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A Minha Família Afegã, a Crítica | Michaela Pavlátová dá que falar com este filme de animação

Michaela Pavlátová dá que falar com “A Minha Família Afegã”, um filme de animação que chega agora a Portugal.

No seu país natal (República Checa), a ainda jovem Helena, sentada no anfiteatro de uma faculdade, mais do que não conseguir um relacionamento directo com os seus colegas parece, isso sim, apostada em não querer interagir com os outros, nomeadamente os rapazes que ela considera egocêntricos, fúteis e nos antípodas daquilo que sente ser o seu ideal de companheirismo no quadro de um certo conceito, ou melhor, preconceito, de masculinidade.

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A Minha Família Afegã
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De certa maneira, ela prefere situar-se nas aulas e na universidade onde estuda, assim como na cidade onde vive, Praga, num plano mais genérico de integração onde as propostas de convívio e amizade com o outro sexo não prenunciam necessariamente o início da idade adulta nem a necessária assunção de quaisquer responsabilidades inerentes a uma vida em comum. Trata-se de uma mulher independente. Pelo menos, até certo ponto. Não admira por isso que a figura sedutora e, digamos, paternal, de um colega afegão, Nazir, a deslumbre ao ponto de aceitar casar com o dito. Depois de um colorido namoro, o agora noivo leva-a para o seu país, para a capital Cabul, e para a casa onde vive com a sua numerosa família. Bem cedo, Helena irá encontrar no relativo conforto do lar e nas ruas da cidade usos e costumes que não podiam ser mais diferentes dos encontrados na Europa.

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Estas são as premissas iniciais do filme de animação “Moje slunce Mad” (A Minha Família Afegã), 2021, dirigido pela veterana Michaela Pavlátová, realizadora checa de quem guardo na memória boas recordações na produção de curtas-metragens, de entre as quais saliento algumas que, pelas suas inegáveis qualidades, programei e exibi no Onda Curta da RTP2. Falo sobretudo de “Reci, Reci, Reci” (Palavras, Palavras, Palavras), 1991 (nomeado para os Óscares na respectiva categoria), “Repete”, 1995 (Urso de Ouro para a Melhor Curta-Metragem no Festival de Berlim) e o muito sarcástico e erótico “Tram” (Eléctrico), 2012.




Nesta sua longa-metragem, a autora continua a demonstrar um estilo gráfico muito próprio, e o argumento que agora nos propõe foi baseado no romance “Frista”, escrito pela sua compatriota Petra Prochazkova. Esta jornalista distinguiu-se no domínio sempre difícil e arriscado das reportagens de guerra. Casou com um afegão, e o contacto directo com a realidade nua e crua do Afeganistão contribuiu seguramente para dar mais autenticidade ao seu relato jornalístico e literário e sem dúvida ao filme que sob a forma de animação procura erguer uma ponte entre os nossos pontos de vista e o quotidiano de uma nação ocupada (formada por diversas sequências mais ou menos exemplares, e isto não constitui necessariamente um elogio), ponte que nos ajuda a gerir a compreensão da realidade dos dias vividos no país desde os primeiros anos do Século XXI, altura em que as forças aliadas lideradas pelos americanos haviam afastado os Talibãs do poder central.

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Não obstante essa pseudo-vitória, não foram capazes de acabar com a influência de ancestrais idiossincrasias ideológicas herdadas do passado histórico e da guerra santa que as forças jihadistas impuseram como reacção a uma ocidentalização forçada e que em grande medida explicou e ainda hoje explica o sucesso do fundamentalismo islâmico entre a população afegã, e não só. Mesmo entre os afegãos mais liberais que não hesitavam em defender maior liberdade espiritual e comportamental, seja lá o que isso for num espaço dominado por valores que não são passíveis de serem subvertidos de um dia para o outro por qualquer pensamento mágico e muito menos pela ideia peregrina de implantar a democracia a martelo, e neste caso de fora para dentro.

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Deste modo, o filme explora habilmente, diria, inevitavelmente as contradições entre o modo de ser e estar de uma ocidental em busca de algo novo que na prática não sabe bem onde encontrar, e daí o seu resignado confronto com as variantes comportamentais e sentimentais da sua nova família afegã e nova conjuntura cultural em que se vê enredada. Uma vez casada e integrada no dia-a-dia afegão, Helena (que passa a chamar-se Herra) vê-se como as restantes mulheres submetida a um regime patriarcal que só será atenuado pelo facto de o marido ser bastante menos conservador do que aqueles e aquelas que o rodeiam no círculo social e familiar. Mas até o poderoso Nazir, aquele que alimenta os membros da sua prolífica família, não pode dar parte de fraco perante os que não perdem uma oportunidade para o criticar.




