O Festival de Cannes 2026, Depois Veneza e a Guerra das Estrelas
Spielberg, Tom Cruise, Zendaya e um avião cheio mas sem Netflix: o que já sabemos — e sobretudo o que se cochicha — sobre Cannes 2026 e Veneza 2026, os dois maiores festivais europeus de cinema e claro o que vamos ver na próxima temporada cinematográfica.
O ano mal começou e já há dois homens a fazer quilómetros de avião como caçadores de borboletas cinematográficas: Thierry Frémaux e Alberto Barbera. O primeiro dirige o Festival de Cannes, o segundo o Festival de Veneza. Ambos têm exactamente a mesma missão secreta todos os anos: convencer realizadores, agentes, produtores e estúdios de Hollywood de que o seu filme merece estrear na sua respetiva passadeira vermelha. É uma dança diplomática, quase uma espécie de lota ou mercado de peixe mas em versão glamorosa. Um promete palmas de dez minutos, outro oferece uma lagoa romântica e um leão dourado. Cannes tem o Mediterrâneo, Veneza tem o Lido. Cannes tem a Croisette, Veneza tem palácios renascentistas e a placidez das praias do Mar Adriático. Cannes tem história, Veneza tem melancolia. No fundo, ambos querem a mesma coisa: os grandes filmes do ano. E 2026 promete ser particularmente animado. Se metade dos rumores se confirmarem, a Croisette poderá parecer um cruzamento entre um congresso de autores consagrados e uma Comic-Con com pedigree cinéfilo.
Spielberg, Fincher, Villeneuve: Hollywood bate à porta da Croisette
Entre os títulos que já circulam nos corredores da indústria — e nos e-mails nervosos dos programadores — há um que parece inevitável: Disclosure Day, de Steven Spielberg. Spielberg continua a fazer o que sempre fez melhor: transformar o desconhecido em espetáculo. Desta vez regressa ao território extraterrestre que já explorou em E.T. e Encontros Imediatos de Terceiro Grau, com um thriller sobre a revelação de vida alienígena à humanidade. No papel principal estão Emily Blunt e Josh O’Connor. A premissa é simples e irresistível: e se alguém provasse definitivamente que não estamos sozinhos? Spielberg tem uma relação antiga com Cannes. Foi ali que ganhou o prémio de argumento com Sugarland Express em 1974, foi ali que exibiu E.T. em 1982 e foi ali que presidiu ao júri em 2013. Portanto, se Disclosure Day ou Dia da Revelação aparecer na Croisette, ninguém ficará surpreendido. Provavelmente fora de competição, com a plateia em pé e os drones a filmarem o aplauso. Outro título que pode incendiar a conversa é Digger, de Alejandro González Iñárritu. O filme traz Tom Cruise no papel de um homem poderosíssimo que tenta convencer o mundo de que é o salvador da humanidade, antes que o desastre que ele próprio provocou destrua tudo. Ou seja: uma comédia negra sobre ego, poder e apocalipse. Com Tom Cruise. Isto promete. Cruise tem também uma relação curiosa com Cannes. Nos últimos anos transformou o festival numa espécie de plataforma de lançamento das suas acrobacias cinematográficas. Já levou aviões, helicópteros, missões impossíveis e multidões delirantes. Não seria estranho que regressasse com mais um momento de marketing épico.
Cliff Booth regressa: Fincher encontra Tarantino
Outro rumor delicioso envolve David Fincher. O realizador poderá regressar aos festivais com The Adventures of Cliff Booth, um spin-off de Era Uma Vez em… Hollywood, de Quentin Tarantino. Brad Pitt volta ao papel do duplo mais cool do cinema recente, agora transformado em solucionador de problemas nos bastidores da indústria. A ironia é que o filme é produzido pela Netflix. E Cannes continua a não aceitar filmes da plataforma em competição. Resultado: se aparecer num festival, Veneza parece o destino mais provável. Alberto Barbera nunca teve problemas com o streaming. Pelo contrário: adora estrelas e manchetes.
O avião sem ecrãs de Ruben Östlund
Entre os favoritos dos cinéfilos está ainda Ruben Östlund. O realizador sueco ganhou duas Palmas de Ouro seguidas — O Quadrado e Triângulo da Tristeza — e prepara agora The Entertainment System Is Down. A premissa é brilhante: um voo de longa distância entre Inglaterra e Austrália onde o sistema de entretenimento deixa de funcionar. Nada de filmes. Nada de séries. Nada de ecrãs. Só passageiros aborrecidos. Ou seja: um laboratório humano perfeito para o caos. Östlund filmou grande parte do filme dentro de um Boeing 747 real. E já prometeu algo muito Cannes-like: “o maior abandono de sala da história do festival”. Se cumprir a promessa, a Croisette agradecerá. Senão vai para Veneza ou segundo consta nos últimos dias até já pode ser empurrado para 2027. Mas veremos se não é para criar mais expectativa?
