Ficamos com medo de acordar dentro de Léa Seydoux. ©PATHÉ FILMS

Entre o gelo moral de Cristian Mungiu em “Fjord” e o pesadelo carnal de Arthur Harari em “L’Inconnue”, a Competição de Cannes teve um daqueles dias em que o cinema decidiu perguntar-nos, com péssima educação: quem manda afinal numa família, num corpo, numa identidade e quem é que nos autoriza a ser nós próprios?

“Fjord”, de Cristian Mungiu, e “L’Inconnue”, de Arthur Harari, são dois filmes muito diferentes, vindos de planetas cinematográficos quase opostos, mas unidos por uma mesma obsessão: o corpo como conflito, a família como tribunal e a identidade como esse documento que julgamos ter no bolso até alguém nos dizer que afinal caducou e precisamos de o renovar.

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Quando a família entra em tribunal

Cristian Mungiu, mestre romeno dos dilemas morais servidos sem açúcar, regressa com “Fjord”, e só o título já parece trazer ar condicionado ou melhor frio incluído. Depois de “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, “O Exame” e “R.M.N.”, entre vários filmes exemplares, o mestre romeno Mungiu continua a ser um dos cineastas europeus que melhor sabe transformar uma situação aparentemente concreta numa armadilha ética onde todos entram muito convictos e saem a coxear. Desta vez, troca a Roménia pela Noruega, mas leva consigo a mesma pergunta de sempre: o que acontece quando a moral privada embate de frente contra a moral pública?

 

Fjord
Sebastian Stan e Renate Reinsve interpretam Mihai e Lisbet Gheorghiu, um casal romeno-norueguês.

Em “Fjord”, Sebastian Stan e Renate Reinsve interpretam Mihai e Lisbet Gheorghiu, um casal romeno-norueguês, cristão, devoto, conservador, instalado com os cinco filhos numa pequena comunidade junto a um fiorde norueguês. A paisagem é magnífica, claro. O tipo de paisagem que, nos faz pensar logo em retiros espirituais, casacos de lã, gooros, e cafés bebidos junto à janela a ver a neve cair. Mas Mungiu não veio vender  o turismo nórdico dos fiordes. Veio perguntar o que se esconde por baixo da neve, e a resposta raramente é simpática.

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A Noruega também tem monstros burocráticos

Quem diria, não é? Tudo começa quando Elia, a filha adolescente do casal, aparece na escola com hematomas. A partir daí, a comunidade primeira a escolar depois a urbana e pequena entra em combustão lenta. A escola observa, os vizinhos comentam, os serviços de protecção de menores avançam, e aquela família que parecia apenas diferente passa a ser tratada como potencial ameaça à ordem e aos valores estabelecidos aparentemente muitos educados e civilizados. Mungiu coloca-nos imediatamente numa zona desconfortável: de um lado, pais que educam os filhos segundo uma lógica religiosa, disciplinadora, rígida, com castigos, pontos, proibições e uma ideia muito antiga de autoridade; do outro, um Estado secular, progressista, convencido de que sabe proteger melhor do que qualquer família.

O problema — e é aqui que Mungiu é Mungiu — é que ninguém tem completamente razão e ninguém está completamente inocente. Mihai tem qualquer coisa de patriarca bíblico com software instalado no cérebro. Sebastian Stan, cada vez mais longe do parque de estacionamento da Marvel, dá-lhe uma opacidade inquietante: não é exactamente um monstro, mas também não é o tipo de pai a quem confiaríamos uma palestra sobre liberdade infantil. Renate Reinsve, por seu lado, faz da dócil e obediente Lisbet uma mulher dividida entre a fé, a maternidade, a culpa e a necessidade desesperada de se manter inteira quando tudo à volta começa a ruir.

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“Fjord” torna-se um filme mais forte quando não nos deixa respirar. Quando pergunta onde acaba a educação tradicional e começa a violência familiar. Quando mostra como uma sociedade civilizada pode tornar-se brutal sem levantar a voz. Quando transforma a protecção num mecanismo de vigilância, e a vigilância numa espécie de religião sem Deus, mas com formulários. Há qualquer coisa de Kafka com aquecimento central neste filme: ninguém entra exactamente numa prisão, mas todos começam a viver como se já tivessem sido condenados.

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Sebastian Stan
Sebastian Stan, cada vez mais longe do parque de estacionamento da Marvel. © Le Pacte

O filme perde alguma força quando se dispersa por demasiados caminhos, subtramas, tensões laterais e pequenas fugas narrativas. Mungiu, que tantas vezes foi implacável na precisão, aqui parece por vezes querer abrir todas as portas da casa ao mesmo tempo: religião, parentalidade, Estado, imigração, choque cultural, extrema-direita cristã, adolescência, desejo, medo da diferença. O resultado continua a ser sério, tenso e perturbador, mas nem sempre tem aquela lâmina fina e limpa dos seus melhores filmes. Há gelo, sim. Mas às vezes o gelo começa a derreter-se antes de cortar.

