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A Civil, em análise

Teodora Mihai presenteia os ecrãs nacionais com a estreia de “A Civil”, uma obra protagonizada por Arcelia Ramírez e Álvaro Guerrero.

MÃE CORAGEM CONTRA AS FORÇAS DO MAL…!

A Civil
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Num dos cartazes de LA CIVIL (A CIVIL), 2021 (filme rodado no México, sobre problemas que afectam aquele país de um modo intenso, sobretudo nas cidades mais próximas da fronteira com os Estados Unidos onde as redes mafiosas proliferam), podemos ver a imagem de um colete de protecção policial ornamentado com os famosos bordados de flores coloridas que fazem parte indiscutível do património histórico-cultural mexicano, com raízes na herança gráfica e folclórica que gostamos de encarar com o habitual, justificado e sincero espírito romântico. Estranha mistura, dirão. Na verdade, a simbiose no mesmo objecto do lado marcial, que nos recorda a violência quotidiana, e o lado mais sensível e feminino associado ao belo constitui algo perfeitamente natural para quem passa ou passou pelas provações da protagonista desta obra, por muito que custe aceitar esta ideia numa perspectiva civilizada e longe da mais pura barbárie.

A Civil
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LA CIVIL, escrito e realizado por Teodora Mihai (realizadora nascida na Roménia em 1981, mas igualmente com nacionalidade belga), concentra logo de início a atenção na mulher e mãe a quem chamou Cielo (magnífica interpretação da actriz Arcelia Ramírez) e na filha (Alicia Laguna). Estão ambas em casa e falam descontraídas dos assuntos correntes, sem sobressaltos ou qualquer contradição com aquilo que se pode considerar a vida comum de duas personagens mais ou menos representativas da pequena-burguesia de uma vulgar cidade mexicana. Ela, a filha, vai sair para se encontrar com o namorado. Ela, a mãe, fica em casa, como adivinhamos que fica a maioria esmagadora das vezes no seu papel de dona de casa reduzida a uma situação de mulher remediada, divorciada do marido, o pai ausente que mais adiante iremos conhecer com uma mulher mais nova e de aspecto um pouco difícil de encaixar na dignidade demonstrada, desde o primeiro fotograma, por Cielo. Típico caso de carne fresca para o velho macho latino! Dir-se-ia, nesta fase da narrativa, que se abria aqui o caminho de um rotineiro melodrama, mas não. O argumento vai dar uma volta imensa e mudar de agulha logo que Cielo se vê barrada na estrada por um carro de onde saem dois gangsters, um deles particularmente cínico e mal-encarado que, muitos minutos depois, saberemos ter a alcunha de Puma (poderosa interpretação do actor, músico e bailarino mexicano Daniel García). Este Puma, perfeito exemplo do criminoso urbano de falinhas mansas, mas asqueroso e sinistro no modo como dispara cada palavra, vai colocar Cielo perante um dilema brutal: “Se quiser voltar a ver a sua filha, precisa de nos entregar 150 000 pesos”. A partir deste momento fulcral da narrativa o argumento nunca mais irá abandonar o pesadelo e calvário de uma mãe cuja filha desapareceu, sequestrada por um gangue ao serviço de um cartel, bandidos que não dão a cara mas enviam soldados ainda jovens para a “frente de combate”, carne para canhão para assumir o jogo sujo dos que realmente manipulam na sombra os meandros do crime organizado. Muitos até se fazem passar por amigos das vítimas. Descrever o que se passa a seguir numa perspectiva de análise seria fazer a memória descritiva de um filme de terror, só que TERROR baseado numa realidade que está longe de se resumir aos enunciados fantasistas de muitas ficções que para aí andam a vender gato por lebre. Terror, sim, género que aqui pode e deve ser associado a uma dose generosa de realismo, uma caução de verdade que custa encarar de frente, algo que faz a diferença entre este e outros filmes que já abordaram o mesmo assunto ou assuntos similares. LA CIVIL apresenta um cuidado de mise-en-scéne sem concessões ao politicamente correcto, aspecto absolutamente necessário para credibilizar a evolução que Cielo vai sofrer a partir do momento em que decide perseguir os potenciais autores do rapto. Ao assumir este indesejado estatuto de “mãe coragem”, Cielo não hesita em correr riscos ao investigar por conta própria os caminhos percorridos pelos criminosos que, aqui e ali, vai identificando. De facto, a isso mesmo será obrigada perante a relativa inércia das autoridades policiais. Mas, pouco a pouco, face aos horrores que descobre, Cielo mergulha no lado negro da alma humana e de “mãe coragem” passa a “mãe vingança”, o anjo exterminador que avança sobre os potenciais autores do rapto da filha, apoiada na cumplicidade activa de uma estrutura paramilitar a quem pede auxílio para concretizar o ataque frontal aos criminosos, operação que sozinha não seria capaz de concluir. Cielo está confiante porque sabe onde a maioria dos gangsters se encontram, onde eles se reúnem, conhece as movimentações do cartel e, com a cumplicidade do comandante da milícia, desencadeia uma guerra que vai produzir resultados. Não obstante, alguns dirão que essa opção ficcional configura de certo modo uma espécie, não de elogio mas de complacência face aos métodos usados pelos chamados esquadrões da morte. Mas quem somos nós para julgar de fora quem vive a pressão a que Cielo esteve sujeita? No momento em que a vemos exercer a violência mais extrema sobre duas criaturas pouco recomendáveis capturadas pelos paramilitares, assim como sobre um velho criminoso que se fazia passar por amigo da família, não somos nem podemos ser meros espectadores. Naquele momento, qualquer um que possua um mínimo de solidariedade com o destino assombrado daquela mulher sente na pele o que Cielo deveras sentiu, por muito que isso nos perturbe. Resta dizer que o filme foi baseado na experiência vivida por uma mãe que na verdade existiu, Miriam Rodríguez Martínez, ou seja, a mãe que na vida real perseguiu os responsáveis pelo rapto e assassínio da sua filha de 14 anos.