Denis Villeneuve e a terceira visita a Arrakis
Outro título que pode dividir Cannes 2026 e Veneza 2026 é Dune: Parte Três, de Denis Villeneuve. O universo de Frank Herbert regressa com Timothée Chalamet, Zendaya, Florence Pugh, Rebecca Ferguson e companhia. O filme só estreia no final do ano, mas os festivais adoram estreias de grande escala. Veneza tem vantagem histórica: foi ali que o primeiro Dune estreou em 2021. Mas Cannes adora espetáculo. Se aparecer na Croisette, o festival inteiro poderia viver uma semana dentro de Arrakis. E sejamos honestos: Zendaya na Croisette garante logo meia internet em colapso.
Farhadi, Pawlikowski e James Gray: o lado autoral
Nem tudo são blockbusters. Entre os nomes mais prováveis para competição de Cannes 2026 estão alguns autores clássicos do circuito de festivais. Asghar Farhadi regressa com Parallel Tales, filmado em Paris com Isabelle Huppert, Catherine Deneuve e Virginie Efira. Cannes sempre foi casa para o realizador iraniano, que já ganhou prémios importantes ali. Paweł Pawlikowski, autor de Ida e Cold War, prepara 1949, um drama histórico protagonizado por Sandra Hüller. E James Gray poderá aparecer com Paper Tiger, um thriller criminal com Adam Driver, Scarlett Johansson e Miles Teller. Se estes três filmes entrarem na competição, Cannes terá novamente aquele equilíbrio clássico: estrelas de Hollywood de um lado, dramas existenciais europeus do outro.
Refn regressa depois de uma década
Outro regresso aguardado é o do dinamarquês Nicolas Winding Refn (O Demónio de Neon), que não filma para cinema há quase dez anos. O seu novo filme chama-se Her Private Hell e promete “sexo, brilho e violência”. Ou seja, exactamente aquilo que esperamos de Refn desde Drive. O elenco é jovem e elegante: Charles Melton, Sophie Thatcher, Kristine Froseth. A Neon — a grande distribuidora internacional de cinema de autor como por exemplo O Agente Secreto — já comprou os direitos de distribuição mundiais. Se aparecer em Cannes, preparem-se para aplausos entusiasmados e críticas furiosas, o destino habitual do realizador dinamarquês.
O cinema francês também quer jogar bem em casa
Claro que Cannes 2026 nunca esquecerá o seu próprio cinema. Entre os rumores estão L’Inconnue, de Arthur Harari, com Léa Seydoux, e Full Phil, novo filme de Quentin Dupieux com Woody Harrelson e Kristen Stewart. Dupieux é um caso curioso: um realizador que faz filmes absurdos a um ritmo quase industrial. Pneus assassinos, moscas gigantes, surrealismo parisiense. Cannes gosta dele porque ele transforma o festival numa festa. Também se fala em Bunker, de Florian Zeller, com Penélope Cruz e Javier Bardem. Um thriller psicológico sobre um casal cuja relação implode quando um bilionário tecnológico entra nas suas vidas. Em tempos de bilionários a construir bunkers reais para sobreviver ao apocalipse, parece ficção científica documental.
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Park Chan-wook © Lee Seung-hee
Park Chan-wook: o presidente com martelo
Enquanto os programadores caçam filmes, Cannes 2026 já anunciou uma decisão importante: o presidente do júri será Park Chan-wook. Uma escolha perfeita. Park é um cineasta que entende o cinema como arte e provocação ao mesmo tempo. Em 2004 apresentou Oldboy – Velho Amigo, talvez o filme mais famoso da história moderna do festival. A cena do corredor, o martelo, o polvo devorado vivo: tudo isso se tornou iconografia. Desde então construiu uma carreira singular. A Criada reinventou o thriller erótico. Decisão de Partir misturou romance e investigação criminal com elegância hitchcockiana. O seu cinema tem uma qualidade rara: é popular e sofisticado ao mesmo tempo. Como presidente do júri, Park representa uma ideia de cinema que Cannes gosta de celebrar: estilizado, provocador e profundamente moral. Ou, como diria um produtor americano: perigoso.
Peter Jackson: da Terra Média à Croisette
Outra notícia confirmada é a Palma de Ouro Honorária para Peter Jackson. Uma homenagem curiosa e simbólica. Jackson começou como realizador de filmes de terror absurdos na Nova Zelândia — Bad Taste, Braindead — antes de realizar uma das maiores apostas da história de Hollywood: O Senhor dos Anéis. Filmada simultaneamente durante meses na Nova Zelândia, a trilogia transformou o cinema de fantasia num fenómeno global. Ganhou 17 Óscares e redefiniu o conceito de blockbuster. Cannes teve um papel curioso nesse percurso. Em 2001, antes da estreia mundial, Jackson mostrou ali 26 minutos de imagens de A Irmandade do Anel. Foi suficiente para convencer a imprensa de que algo extraordinário estava a acontecer. Vinte e cinco anos depois, Cannes 2026 presta-lhe uma justa homenagem. Um gesto que reconhece algo importante: o cinema de grande espetáculo também pode ser arte.
