"Bem Bom" ©Cinemundo

Bem Bom, em análise

“Bem Bom” é o conto das vidas de Fátima Padinha, Teresa Miguel, Lena Coelho e Laura Diogo. É ainda a história da Polygram, de Tozé Brito, Xico Costa e Mike Sergeant. Tudo junto forma uma impressionante biografia das Doce, um retrato de Portugal nos anos 80, e de como uma banda de música feminina conseguiu/tentou mudar um país.

“Fomos o sonho que as pessoas nem a dormir conseguiam ter.”

É raro o bailarico, a festa académica ou mesmo a noite em bar ou discoteca onde não se ouça pelo menos uma das músicas das Doce. Quem é que não conhece e sabe parte das letras de “OK KO”, “É Demais”, “Doce”, “Amanhã de Manhã”, “Ali-Bábá” ou “Bem Bom”? O fenómeno deste grupo musical feminino, a primeira girl band em Portugal e uma das primeiras na Europa, marcou de tal forma o país que de geração para geração o seu impacto vai sendo perpetuado. No entanto, como pergunta, e bem, a cineasta Patrícia Sequeira, como é possível não ter havido até hoje nenhum filme, série ou documentário sobre a banda? Como se explica até mesmo as referências das Doce em livros de música portuguesa dos anos 80 serem tão escassas?

Estas perguntas foram uma das razões que levaram Patrícia Sequeira a querer realizar este filme e a contar a história das Doce, das jovens que formaram a banda e do percurso que palmilharam. Com argumento de Cucha Carvalheiro, Filipa Martins e Helena Matos, a produção executiva ficou ao encargo de Marta Vaz de Sousa. A Santa Rita Filmes tratou da produção do filme e a Cinemundo da sua distribuição. Atrasou um ano do que se previa inicialmente, mas finalmente estreou “Bem Bom”, o filme que retrata a história e carreira das Doce.

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O trabalho de realização de Patrícia Sequeira tem sido reconhecido tanto nacional como internacionalmente, tendo sido premiada e nomeada para vários prémios. Da sua carreira destacam-se a telenovela vencedora de um Emmy “Laços de Sangue”, o internacionalmente premiado filme “Jogo de Damas” e o aclamado filme “Snu” que foi nomeado para 5 prémios na edição de 2020 dos Prémios Sophia.

“Bem Bom” possui um invejável elenco, que foi cuidadosamente selecionado. O grande desafio foi encontrar atrizes capazes de transmitir com convicção as fortes personalidades das Doce originais. Para além de que a acrescentar ao atuar, teriam que ser capazes de cantar e dançar. Assim, Bárbara Branco foi escolhida para o papel de Fátima Padinha, Lia Carvalho aparece como Teresa Miguel, Carolina Carvalho interpreta Lena Coelho e Ana Marta Ferreira é Laura Diogo. Das estrelas que compõem o filme podemos ainda referir Eduardo Breda como Tozé Brito, Pedro Almendra como Xico Costa e Helder Agapito no papel de Mike Sergeant.

“Os medos e os sapatos descalçam-se em casa.”

Bem Bom
“Bem Bom” ©Cinemundo

Uns dias antes da estreia nas salas de cinema, estreou na televisão o documentário “Bem Bom – Realidade e Ficção” sobre a realização do filme e que se encontra disponível na plataforma RTP Play. Antes ou depois do filme é aconselhável a visualização do documentário que complementa bem a película, dando-nos testemunhos mais detalhados das verdadeiras Doce, explora o processo de criação de Sequeira e revela-nos fatos interessantes sobre as atrizes que deram vida à girl band.

É impossível não compararmos “Variações” com “Bem Bom”, e da mesma forma, muito do que funcionou e agradou (ou não) num filme traduz-se no outro. Entre gigantes blockbusters como “Black Widow” e “F9: The Fast Saga”, “Bem Bom” consegue o pódio de terceiro lugar nos filmes em exibição em Portugal. Pode não conseguir imitar “Variações” e chegar ao top de filmes portugueses mais vistos de sempre, mas em termos de qualidade é o seu igual, e fãs de um filme certamente apreciarão esta nova produção.

