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Doclisboa ’20 | Desterro, em análise

O Doclisboa regressa uma vez mais em 2020 para o segundo momento do festival, entre 5 e 11 de novembro. Esta segunda etapa, de um total de 7 semanas intercaladas de outubro a março, chama-se “Deslocações”.

Nesta programação encontramos a obra de fição “Desterro”, exemplificativa da jornada que esta temática coloca em evidência. 

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“Desterro” é uma obra que resulta de uma co-produção entre o Brasil, a Argentina e ainda Portugal. É um filme algo distinto dentro da programação do Doclisboa, não se assumindo como um documentário mas antes como um filme de fição sobre uma viagem literal e uma outra mais metafórica. A longa-metragem, exibida a 7 de novembro, pelas 19h00, na Culturgest, teve direito a uma apresentação video da realizadora Maria Clara Escobar, que devido às restrições a viagens se viu impedida de estar presente na sala com a sua montadora, um dos produtores e uma das suas atrizes.

Maria Clara Escobar abriu deste logo o significado do filme com a sua pequena apresentação. Esta é inequivocamente uma obra sobre a experiência feminina. Tal como a sinopse de “Desterro” deixa anunciar, esta é uma longa-metragem onde “muitas mulheres falam (e) contam as suas histórias”. É aí que o real parece imiscuir-se nesta narrativa encenada, quando um coro de vozes femininas partilha a sua experiência de uma forma nua e com poucos intermediários e floreados. Elas simplesmente são, em toda a sua poderosa transparência.

Neste filme, o luto é forçado a dar lugar a uma batalha burocrática. A crítica desta estrutura desumana está bastante evidente, nomeadamente através de uma montagem disruptiva e uma mistura de som composta por inúmeros picos intensionais. Regressando à montagem, esta é sem dúvida bastante pensada e inventiva. Desde logo existe uma obsessão pela falta de continuidade, pela multiplicidade de perspetivas e pela complexidade de uma miríade de planos distintos, onde a paixão pelo close up nos transporta para um ambiente claustrofóbico.

Desterro Doc 18ª edição
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Pena é apenas que “Desterro” se prolongue muito mais do que aquilo que seria expetável ou necessário. Certamente, uns 30 minutos a menos tornariam o filme mais urgente. Vários são os planos cuja intenção parece ser simplesmente estética, plástica, incapaz de avançar a ação. Uma opção, apreciada mais por uns espectadores que por outros, e um pecado não capital. “Desterro” é sempre interessante, mesmo quando parece mais interessado na sua arte da composição do que na composição da sua história.

Não obstante, por todos os planos que parecem ter um foco mais estético do que narrativo, a verdade é que esta sua composição cuidada termina numa chave de ouro incontestável, um plano e estático que consegue transmitir tanto através da persistência de um único elemento que vai tomando conta da paisagem, devorando tudo no seu caminho…e mais não pode ser dito sem a experiência de visualização da obra.

“Desterro” é um slow burner, e depois de sairmos da sala, nos dias seguintes, os seus eventos vão tomando forma nas nossas mentes, tornando-se mais poderosos à medida que a reflexão toma lugar. E não deveria todo o bom cinema estimular tal exercício? Esta obra de Maria Clara Escobar teve a sua orgulhosa estreia nacional na 18ª edição do Doclisboa mas podemos esperar vê-la, brevemente, nas salas comerciais.

TRAILER | DESTERRO DE MARIA CLARA ESCOBAR – DESLOCAÇÕES 

Desterro, em análise
Poster Desterro

Movie title: Desterro

Date published: 9 de November de 2020

Country: Portugal, Argentina, Brasil

Duration: 123'

Director(s): Maria Clara Escobar

Actor(s): Carla Kinzo , Otto Jr. , Rômulo Braga

Genre: Drama,

  • Maggie Silva - 80
80

Conclusão

“Desterro” é uma viagem que reflete sobre a natureza da experiência feminina e as jornadas interiores atravessadas pelas mulheres que, nas palavras da realizadora, que aqui as homenageia, “são donas do mundo”.

Pensa ainda os labiríntos caminhos de uma burocracia capaz de inviabilizar a própria natureza do sentimento e do luto.

Pros

A sensibilidade temática e o final avassalador.

Cons

A excessiva e desnecessária duração.

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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