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Acordar no corpo errado, ou só acordar

Se “Fjord” nos prende numa família sitiada pelo Estado, “L’Inconnue”, de Arthur Harari, atira-nos para dentro de um corpo que já não nos pertence. E logo aqui convém dizer: depois de ter co-escrito com a companheira Justine Triet o argumento de “Anatomia de uma Queda”, Harari podia ter escolhido o caminho confortável do prestígio francês com lareira, diálogos inteligentes e culpa conjugal. Em vez disso, preferiu fazer um filme em que um homem acorda no corpo de Léa Seydoux depois de uma relação sexual violenta e misteriosa numa festa de máscaras. Há carreiras que sobem escadas. Outras abrem alçapões.

“L’Inconnue” parte de David Zimmerman —aliás de uma banda desenhada “Les Cas David Zimmerman”, que Harari escreveu com o irmão Lucas — fotógrafo solitário interpretado por Niels Schneider (“Sibyl”), um homem solitário que parece viver mais confortável entre imagens antigas do que entre seres humanos. Ele fotografa lugares que mudaram dos subúrbios de Paris, paisagens urbanas que deixaram de ser o que eram, vestígios de uma memória que já só existe em papel ou em cartão postal. Depois finalmente convencidos pelos seus roommates, vai a uma festa, encontra Eva, (Léa Seydoux), segue-a, entrega-se a uma espécie de transe erótico e acorda noutro corpo. O seu corpo desapareceu. A sua identidade ficou sem morada. E o filme, que até aí parecia um noir melancólico com máscara de carnaval, transforma-se num pesadelo metafísico sobre sexo, género, desejo, medo e solidão.

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L’Inconnue
“L’Inconnue” é fascinante porque nunca trata a troca de corpos como truque. ©Pathé Films

Numa altura em que se discute muito a mudança de géneros, Harari pega numa premissa que podia dar comédia de troca de corpos, daquelas em que alguém passa meia hora a aprender a usar soutien, e leva-a para um território bem mais estranho, sombrio e adulto. Aqui não há piada fácil, nem lição moral pronta a embrulhar. Há angústia. Há pele. Há olhares ao espelho. Há corpos que carregam consciências erradas, ou talvez até certas demais. Há uma pergunta que o filme repete de várias formas: somos o corpo que habitamos, a memória que transportamos, o desejo que nos empurra ou o olhar dos outros que nos reconhece?

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Léa Seydoux, Niels Schneider e o labirinto do “eu”

“L’Inconnue” é fascinante porque nunca trata a troca de corpos como truque. Trata-a como ferida. O filme aproxima-se de Kafka, do fantástico literário, do horror corporal, do thriller psicológico e dessa zona perigosa em que o cinema francês decide ser ambicioso e, por uma vez, vai em frente como nos filmes da sua companheira Justine Triet. Há ecos de “Vai Seguir-te”, de David Robert Mitchell, pela ideia de uma maldição transmitida pelo sexo; há fantasmas de Jorge Luis Borges, pela multiplicação de caminhos; há qualquer coisa de “Blow-Up-História de Um Fotógrafo”, pela obsessão da imagem; e há também uma tristeza muito concreta, quase física, de quem percebe que talvez nunca tenha sabido quem era. Niels Schneider dá a David uma fragilidade febril, quase doentia, como se o personagem já estivesse desabitado antes mesmo da troca. Léa Seydoux, que raramente precisa de grandes gestos para ocupar um filme inteiro, aparece aqui como presença opaca, fantasmática, pesada, por vezes quase mineral. A sua Eva não é apenas uma mulher misteriosa; é uma superfície onde o filme projecta medo, desejo, desconhecimento e essa velha ansiedade masculina diante do corpo feminino, que o cinema tantas vezes filmou como território a conquistar e aqui surge como território onde se pode ficar preso.

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O problema de “L’Inconnue” é também a sua virtude: o filme quer perder-nos. E consegue. Às vezes demasiado. A narrativa entra num jogo de duplicações, transferências, perseguições e identidades cruzadas que obriga o espectador a fazer ginástica mental digna de uma aula de pilates ontológico. Quem está em quem? Quem deseja quem? Quem fugiu de quem? Quem ficou dentro de quem? Há momentos em que o filme parece menos uma história e mais um manual de instruções escrito por um fantasma com insónia. Mas quando resulta, resulta mesmo: há uma estranheza rara, uma coragem formal, uma recusa saudável de explicar tudo ou ser demasiado descritivo.

JVM

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