“Bem Bom” ©Cinemundo

Fosse este um projeto de Hollywood e estaríamos perante uma nomeação aos Óscares de Melhor Guarda-Roupa e de Melhor Maquiagem e Penteados, todavia é com certeza um forte candidato aos próximos Prémios Sophia e aos Globos de Ouro em Portugal. O filme possui uma extraordinária capacidade de mimetizar tanto os look como as coreografias da banda original. Nas cenas dos concertos, seja em digressão ou no Festival da Canção ou da Eurovisão, “Bem Bom” é bem-sucedido a fazer jus aos temas musicais e o retrato histórico transporta-nos não só para a época, mas para o momento em si.

Bem Bom” destaca-se também pela abordagem biográfica e dramática das vidas dos elementos das Doce para além da banda. A pluralidade nas personalidades das mulheres que formaram a banda, o entrelaçar entre as vidas pessoais e profissionais, os confrontos entre as Doce e a editora Polygram, as diferenças de tratamento e de salário por serem mulheres, os efeitos que os boatos tiveram e o desgaste de combater um país que as amava e ao mesmo tempo as queria censurar.

A cinematografia é focada e realça as emoções que estão a ser transmitidas, para além de também conseguir ser sensual e erótica. Outro dos pontos positivos do filme é o êxito com que conta o impacto que a irreverência, a rebeldia e a liberdade, particularmente ao nível da sexualidade feminina, das Doce conseguiu trazer para um país de costumes tão antigos e conservadores. Neste ponto realça-se o comentário dito ao longo do filme: “A TV é a cores, mas quem opina ainda é a preto e branco”, e o discurso de Cristina (Sara Carinhas) sobre a importância das Doce para a mudança da mentalidade na população feminina portuguesa é uma cena a aplaudir. Nos EUA tiveram “Sex and the City”, mas antes disso Portugal teve as Doce!

“A vida é demasiado curta. Começa pela sobremesa.”

Bem Bom
“Bem Bom” ©Cinemundo

É inegável que a qualidade dos filmes portugueses tem vindo a crescer e a solidificar-se, dando como exemplos “A Herdade”, “Vitalina Varela” ou “Listen”, todos eles concorrentes para uma nomeação para o Óscar de Melhor Filme Internacional. Para além disso, nos últimos anos também temos observado estreias de qualidade no género musical, com a biografia “Variações” e o documentário “Zé Pedro Rock’n’Roll”. “Bem Bom” vem assim juntar-se à lista de filmes modelo a seguir e que enaltecem o cinema português.

TRAILER | A HISTÓRIA DA ICÓNICA GIRL BAND PORTUGUESA!

Conhece mais sobre a realização do filme com o documentário “Bem Bom – Realidade e Ficção”.

Bem Bom, em análise
Bem Bom

Movie title: Bem Bom

Movie description: Em 1979 surge uma das primeiras girl band da Europa. As suas canções, o seu vestuário e as suas coreografias encantam e escandalizam o país. As quatro jovens tornam-se um fenómeno de popularidade, em 1982 vencem o Festival da Canção e ainda hoje quase todas as suas músicas são conhecidas. Elas são as DOCE.

Date published: 8 de July de 2021

Country: Portugal

Duration: 111

Director(s): Patrícia Sequeira

Actor(s): Bárbara Branco, Carolina Carvalho, Lia Carvalho, Ana Marta Ferreira

Genre: Biografia

  • Emanuel Candeias - 86
  • Virgílio Jesus - 70
  • Maggie Silva - 81
79

CONCLUSÃO

“Bem Bom” prima pelo fiel retrato das Doce, das suas protagonistas (Fátima Padinha, Teresa Miguel, Lena Coelho e Laura Diogo), das canções e do impacto da banda no conservadorismo português dos anos 80. Tanto a realizadora Patrícia Sequeira como as estrelas Bárbara Branco, Lia Carvalho, Carolina Carvalho e Ana Marta Ferreira estão de parabéns e aguardam-se as nomeações para os Prémios Sophia.

Pros

  • Esforço pela veracidade da história
  • Excelente interpretação das quatro protagonistas
  • Performance dos concertos
  • Guarda-roupa, Maquiagem e Penteados

Cons

  • A liberdade ficcional no género biográfico é sempre um ponto que incomoda parte da audiência
  • Ritmo acelerado, que não permite explorar certos acontecimentos
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