'Benedetta', de Paul Verhoeven.©Festival de Cannes

Festivais de Cinema | Quase em Cannes e Veneza!

São óptimas notícias que nos dão uma ideia de um quase regresso à normalidade dos festivais de cinema de Cannes e Veneza, como antes da pandemia. Já estão em acção, prometem uma selecção de filmes, cineastas de excelência e o regresso das estrelas, aos tapetes vermelhos. E sobretudo ambos oferecem segurança sanitária. Estamos salvos!

A primeira boa notícia vem do 74º Festival de Cannes, que vai (e tudo leva a crer, que não haverá recuos, amanhã vou publicar e comentar excertos, da entrevista de Thierry Freamaux, dada hoje em exclusivo à Variety) realizar-se de 6 a 17 de julho próximos: a conferência de imprensa de anúncio da programação atrasou uma semana ou seja passou agora, para 3 de junho. E esta mudança, não podia ter os melhores motivos: veja-se, uma abundância de filmes inscritos no festival, está a dificultar a selecção, isto dito por uma fonte da organização. E a Seleção Oficial 2021 e em particular a competição oficial, deverá ser maior do que o habitual. É uma excelente notícia mas também, mais uma dor de cabeça para a agenda dos repórteres e críticos, (como é o caso), que vão acompanhar o festival e já estão acreditados e quase de malas feitas para passar praticamente directo de Cannes para Veneza: pouco menos de um mês e meio entre um festival e outro. Em condições normais como é sabido o Festival de Cannes acontece sempre em maio e a programação é anunciada um mês antes, mas neste caso e apesar do atraso até será 3 dias antes do normal. Aguardemos!

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‘Annette’ de Leos Carax. | © Festival de Cannes

CANNES COM UMA SELECÇÃO DE ELITE?

O Festival de Cannes 2021 está efectivamente prestes a abrir a 6 de julho, com grandes expectativas, e a começar com a estreia mundial de ‘Annette’, um musical-romance de Leos Carax (Holly Motors), com Adam Driver e Marion Cotillard. Porém, neste 74º Festival de Cannes, edição de 2021, não deverão faltar a grandes cineastas-autores; e iremos assistir ao regresso em força das estrelas à passadeira vermelha da Croisette. Até agora, Thierry Frémaux, o director-artístico já anunciou, dois títulos que foram aliás confirmados para a competição oficial: o referido Annette e, Benedetta’, um thriller subversivo de época, do veterano, mas sempre activo realizador holandês Paul Verhoeven (Ela). Há ainda vários filmes a serem considerados e na linha para participarem nesta 74ª edição: ‘Flag Day’, o drama de Sean Penn, no qual o ator-realizador trabalha com a sua filha Dylan Penn e com o filho Hopper Penn, e ainda Josh Brolin e Miles Teller. Mas há outras possibilidades, como: ‘The Power of The Dog’, de Jane Campion, um filme rodado em Montana, EUA, para a Netflix — contrariando de certo modo os ‘dogmas canneoises’ de rejeitar filmes do streaming — e que poderá ser lançado, por isso, fora da competição.

VÊ TRAILER DE ‘BENEDETTA’

Contudo há uma enorme lista de cineastas internacionais que é aguardado, com ansiedade, neste esperemos, feliz regresso do Festival de Cannes: Wes Andersson  (Grand Budapest Hotel), com The French Dispatch, protagonizado por Benicio del Toro; Claire Denis (‘Uma Nova Vida’) com ‘Feu!’, com o rosto de Juliette Binoche em destaque; Jacques Audiard (‘Dheepan’) com ‘Paris, 13th District’; Asghar Farhadi (‘O Vendedor’) com um drama em farsi, intitulado ‘A Hero’; Nanni Moretti (‘Mia Madre’) com ‘Tre Piani’, protagonizado por Riccardo Scamarcio; Julia Ducournau (‘Raw’) com mais um drama de terror, intitulado ‘Titane’, protagonizado por Vincent Lindon; Emmanuelle Bercot (‘Standing Tall’) com ‘De Son Vivant’, e com Catherine Deneuve como protagonista; Mia Hansen-Løve (‘O Que Está Por Vir’), com ‘Bergman Island’, um melodrama sobrenatural, com Mia Wasikowska, Tim Roth e Vicky Krieps; Kirill Serebrennikov (‘Leto’) com ‘Petrov’s Flu’; Paul Schrader (‘No Coração da Escuridão’) com ‘The Card Counter’ interpretado por Willem Dafoe; M. Night Shyamalan (‘Fragmentado’) com ‘Old’, interpretado por Gael Garcia Bernal e, Terrence Malick (‘Uma Vida Escondida’) com ‘The Way of the Wind’, protagonizado pelo actor belga Matthias Schoenaerts. Nesta lista há ainda esperar os novos filmes de cineastas tão prestigiados, como: Ildikó Enyedi (‘Corpo e Alma’), Tom McCarthy com o novo ‘Stillwater’, com Matt Damon e Ruben Ostlund (‘O Quadrado’). Conforme já foi anunciado Spike Lee, aceitou novamente o convite para este ano e presidirá ao júri da competição do 74º Festival de Cannes, que encerrará a 17 de julho. 

