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77º Festival de Cannes | Le Deuxième acte, de Quentin Dupieux, uma farsa lúdica e provocadora

Quentin Dupieux (já) está de volta e abriu ontem com muitas risadas o quase sempre sisudo e sério Festival de Cinema de Cannes. Em “Le Deuxième acte”, Dupieux brinca com a fronteira entre ficção e realidade, num filme divertido e insolente, também sobre o cinema dentro do cinema.

Poucos meses após os lançamentos de “Yannick” e “Daaaaaalí!”, o alucinado cineasta francês Quentin Dupieux regressou com “Le Deuxième acte”, um filme falsamente sábio, verdadeiramente engraçado e politicamente incorreto, que abriu ontem à noite o Festival de Cannes 2024, mas fora de competição.

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Com a marca Netflix mesmo assim foi lançado nos cinemas franceses no mesmo dia, contradizendo de certo modo a afetação que o festival tinha contra as plataformas de streaming. E a grande ironia é que o filme funciona mesmo como uma bomba-relógio que salpica o cinema francês e critica as grandes hipocrisias da sociedade contemporânea, mas sempre com a quantidade certa de ironia e melancolia.

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O filme, à primeira vista, — porque nunca sabemos se no ato são personagens ou são os atores eles mesmos, embora com outros nomes — conta a história de Florence (Léa Seydoux) que quer apresentar David (Louis Garrel) ao seu pai, Guillaume (Vincent Lindon). Só que David gostaria de se livrar de Florence colocando-a nos braços de seu amigo Willy (Raphaël Quenard).

Todos vão-se encontrar-se para almoçar, num restaurante de estrada, chamado precisamente “Le Deuxième Acte”. Porém, como em todos os filmes de Quentin Dupieux, claro que algo está errado evidentemente.




“Le Deuxième Acte” apresentado no Festival de Cannes

Confuso, sarcástico e sério, “Le Deuxième acte” torna-se numa valsa entre a verdade e a falsidade, que vira de pernas para o ar e sobre si mesmo a nata do cinema de autor francês. Dupieux e o seu elenco, um quarteto de luxo (Léa Seydoux, Vincent Lindon, Louis Garrel e Raphaël Quenard), complementado pelo ‘figurante’, interpretado por Manuel Guillot, brincam com fingimento e com a verossimilhança ao ponto de facto de não sabermos, se o filme ri deles, de nós, ou se todos deveríamos começar a chorar, de tantas contradições e tantas hipocrisias e falsidades.

Tanto as personagens como os atores encaram numa espécie de “filme anomalia” que empurra a auto-depreciação para uma sinceridade desarmante e cria um desconforto voyeurista que é inicialmente engraçado, mas que rapidamente se torna preocupante. Nunca sabemos exatamente o que estamos a ver em “Le Deuxième acte”. É uma rodagem de um filme, os ensaios de uma rodagem ou um making of?

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Vincent Lindon reclama da interpretação de Léa Seydoux que faz de sua filha, as personagens do filme discutem e às vezes até violentamente um argumento ou os atores são mesmo personagens inventadas por Dupieux? Jogando com esses vários níveis de realidade no mesmo plano e quase sempre em longas tiradas ou no mesmo longos plano sequência, o filme torna-se verdadeiramente hilariante, mas ao mesmo tempo vertiginoso, no seu ritmo compassado e dialogante: afinal onde começa a ficção e onde termina o jogo?

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Pontilhado de pequenos efeitos discursivos, desarmantes e inesperados, o filme surpreende-nos e questiona-nos constantemente. Enfim foi uma escolha bastante audaciosa para esta abertura do Festival de Cannes 2024, pois Quentin Dupieux, o homem que filma mais rápido que a sua própria sombra, “flirta” permanentemente com a estranheza, o absurdo, o surrealista e o experimental. Porém este “Le Deuxième acte”, consegue ser um filme perversamente lúdico e provocador. Ai está!

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