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Emilia Perez: Um musical que pôs Cannes a cantar e a dançar

Depois de “Bird”, eis que chegou “Emilia Perez”, do realizador francês Jacques Audiard, um filme que é uma originalíssima inversão de géneros ou a combinação deles todos e mais um potencial candidato à Palma de Ouro 2024.

Tem sido mais ou menos unânime, não sei se concordo em absoluto, — pois todos os anos dizemos a mesma coisa — que esta Competição 77 não tem sido das mais fortes de Cannes. Acho mesmo que depois do terramoto “Megalopólis”, estávamos a precisar desesperadamente de um filme que abanasse com isto tudo, e finalmente temos um: “Emilia Perez”, de Jacques Audiard (Palma de Ouro 2015 com “Dheepan”).

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Mas isto, não é assim tão pacifico porque há quem deteste — inclui-se uma boa parte da crítica portuguesa — este filme francês, recebeu os maiores aplausos da plateia nas projeções de imprensa tanto na sala Bazin, como na Grande Auditório Debussy.

“Emilia Perez” é digo sem receios e dando corda às balas, um filme brilhante em termos de concepção, escrita e acima de tudo realização, tudo o que é preciso para nos encher a alma. Mas o melhor mesmo ´que “Emilia Perez” é uma forma altamente original de romper e fazer algo novo com o género musical.

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Emilia Perez deixou Cannes a dançar e a cantar

“Emilia Perez”, de Jacques Audiard, trata-se de um filme musical, policial, melodrama ou uma comédia negra, bem longe dos padrões de Hollywood e uma piscadela de olho aos violentos dramas com os vilões e as militas armadas dos cartéis de narcotráfico mexicanos; ou então é tudo isto ao mesmo tempo, num filme falado em espanhol, sobre um grande traficante mexicano que decide transformar-se em mulher, deixando para trás a sua família e começando uma nova vida e mais digna.

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É a história de herói ambíguo ou de um anti-heróis, que desenvolve uma mudança radical de atitude ao longo da história, algo recorrente nos filmes do francês. É também abordado os temas tão em voga, das questões de género e da sexualidade, mas não em termos Woke ou de uma estética queer, embora esteja decerto modo implícita; “Emilia Perez” é sobretudo um conto de fadas moderno, que prefigura um sonho de mudança de sexo e que ao mesmo tempo procura denunciar uma verdade, sobre o destino dos de 100 mil desaparecidos assassinados nas última décadas no México, pela terrível violência dos cartéis do narcotráfico e pelos abusos, vingança e o fechar dos olhos de políticos e empresários corruptos e da igreja.

O personagem principal de “Emilia Perez” é vagamente inspirado num capítulo do romance “Écoute” do escritor francês Boris Razon, que creio não ter sido editado em Portugal. Porém o filme mostra que a equipa criativa do filme, além de um domínio perfeito do castelhano, mesmo ao nível da direção de atores, fez um estudo bastante aprofundado do contexto social, político, criminal e religioso e sobretudo da violência na sociedade mexicana da atualidade, que se estende a toda a América Latina.

A história começa com uma qualificada e subvalorizada, Rita Castro (Zoe Saldana) uma jurista que trabalha num grande escritório de advogados mais inclinado a safar a escória criminosa, violenta e corrupta, do que a servir a justiça. Entretanto, Rita recebe uma inesperada ligação telefónica, de um líder de um cartel de droga, chamado Manitas (Karla Sofia Gascón), que quer aposentar-se do ramo do crime e desaparecer para sempre.

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Para isso, Manitas tem um plano que vem elaborando secretamente há anos: finalmente tornar-se a mulher que sempre sonhou ser. Com a ajuda de Rita, esta viaja para Tel Aviv em busca do cirurgião perfeito e depois Manitas passa por uma intervenção cirúrgica de mudança de sexo de homem para mulher, mudando também de identidade, desaparecendo, mandando seus dois filhos e sua esposa Jessi (Selena Gomes) para a Suíça. Quatro anos depois, Manitas ressurge, como Emilia Perez reencontra Rita e pede-lhe para marcar também um reencontro com sua esposa e filhos. O problema é que eles não podem saber quem é Manitas, e portanto é uma sua tia rica que irá, abrigá-los na sua mansão multimilionária e de regresso ao México.

