica e do violoncelo até ao brado do órgão, a “New Grass” vai viajando por entre eventos únicos que, irrompendo, para nunca mais reaparecerem, ora melódicos, ora dissonantes, não fazem senão suscitar uma aspiração perenemente insatisfeita. De algum modo e sob acção da capa, é uma viagem que relembra aquela outra tecida por T. S. Eliot, na sua Wasteland: “April is the cruellest month, breeding/ Lilacs out of the dead land, mixing/ Memory and desire, stirring/ Dull roots with spring rain.”

Submersa nesta textura nervosa e nostálgica, mas central ao drama, a voz de Hollis canta por si, e em nome de cada homem, o gozo da glória final: “Lifted up/ reflective in returning love you sing”. É a vitória sobre o pecado, sobre a ilusão em que este prende os homens, ao trazer-lhes pequenas e mornas satisfações que apenas alimentam e geram uma fome insaciável: “Errant days filled me/ Fed me illusion’s gate in temperate stream/ Welled up within me/ A hunger uncurbed by nature’s calling”. Uma vitória trazida pela graça que vem em socorro da frágil energia humana, cumprindo a promessa feita por meio de Isaías: “Seven sacraments to song/ Versed in Christ/ Should strength desert me/ They’ll come, they come”. A voz de Hollis some-se, quer pelo pudor reverente de pronunciar tais palavras, quer pela contemplação íntima, comovida, da salvação que vem. Mas some-se também pela morte que lateja no horizonte da vida, já não um buraco negro que tudo engole mas o abraço do amor, que tudo clama no seu sossego: “Heaven waits, Heaven waits/ Someday Christendom may come/ westward evening/ sun recedent/ Set my resting vow/ hold in open heart.” (MPA)

TALK TALK | “NEW GRASS”

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