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LA CIVIL é um filme brutal com uma visão desassombrada de uma realidade que desgraçadamente persiste, mas não apenas no México. Para além do mais, o filme não quer ser apenas o relato de um combate justo e necessário contra as forças do mal, mas investe igualmente nas relações humanas, nomeadamente a aproximação gradual entre Cielo e o marido, Quique (Eligio Meléndez). Neste contexto, as contradições geradas no relacionamento do outrora casal por causa da resignação de Quique perante os factos ocorridos colidem com a noção muito clara de Cielo de que há que dar luta e não baixar os braços perante a barbárie, por mais extrema que se apresente. O argumento, sem hiatos narrativos ou falhas visíveis que impeçam o fluir eficaz da acção, constitui a matriz sobre a qual a fotografia e o som geram os perfeitamente adequados espaços visuais e sonoros. Sentimos o México, não estamos a olhar para um postal ilustrado. Sentimos que aquelas ruas, vielas e espaços exteriores, e especialmente aquelas personagens, são parte integrante da caução de verdade que sustenta qualquer projecto de ficção baseado em factos reais que deseje chegar, com grande impacto, junto dos mais diferentes segmentos do público. Numa palavra, um filme que, como muitos outros, se arrisca a ser diluído na cascata de estreias que se anunciam para este Verão, um período demasiado quente para um panorama cinéfilo demasiado morno. Pelo contrário, LA CIVIL, garanto-vos, não deixa ninguém indiferente, um filme escaldante que vale bem a ida ao encontro de um grande ecrã, já agora, numa bem refrigerada sala de cinema.

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A Civil, em análise
A Civil

Movie title: La Civil

Director(s): Teodora Mihai

Actor(s): Arcelia Ramírez, Álvaro Guerrero, Jorge A. Jimenez

Genre: Drama, 2021, 140min

  • João Garção Borges - 85
85

Conclusão:

PRÓS: Destaque para os actores, nomeadamente a protagonista Arcelia Ramírez. Fotografia, Som, Montagem e Argumento perfeitamente compatíveis com um projecto mexicano de grande impacto emocional, co-produzido com a Bélgica e Roménia. Mais uma vez, aqui deixo o elogio a uma produção que não força a identidade introduzindo pormenores ou idiossincrasias desnecessárias dos co-produtores, mantendo assim a única identidade que aqui faz sentido, a que se revela em pleno no autêntico pulsar mexicano da narrativa.

No Festival de Cannes de 2021, exibido na secção UN CERTAIN REGARD, recebeu, merecidamente, o Prémio Coragem.

CONTRA: Nada de relevante. Podia ser mais curto. Provavelmente. Mas sentir o que aquela mãe sentiu, seja no plano ficcional, seja a partir da memória da mulher que inspirou a personagem de Cielo, passa igualmente por sentir o peso de um percurso que, a não ser relatado com o devido pormenor, ficaria reduzido a uma “simples” denúncia ilustrativa. Situação difícil de gerir no plano ficcional e emocional. Uma opção que se arriscava a cair numa visão semi-documental e relativamente mais frágil da matéria em causa.

Sabemos, isso sim, que inicialmente Teodora Mihai queria fazer um documentário sobre as actividades dos cartéis da droga. Mas não foi esse o projecto final da realizadora e do co-argumentista, o escritor mexicano Habacuc Antonio de Rosario, e por isso os 140 minutos justificam-se plenamente.

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