VÊ TRAILER DE ‘ANNETTE’

CANNES SAUDÁVEL?

Quanto à situação sanitária, a França saiu de seu terceiro período de confinamento no início de maio. Com mais de um quarto da população com a primeira dose da vacina tomada, reabriu os cinemas e todos os espaços culturais, incluindo museus a 19 de maio, após um encerramento de quase sete meses por causa da pandemia. Os restaurantes e cafés recebem agora os seus primeiros clientes, incluindo o presidente francês, Emmanuel Macron. Porém só podem funcionar, as esplanadas mas com limite: cada mesa só poderá ter seis pessoas, o horário de funcionamento não poderá ir além das 21h e a lotação de cada estabelecimento está limitada a metade. A fase final do plano de desconfinamento, está programada para o final do próximo mês de junho, altura em que também irão terminar as restrições de horários no recolher obrigatório. Cannes realiza-se em julho e está realmente à frente da curva quando se trata de vacinas. E daqui até lá as coisas ainda vão melhorar! As vacinas foram disponibilizadas para pessoas com menos de 40 anos — obrigatório também para os jovens até ao 18 anos, por causa precisamente o turismo — mais cedo do que em qualquer outro lugar da França e a cidade, que abriga uma série de eventos internacionais importantes, além do Festival de Cannes (Mipcom e MipTV, entre outros), atualmente possui o maior percentual de pessoas totalmente vacinadas, segundo os vários relatórios locais. A situação da saúde, internamentos e número de novos casos está altamente controlada em toda a França e permite ir sem receios e riscos, ao 74º Festival de Cannes, ainda mais para que já está, como é o caso vacinado.

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“Dune” | © NOS Audiovisuais
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VENEZA, O SEGREDO DO SUCESSO?

Quanto ao Festival de Veneza parece, não haver quaisquer dúvidas em estender já a passadeira vermelha de 2021 e dar-lhe uns retoques na altura. A Mostra de Veneza está preparada para acontecer, como evento presencial e completo de 1 a 11 de setembro e com uma atmosfera de volta ao normal, (ou tão próxima quanto possível) aliás como já aconteceu o ano passado com ás máscara e os lugares com intervalos, e o que poderá este ano, ter ainda mais uma seleção de filmes de alto perfil. Enquanto o Festival de Toronto, se realiza de 9 a 18 de setembro, mantendo uma combinação de exibições digitais e presenciais, tal como, ao que parece, o Festival de Sundance 2022, o Festival de Veneza está no caminho certo, e a menos que haja complicações de maior, vai acontecer, como mais uma celebração do cinema na sua plenitude, com centenas de jornalistas e dezenas de delegações de filmes de todo o mundo,  esperadas para fazer a pequena caminhada no Lido de Veneza, normalmente ou pelo menos, entre o Hotel Excelsior e o Palazzo del Cinema. Ou simplesmente numa pausa ficar sentado ali na esplanada do Casino, a comer um gelado ou a beber um spritz. 