Fica aqui mais ou menos um pouco da história — não vale a pena contar o resto — deste filme longo (cerca de 132), que na verdade é uma visão louca, apaixonada e sensível de um realizador que sempre se preocupou com as raízes familiares e a dinâmica da violência masculina e que mais uma vez mostra a sua coragem e versatilidade para reinventar e experimentar os vários géneros cinematográficos. Olhe-se para toda a sua obra!

Em “Emilia Perez” inclui uma ligeira mudança de registo, realizado um melodrama moderno, cheio de intriga e filmado com cores fortes e deslumbrantes. Estava para aqui a pensar que Audiard, passou a perna ou melhor adiantou-se a Almodóvar, que sempre disse que gostaria de fazer uma musical.

O filme de Audiard oferece-nos igualmente uma excelente direção dos atores, a todos os níveis, num elenco que conta com Zoe Saldana, Karla Sofia Gascón e Selena Gomez. Edgar Ramírez fica um pouco ‘escuro’ e é pena para um ator do seu calibre.




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Karla Sofia Gascón é a grande estrela do filme

A grande figura é a estrela transgénero espanhola Karla Sofia Gascon — é uma personalidade muito conhecida da televisão mexicana — faz de Manitas/Emilia, e é absolutamente incrível numa interpretação que definitivamente pode ganhar um prémio, caso o filme não chegue à Palma de Ouro. Há orgulho, vulnerabilidade, sensibilidade e beleza na sua personagem de Emilia, que tocam no coração do espectador. Por sua vez Saldana, apresenta-se com grandes dotes vocais, canta e dança com grande entrega e sem esforço numa interpretação vibrante, talvez uma das melhores da sua carreira.

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A banda sonora da autoria da cantora francesa Camille — que escreveu as letras — e do seu parceiro, o compositor Clement Ducol é absolutamente notável. A música funciona como uma ópera-rock: as letras são faladas e cantadas e os versos conseguem grande harmonia entre si e com a ação que se vai desenrolando. As músicas não terminam apenas para o público explodir em aplausos, como nos musicais de palco. Há efectivamente, uma linearidade entre a música e as palavras, que nunca distrai do foco da história criminal.

Enquanto isso, também as coreografias são muito vistosas e combinam com o clima criado para uma cada uma das cena, não todas cantadas, mas sempre muito bem encadeadas. “Emilia Perez” é um filme que às vezes parece bastante vulgar e popular, que quer agradar a gregos e troianos, mas apesar de mostrar uma realidade aumentada, há nele uma ideia contra a descrença e intolerância e sobretudo é uma bela história de amor familiar.

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Finalmente é muito difícil não ser conquistado por esta visão de gozo e prazer que Jacques Audiard, nos proporciona ao longo destas mais de duas horas. Porém, apesar da beleza, não esperem nem um final feliz, nem uma moral didática. Um assombro de filme!

Emilia Perez, em análise

Movie title: Emilia Perez

Movie description: México, dias de hoje. Rita é uma advogada que recebe uma oferta inesperada. Tem de ajudar o chefe de um cartel a reformar-se e a desaparecer para sempre, transformando-se na mulher que sempre sonhou ser.

Country: França, EUA, México

Director(s): Jacques Audiard

Actor(s): Selena Gomez, Zoe Saldana, Edgar Ramírez, Karla Sofía Gascón

Genre: Comédia, Drama, Musical

  • José Vieira Mendes - 100
100

Prós e Contras

O Melhor: O filme nunca perde de vista o seu forte apelo para agradar ao público, e isso não impede a visão geral do filme. Audiard é um cineasta-autor que nas hesita em ter uma visão ‘comercial’. “Emilia Perez” foi feito certamente para atender a uma variedade de gostos: crítica ao público e os jurados.

O Pior: O final é cheio de ação e embora divertido, não combina muito bem com a vibração fervorosa do resto do filme. O mesmo pode-se dizer da sub-trama que envolve Emilia e Rita, na organização sem fins lucrativos para ajudarem os familiares a procurarem as vítimas da violência dos cartéis do narcotráfico. Mas também neste aspecto tem o tal lado de denúncia social.

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