Barbra Streisand: Hollywood encontra Broadway na Croisette
Mas Cannes 2026 decidiu este ano subir ainda mais o volume da nostalgia e da mitologia pop. Além de Peter Jackson, o festival vai entregar também uma Palma de Ouro Honorária a Barbra Streisand. Sim, essa mesma. A mulher que canta como se estivesse a discutir com Deus. Streisand é um fenómeno raro na cultura popular: actriz, cantora, realizadora, produtora, compositora e uma das maiores figuras do espectáculo americano das últimas seis décadas. Os números são quase absurdos. Dois Óscares, dez Grammys, onze Globos de Ouro, dezenas de discos de platina e uma carreira que atravessa gerações sem nunca parecer realmente datada. No cinema começou com estrondo em Funny Girl-Uma Rapariga Endiabrada, em 1968, ganhando imediatamente o Óscar de Melhor Actriz. Depois vieram clássicos populares como Hello, Dolly!, Nasce Uma Estrela ou uma das histórias de amor mais icónicas do cinema americano do pós-guerra, O Nosso Amor de Ontem. Mas Streisand não se limitou a ser estrela. Foi também uma das primeiras mulheres em Hollywood a impor-se como realizadora num grande estúdio. Yentl, que dirigiu, produziu e protagonizou em 1983, tornou-se um símbolo de emancipação artística e feminina, numa época em que Hollywood ainda olhava com desconfiança para mulheres atrás da câmara. No fundo, a homenagem de Cannes reconhece algo simples: Barbra Streisand é um pedaço vivo da história do espectáculo. Uma ponte entre Broadway e Hollywood, entre o musical clássico e o cinema moderno. Ou, como disse Thierry Frémaux com a sua habitual elegância diplomática, uma artista que “sintetiza como poucas a magia do palco e do grande ecrã”. A Croisette prepara-se, portanto, para ouvir novamente aquele cumprimento lendário que abre Funny Girl: “Hello, gorgeous!”
Cannes vs Veneza: o duelo continua
No fundo, a história repete-se todos os anos. Cannes quer os grandes autores. Veneza quer as grandes estrelas. Cannes oferece prestígio histórico. Veneza oferece glamour melancólico. Cannes tem a Croisette em maio. Veneza tem a lagoa em setembro. Entre os dois festivais existe uma rivalidade elegante. Nenhum admite perder um grande filme para o outro. Por isso, neste momento, muitos títulos vivem numa espécie de limbo diplomático. Produtores conversam com ambos os festivais. Agentes negociam. Realizadores hesitam. No final, alguns filmes irão para Cannes 2026. Outros para Veneza 2026. Alguns acabarão em Toronto. E todos fingirão que essa era a decisão e a escolha desde o início.
A verdade simples sobre festivais
Apesar de toda a conversa sobre arte e prestígio, há uma verdade muito simples: festivais continuam a ser uma das melhores campanhas de marketing que o cinema tem. Um filme que estreia em Cannes ou Veneza ganha imediatamente atenção mundial. Críticos escrevem, redes sociais explodem, distribuidores fazem ofertas às vezes enormes pelos direitos de um filme. É publicidade gratuita, com aplausos incluídos. Num momento em que o box office mundial anda um tanto nervoso e o streaming domina a conversa, os festivais continuam a ser um dos poucos lugares onde o cinema se apresenta como evento personalizado e não digital ou à distância. Um ritual colectivo. Um grande ecrã, uma grande sala escura cheia de gente a respirar ao mesmo tempo.
Maio aproxima-se
Portanto, preparem-se. Que não tarda aí o anúncio da programação de Cannes 2026, normalmente revelado em meados de abril, ou melhor já marcado a 9 de abril. Porém, entre 12 e 23 de maio a Croisette voltará a transformar-se no centro do universo cinematográfico. Haverá rumores, vaias, aplausos intermináveis, selfies de estrelas e críticas escritas à pressa entre pelo menos três ou mais sessões diárias, conferências de imprensa, entrevistas ou os Rendez-vous com… . Talvez Spielberg data vez leve extraterrestres. Talvez Östlund leve um avião cheio de passageiros irritados. Talvez Tom Cruise apareça pendurado num helicóptero, com uma pá na mão. E talvez, como acontece todos os anos: o melhor filme venha de um realizador que ninguém estava à espera e ganhe a Palma de Ouro. Essa continua a ser a magia de Cannes. E a razão pela qual, apesar de tudo, ainda gostamos de acreditar que o cinema pode surpreender e, de vez em quando, até salvar o mundo.
JVM