FESTIVAL DE VENEZA
A sala do Pallazo del Cinema. | Foto de José Vieira Mendes

Enquanto isso, há já também um grande burburinho, sobre os filmes que estarão na Mostra de Veneza, começando já a espalhar-se um clima de euforia e expectativa, com a estreia da nova versão de Dune de Denis Villeneuve, que tem sido fortemente falado para ter o seu lançamento no Lido. Por enquanto, nem a Warner Bros., nem a organização do festival, confirmaram esta possibilidade. Curiosamente, foi com Arrival (2016), um filme de ficção cientifica, também muito pouco convencional, no género, que Villeneuve esteve a última vez em Veneza. Outros cineastas aparecem igualmente vinculados às notícias e possibilidades de se apresentarem com os seus novos filmes no Lido: o drama íntimo e pessoal de Paolo Sorrentino,  intitulado ‘The Hand of God’, que é um original italiano da Netflix. Um filme tipo ‘Freaks Out’, do seu colega italiano e director de actores, Gabriele Mainetti, que conta a história de quatro ‘deficientes mentais’ que trabalhavam num circo e que foram deixados à sua própria sorte, quando a Cidade Eterna, em 1943 é bombardeada pelas Forças Aliadas. O filme está inscrito para a selecção e dizem que é uma obra completamente fora-da-caixa. O francês Bruno Dumont apresentará ‘On a Half Clear Morning’ (tem também como título original ‘France’), protagonizado por Lea Seydoux, no papel de uma jornalista-celebridade, cuja a vida ficou de pernas-para-o-ar, por causa de um estranho acidente de viação; ‘Ilusões Perdidas’, de Xavier Giannoli, precisamente uma adaptação do famoso romance clássico Honoré de Balzac. A Mostra de Veneza, no ano passado foi o único dos grandes festivais de cinema a ter uma edição presencial, embora com menos estrelas do que o normal e um contingente menor de convidados internacionais e jornalistas presentes. Mas correu muito bem e sem sobressaltos, apesar das fortes limitações sanitárias, a organização foi impecável. Embora mais limitada do que em anos anteriores em títulos de filmes americanos de destaque, a edição de 2020 do Lido, recorde-se que mais uma vez, lançou o triplo Oscar de Chloé Zhao, para ‘Nomadland-Sobreviver na América’, reforçando o estatuto de Veneza como um grande criador de sucessos, da temporada dos prémios da indústria de Hollywood e não só. Conforme já foi anunciado, o coreano Bong Joon-Ho, realizador de ‘Parasitas’ presidirá ao júri principal de Veneza, enquanto a atriz italiana Serena Rossi (‘Love and Bullets’, ‘Diabolik’) será a mestre de cerimónias. Roberto Benigni (‘A Vida é Bela), vencedor de vários Oscars da Academia de Hollywood e reconhecida figura do cinema europeu, será o homenageado com um prémio pelo conjunto da sua obra ou prémio de carreira.

VÊ TRAILER DE ‘DUNE’

O OPTIMISMO SANITÁRIO DE VENEZA

Tal como no ano passado, o festival tem um significado muito especial para os italianos, como um forte símbolo da sua batalha e do seu reinício de vida pós-Covid. A Bienal de Arquitectura acaba de ser incluída pelo governo italiano como um dos principais ‘ímãs culturais’ do país, para chamar visitantes e, como tal, beneficiará de cerca de € 170 milhões, do fundo de recuperação de económica (a famosa bazuca), do coronavírus, da União Europeia, destinado a melhorias ao nível das infra-estruturas. Portanto, espera-se que pelo menos o Palazzo del Cinema e outros locais da Mostra de Veneza, recebam uma renovação. É num cenário de renovado optimismo, que a organização, que tem como suporte a Bienal de Veneza, está procurando impulsionar também a Bienal de Arquitetura, que tem o oportuno tema de ‘How Will We Live Together?’ (‘Como Iremos Viver Juntos’) e que abrirá como é habitual nos seus espaços localizados na cidade de Veneza, exactamente daqui a muito pouco tempo: a 22 de maio. O que está previsto em termos de normas sanitárias para a Bienal de Arquitectura — que servirá de teste — serão em principio as mesmas, que serão utilizadas na Mostra de Cinema, salvo obviamente no que diz respeito à diferença entre espaços de exposição e salas de cinema. Esperam, que cheguem a Veneza várias delegações artísticas, que representam os mais de 100 projetos presentes na Bienal de Arquitetura, oriundos de 46 países — Portugal será representado oficialmente pelo projeto “In Conflict”, criado pelo coletivo depA architects — juntamente com mais de 400 jornalistas internacionais. Todos irão seguir os protocolos de segurança prescritos em conformidade com os regulamentos das  autoridades sanitárias italianas. A região de Veneto, está actualmente numa chamada ‘zona amarela’ de baixo risco de contágio, onde os bares e restaurantes podem permanecer abertos durante todo o dia, embora apenas para consumo ao ar livre. As máscaras são obviamente obrigatórias. O primeiro-ministro italiano Mario Draghi, num esforço para relançar o turismo, anunciou entretanto, planos para a Itália, no sentido de introduzir um ‘passaporte verde’, provando que o seu titular foi vacinado, recuperado ou fez teste negativo ao Covid-19. Igualmente também, graças ao esperado aumento das chegadas, proporcionado pela Bienal de Arquitetura, há esperança de que 70% dos hotéis de Veneza reabram até o final de maio. As perspectivas são de que em setembro, Veneza e o Lido estarão bastante mais seguros e de fácil acesso, para viajantes vacinados da maioria dos países.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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