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DocLisboa ’19 | Danses Macabres, em Análise

“Danses macabres, squelettes et autres fantaisies” (2019) é uma co-produção entre França, Suiça e Portugal. Um filme a três mãos, realizado por Pierre Léon, Rita Azevedo Gomes e pelo escritor Jean-Lous Schefer, que funciona também como uma espécie de narrador. O filme foi gravado em Portugal, e usa o Douro e Foz Côa como a sua paisagem dominante. A obra foi já exibida no DocLisboa ’19 e volta a ser exibido no último dia do Festival, dia 27. 

UMA CONVERSA A TRÊS 

Danses Macabres
Uma parceria a seis mãos |©Barberousse Films/ Basilisco Filme

“Danses Macabres” é uma conversa, mas também uma expedição por várias imagens e momentos marcantes da História Ocidental. A representação alegórica que dá origem a tudo isto é a das “Danças Macabras” ou “Dança da Morte”, uma forma de representação e um conceito que foi evoluindo ao longo de muitos séculos e culturas dispares, e que aqui funciona como ponto de partida. “Danses Macabres, Skeletons, and Other Fantasies”, no título original, procura unificar ou pelo menos racionalizar um número de imagens tão díspares e que ainda assim remetem para um mesmo conceito.

E edição e argumento do filme ficaram a cargo de Pierre Léon ( “L’idiot”) e Rita Azevedo Gomes ( “A Portuguesa”) teve um papel importante na cadeira da realização. Já o escritor Jean-Louis Schefer é não só um narrador, como foi já referido, mas acima de tudo conduz um monólogo astuto e cativante. Para estudantes de Ciências Sociais, o discurso de Schefer soa bastante familiar. Este teoriza sobre o tempo e sobre iconografia a que podemos assistir no DocLisboa ’19 pouco tem de novo ou inventivo. Para quem já é familiar com as temáticas aqui abordadas, há que dizer que o sentimento da obra é pouco cinematográfico e muito mais próximo de uma aula. A própria imagem que se apresenta frente ao nosso olhar fraqueja comparada com as vastas temáticas tocadas, e quase queremos exigir poder ver mais, poder tocar também nós nas gravuras de Foz Côa, uma tentação imensa para filósofos e linguistas.

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UNIFICAR A IMAGÉTICA EM TORNO DA DANÇA DA MORTE

Danses Macabres
Foc Côa é fulcral nesta obra |© Barberousse Films/ Basilisco Filme

A Dança da morte é vista como, em primeira instância, uma personificação da Idade Média, da Peste Negra e dos seus efeitos. É também fundadora para a fundação ou invenção da Europa moderna do século XV, ou assim o defende o escritor que protagoniza a obra. Ao longo do filme, múltiplas são as imagens alusivas a este conceito que nos são exibidas. Mas o que é a Dança da Morte, o conceito fulcral deste documentário?

Dança macabra ou Dança da Morte, é uma alegoria artístico-literária que se originou nos tempos da Idade Média, a dita idade das trevas, e que pretende exprimir a universalidade da morte. Este conceito é extremamente transversal, e por isso mesmo, a conversa e a iconografia em seu torno não se esgotam. Quanto às representações das Danças Macabras, estas podem ser encontradas na literatura, pintura, escultura, gravura, música, cinema. São os exemplos da pintura e cinema que aqui prevalecem.

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Este filme faz-se acima de tudo da energia intelectual que o atravessa. O que são as Danças da Morte? Uma das hipóteses lançadas é que representam uma história que não aconteceu ainda, uma história encenada. Filmado por Rita Azevedo Gomes e montado por Pierre Leon, “Danses Macabres” é acima de tudo uma reflexão, entrecortada com imagens de arquivo que neste caso são bastante bem-vindas, por nos moverem de um setting algo estático para um diferente, ainda que por breves momentos.

Danças Macabras
© Barberousse Films/ Basilisco Filme

Ao estudar a alegórica presença da “Dança da Morte” ao longo da história, há que invocar necessariamente uma figura interessante que a assiste sempre. A figura do esqueleto, a que é, segundo o orador do filme, a mais anónima de sempre. E não é difícil concordar com esta premissa de Jean-Louis Schefer. Esta figura do esqueleto tem portanto a responsabilidade de escrever a história. Estas figuras dançam no nevoeiro e representam o próprio tempo. Assim, estabelece-se no filme uma conversa sobre temporalidades, embora não seja possível, logicamente, chegar a nenhuma conclusão unificadora.

Esta “Dança Macabra” liga-se portanto, sem surpresa, aos medos dos homens. Múltiplos frescos e gravuras assim o pareciam indicar durante a idade média, a idade das trevas, quando este tipo de iconografia verdadeiramente se popularizou. Mas quem é que dança? Quem dança são os esqueletos e não as pessoas. O escritor traça uma narrativa e retrospectiva do conceito ao longo do tempo, desde as suas origens ao já mencionado pico medieval.

O pensador defende que a morre não só é igual e anónima, como é também ela livre, e por isso sim, estes esqueletos dançam livremente. São “seres humanos agora sem nome”. A questão mais interessante explorada aqui é a possibilidade de traçar uma história alternativa unicamente em torno da famosa Dança da Morte. Como complemento inevitável, ídolos e representação são mencionados de forma ampla, mas essa é uma discussão mais comum, e por isso, embora associável, não tão rica.

“Danses Macabres” é uma obra interessante, que estimula o sentido crítico. Não possui a urgência de muitos filmes exibidos no Doclisboa ’19, mas se há uma coisa que a morte tem é paciência.

O filme volta a exibir no DocLisboa ’19 no dia 27 de outubro, pelas 14h00, no Pequeno Auditório da Culturgest. 

Danses Macabres

Movie title: Danses Macabres

Date published: 2019-10-24

Director(s): Pierre Léon, Rita Azevedo Gomes, Jean-Louis Schefer

Genre: Documentário

  • Maggie Silva - 70
70

CONCLUSÃO

Uma palestra visual, rica e que pretende discutir as grandes questões ligadas à temporalidade e representação, a partir da alegoria da “Dança da Morte”.

O MELHOR: O seu rico conceito.

O PIOR: A monotonia das imagens que não as de arquivo. Os entrevistados movem-se num espaço cénico pouco cativante.

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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