Muitas vezes, a frágil linha que separa a intolerância da aceitação dos factos como eles podiam ou deviam ser assumidos na intimidade do casal, estica e parte-se, e Helena, para sobreviver, irá passo a passo, de forma paciente e, porque não dizê-lo, algo submissa, adoptar a postura de quem está mal mas disfarça bem, porque quando questionada diz exactamente o contrário. Pelo meio destas circunvoluções da natureza humana ainda será confrontada com a impossibilidade de dar um filho a Nazir. Este facto inesperado e perturbador do precário equilíbrio da partilha sexual e íntima de Herra e Nazir acaba por fazer introduzir na narrativa uma outra personagem, uma criança que na estranheza das suas características físicas (nada do que Helena idealizara para a sua prole) parece simbolizar o calvário de um casal que aparentemente a vai adoptar para cumprir um desígnio que de forma “natural” não conseguiria alcançar.

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Trata-se, aliás, de alguém cuja influência irá pairar como uma sombra ao longo do filme e que se atravessa nos diversos caminhos que as diferentes personagens irão percorrer, e não só naqueles que os seus “pais” assumem no contacto com organizações estrangeiras com quem passam a colaborar. Sendo o filme oficialmente de 2021 (a produção foi naturalmente iniciada antes dessa data), o argumento não refere a derrocada da presença ocidental e a derrota sofrida pelas forças americanas no final desse mesmo ano. Recordemos que a 15 de Agosto de 2021 se deu a consolidação da queda de Cabul e o regresso ao poder dos Talibãs. Todavia, vários indícios indicam nas linhas gerais do argumento que Nazir iria sofrer, mesmo antes dessa data fatídica para os planos alimentados pela Casa Branca ao fim de duas décadas de ocupação, as consequências do seu colaboracionismo.

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Quanto a Helena, desconhecemos o que seria o seu destino sob um regime mais duro e inflexível, mas no período a que se refere a acção do filme saberemos o que vale a lealdade louca nascida de um amor na verdade um pouco louco. E mais não digo. Deixo a surpresa final para quem se dispuser a ver este filme curioso, que apenas precisava de um pouco mais de fluidez na animação, menos rigidez gráfica, menos economia de meios, para ser obra a considerar ao lado de outras que há muito e com recurso a diferentes géneros abordam situações similares nos mesmos e noutros espaços geográficos.

A Minha Família Afegã, a Crítica
A Minha Família Afegã

Movie title: Moje slunce Mad

Movie description: “A Minha Família Afegã” é um filme distribuído pela Films4You e realizado por Michaela Pavlátová. Este revelador filme foi vencedor d os prémios de Melhor Filme no festival internacional de animação Annecy Film Festival em 2021 e vencedor do Melhor Filme de animação nos Prémios Cesar em França, em 2023. Uma história de uma jovem mulher checa que se apaixona por Nazir, um afegão. No entanto, ela desconhece do tipo de vida que a espera num Afeganistão pós-Talibã e à família na qual está prestes a integrar: um avô liberal, uma criança adotada altamente inteligente e Freshta, que faria qualquer coisa para escapar do violento domínio do marido.

Director(s): Michaela Pavlátová

Actor(s): Zuzana Stivínová, Shahid Maqsoodi, Shamla Maqsoodi, Mohammad Aref Safai, Maryam Malikzada

Genre: Animação, 2021, 85min

  • João Garção Borges - 60
60

Conclusão:

PRÓS: Em 2021, foi nomeado para os Globos de Ouro. Em 2023, recebeu o César para a Melhor Animação. Recebeu o Prémio do Júri no Festival de Annecy de 2021.

CONTRA: Se Michaela Pavlátová fosse mais arrojada no plano gráfico, e porventura a animação mais abonada do ponto de vista financeiro, ou seja, se a realizadora atingisse os padrões que atingiu em muitas das suas curtas-metragens, “A Minha Família Afegã” poderia figurar ao lado de obras como, por exemplo, “Persépolis”, 2007, realização da iraniana Marjane Satrapi e do francês Vincent Paronnaud, porque ambas são peças de um jogo de xadrez onde se faz a contestação subtil, mas acutilante, de realidades que merecem um olhar especial, que não seja apenas o do vulgar e redutor estereotipo preconceituoso.

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