Jacques Deray fechou Alain Delon, Romy Schneider, Maurice Ronet e Jane Birkin numa villa da Côte d’Azur e deixou o desejo fazer o resto. Cinquenta e sete anos depois, este clássico de 1969 regressa ao grande ecrã tão sensual, venenoso e moderno como no primeiro mergulho.
Depois do eclipse e em plena canícula, faltava apenas isto: Alain Delon e Romy Schneider estão praticamente despidos à beira de uma piscina. Recomenda-se prudência. Tanta beleza junta no mesmo ecrã talvez seja mais perigosa para a retina do que olhar directamente para o Sol. E é precisamente neste Agosto abrasador que A Piscina (La Piscine), de Jacques Deray, regressa ao Cinema Ideal, em Lisboa, a 20 de Agosto. O programa oficial apresenta-a justamente como a reposição de Verão mais escaldante e como alternativa perfeitamente legítima a uma ida à praia. Jean-Paul (Alain Delon) e Marianne (Romy Schneider) passam férias numa magnífica villa do sul de França. Nadam, apanham sol, fazem amor e parecem confirmar que o dinheiro talvez não compre a felicidade, mas consegue alugá-la por algumas semanas. Até aparecer Harry (Maurice Ronet), antigo amante de Marianne e amigo-rival de Jean-Paul, acompanhado pela filha, Pénélope (Jane Birkin). Quatro pessoas, uma casa, demasiado álcool, demasiado passado e uma piscina. Não é preciso muito mais para organizar uma tragédia.
A água está limpa. As pessoas nem por isso
Deray realiza o filme com uma elegância que hoje quase parece algo de novo: não explica tudo, não sublinha tudo, não manda as personagens fazer discursos terapêuticos sobre aquilo que sentem. Deixa-as olhar. E os olhares em A Piscina são armas carregadas. Jean-Paul ressente-se do dinheiro, do sucesso e da segurança de Harry. Harry diverte-se a recordar-lhe subtilmente quem manda. Marianne conhece demasiado bem os dois. E Pénélope observa aquele pequeno zoológico de adultos bonitos como quem descobre antecipadamente que crescer talvez não valha o esforço. O desejo começa por circular, depois transforma-se em provocação e finalmente em vingança. No centro está aquele rectângulo azul, absolutamente perfeito. A piscina começa por ser Éden, depois espelho, depois arena. A superfície é límpida; por baixo acumulam-se ciúme, ressentimento, frustração e violência. Poucos filmes perceberam tão bem que uma piscina privada é simultaneamente promessa de prazer e excelente local para uma desgraça.
E depois existem Delon e Schneider. Tinham vivido uma relação amorosa, estavam separados havia anos e foi Delon quem insistiu na presença da antiga companheira no filme. A química não precisou, portanto, de ensaios. Quando se tocam, percebe-se que aqueles corpos possuem memória. Marianne seria também uma das personagens que ajudariam Romy a abandonar definitivamente a sombra açucarada de Sissi: sensual, adulta, inquieta e, no fim de contas, muito mais complexa do que os homens que disputam o território à sua volta.
O “chic” antes de existir Instagram
Também se pode ver A Piscina como um catálogo involuntário de tudo aquilo que continuamos a tentar imitar. Saint-Tropez, a villa, os fatos de banho, os vestidos de Romy, a informalidade de Jane Birkin, os célebres Vuarnet 006 de Delon e o fabuloso Maserati Ghibli vermelho de Harry. Só faltava alguém fotografar um prato de burrata para termos 2026.A fotografia de Jean-Jacques Tarbès transforma a Côte d’Azur numa estufa sensual e Michel Legrand acrescenta uma música sofisticada, simultaneamente leve e ameaçadora. Tudo parece feito para umas férias perfeitas. Naturalmente, corre pessimamente. É aí que A Piscina permanece extraordinariamente moderno. Começa como fantasia erótica de Verão, passa pelo drama conjugal, mergulha no thriller psicológico e termina quase como policial. Mas o crime é apenas a consequência. O verdadeiro assunto é anterior: o que fazemos quando desejamos aquilo que pertence ao outro, quando o ego se sente humilhado e quando confundimos amor com posse. Luca Guadagnino e François Ozon regressariam a este universo décadas depois o primeiro em A Bigger Splash (2015), o segundo em Swimming Pool (2003), mas o original de Deray continua praticamente impossível de superar. Talvez porque não tenta ser escandaloso. Basta-lhe deixar quatro criaturas belíssimas ao sol e esperar que comecem a destruir-se. A Piscina é, portanto, o filme ideal antes da praia, depois da praia ou em vez da praia. Tem sol, corpos, desejo, música, alta-costura, um Maserati e água fresca. Só não aconselho o mergulho. O fundo está cheio de cadáveres emocionais.
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José Vieira Mendes - 10/10
10/10
Conclusão:
A Piscina continua a ser um daqueles filmes em que tudo parece perfeito até começar a apodrecer. Deray filma a beleza como armadilha, o desejo como veneno e o ciúme como sentença. Delon, Schneider, Ronet e Birkin nunca foram apenas corpos bonitos ao sol: são quatro pessoas a afogarem-se antes sequer de entrarem na água.

