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Three Kilometers To The End Of The World, a Crítica no Festival de Cannes

‘Three Kilometers To The End Of The World’, marca a estreia de Emanuel Parvu no Festival de Cannes como realizador, ele que é sobretudo um ator que tem trabalhado com vários realizadores da ‘nova vaga romena’ como Cristian Mungiu, Adrian Sitaru e Călin Peter Netzer.

Curiosamente essas referências estéticas e narrativas, são bem evidentes no aumento gradual da tensão do filme e no seu emaranhado labiríntico de favores, ameaças e corrupção, que têm sido os temas centrais da maioria dos filmes romenos da atualidade.

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Neste caso e sintetizando ‘Three Kilometers To The End Of The World’, conta a história de uma agressão homofóbica, que destrói uma família e numa pacata vila, localizada no Delta do Danúbio.

O jovem e bem-parecido Adi (Ciprian Chiujdea) de 17 anos é brutalmente espancado nas suas férias de verão em casa dos pais, mas é a estes que vai causar mais dor, causada pela sua incompreensão e amor destrutivo. A aldeia está cheia de mentes fechadas e de portas trancadas, de vergonha e segredos. Não é surpresa nenhuma que Adi sonhe mudar-se para Bucareste.

Logo na cena introdutória, vemos Adi conversando com um estranho – um turista da região. Ele já decidiu visitar o outro rapaz na capital. E fica claro que os rapazes estão flertando antes mesmo de o forasteiro, ousadamente colocar o dedo de Adi na boca, sob o pretexto de lhe tirar uma farpa. Obviamente o tema central ou melhor o leitmotiv de ‘Three Kilometers To The End Of The World’ — vagamente revelado logo no início — é que se trata de uma agressão gay, contra o rapaz.

A região do Delta do Danúbio é um cenário impressionante, filmado num widescreen bastante aberto, e numa paisagem com o céu limpo e horizontes abertos, algo que contrasta aliás com o conservadorismo e a dogmática ortodoxa da comunidade de Adi e dos seus pais.

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Ao não mostrar tudo, fornece-nos um dispositivo inteligente: não vemos a agressão em si, apenas as suas consequências quando Adi chega em casa com o rosto todo ferido; aliás também quando o realizador deixa Adi sair do plano, durante a insinuante conversa noturna com o turista.

‘Three Kilometers To The End Of The World’ é a história de Adi, mas é também a dos seus pais (interpretados por Bogdan Dumitrache e Laura Vasiliu), que lutam para ver seu filho como querem que ele seja. O impetuoso pai de Adi quer justiça e intimida o chefe da polícia local (Valeriu Andriuta) para que prossiga com a queixa. Mas o chefe tem as suas próprias lealdades e os seus interesses próprios, que não podem ser afectados, especialmente quando se torna claro que os culpados têm ligações poderosas.

A revelação sobre a sexualidade de Adi surge como um raio inesperado para os seus pais: a sua mãe chora mais com a notícia do que com a tareia que o rapaz levou. É por insistência dela que levam o rapaz ao padre (ortodoxo) local, que reza e espalha incenso para que Adi, que entretanto foi amarrado e amordaçado pelos seus pais em casa, se cure de sua homossexualidade.

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O padre até reflete sobre se a homossexualidade não poderia ter sido transmitida com a vacina Covid. A violência das boas intenções é horrível, destrutiva e dogmática, sintomático de uma profunda ignorância no seio da comunidade: o espancamento, sugere um homem local, foi justificado por causa da sexualidade de Adi.

Porém, a prioridade, e todos concordam, é manter tudo em segredo, em vez de arriscarem a ter um novo influxo de homossexuais, com as suas tatuagens, piercings e explorações sexuais ao ar livre, que arruinariam assim, a paz da comunidade.

Às vezes, ‘Three Kilometers To The End Of The World’, de Emanuel Parvu, quase poderia ser uma tragicomédia, porém , ao revelar tanta ignorância e estupidez, este filme acaba por não dar grandes motivos para rir.

Festival de Cannes em direto:

Three Kilometers To The End Of The World foi um dos filmes que vimos no Festival de Cannes.

Three Kilometers To The End Of The World, em análise

Movie title: Three Kilometers To The End Of The World

Movie description: A jornada de auto-descoberta de um jovem gay, numa comunidade conservadora do Delta do Danúbio, bate de frente com os valores tradicionais da sua família e vizinhança.

Country: Roménia

Director(s): Emanuel Parvu

Actor(s): Laura VasiliuA, drian Titieni, Bogdan Dumitrache

Genre: Drama, Thriller

  • José Vieira Mendes - 60
60

Pros e Contras

A favor: O não mostrar tudo, torna-se um dispositivo narrativo muito interessante, ora desvendando a trama pouco a pouco, ora  transmitindo a ideia da comunidade de que é preciso continuar a manter tudo em segredo.

ContraTirando a questão mais central da história de uma agressão e intolerância, tudo gira à volta do habitual labiríntico de favores, ameaças e corrupção, temas comuns à maioria dos filmes romenos da atualidade.

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