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79º Festival de Veneza: O Ruído da Abertura

O irreverente Noah Baumbach regressou ao Lido e abriu Veneza 79 com o seu muito aguardado ‘Ruído Branco’ (White Noise), uma das quatro produções da Netflix aqui na selecção oficial.

Após o sucesso do magnífico ‘Marriage Story-História de um Casamento’, apresentado também aqui na Competição do Festival de Veneza em 2019 e depois nomeado para 5 Oscars de Hollywood, incluindo Melhor Filme e Melhor Argumento Original, além de vencedor de Melhor Atriz Secundária, para Laura Dern, o realizador norte-americano Noah Baumbach, regressou ao Lido, para abrir a competição de Veneza 79, com este seu novo ‘Ruído Branco’ (White Noise). O protagonista do filme é mais uma vez Adam Driver, na sua quinta colaboração com o realizador nova-iorquino e a segunda como protagonista após sua inesquecível interpretação em ‘Marriage Story-História de um Casamento’, aliás como em todos os filmes em que participa. Driver é um dos actores do momento! A sua presença é claramente uma garantia de alta qualidade, que combina perfeitamente com o talento de Baumbach, como narrador das complexidades da vida, das relações conjugais e familiares e de histórias autênticas, realistas e universais. ‘Ruído Branco’ (‘White Noise’), retoma os temas mais caros à sensibilidade do realizador que, pela primeira vez, não se baseia na sua experiência pessoal, tal como em ‘A Lula e a Baleia’ (2005), ou mesmo no já referido ‘oscarizado’ drama conjugal.

79º Festival de Veneza
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Desta vez, inspira-se num romance de um enorme sucesso, com o mesmo título — um livro que infelizmente está para já, descontinuado em Portugal — do escritor também nova-iorquino, mas de origem italiana, Don DeLillo, que já deu várias outras adaptações ao cinema, como por exemplo ‘Cosmopolis’, de David Cronenberg (2012). Esta adaptação ‘Ruído Branco’ (White Noise), conta a história de Jack Gladney (Adam Driver), um professor de ‘estudos de Hitlerianos’, que vive numa cidade do interior dos EUA, com sua quarta esposa, Babette (Greta Gerwig) e seus vários filhos ou melhor os meus os teus e os nossos. A vida reconfortante de Jack e da sua família, imersa nas contradições da sociedade contemporânea norte-americana, é abalada por um acidente tóxico, que envolve sua área residencial, com uma nuvem letal e ameaçadora, dir-se-ia num fenómeno quase apocalíptico. O acontecimento de alguma forma tornado excepcional ou sensacional, pelos media e pelas autoridades, que leva à evacuação em massa dos habitantes, acaba por ser o pretexto para confrontar os protagonistas, com os mistérios universais do amor e da morte, da existência, e da possibilidade de felicidade num mundo incerto, apesar de todas as compensações materiais da sociedade consumista; mas ao mesmo tempo o filme mostra-nos o grotesco e o absurdo na vida moderna americana.

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Assim, em ‘Ruído Branco’ (White Noise), o realizador Noah Baumbach criou uma obra original, ambiciosa e de certo modo convincente — talvez um pouco longa demais, com diálogos muito rápidos e acelerados, às vezes difíceis de acompanhar, talvez devido à dificuldade em sintetizar o extenso romance — que joga num equilíbrio e na combinação de vários registos narrativos: o dramático e existencialista ou num tom quase de comédia negra, irónica e satírica. O resultado é um filme poderoso, difícil de assimilar facilmente pelo grande público, que examina em profundidade, as nossas obsessões, dúvidas e medos enraizados, desde a década de 1980, mas que tem também referências muito claras à realidade contemporânea, que vivemos agora: a guerra, a ameaça nuclear, as questões de género, a inflação, etc.. ‘Ruído Branco’ (White Noise), representa assim a terceira colaboração de Noah Baumbach com a Netflix, que produziu inteiramente o filme e que o acompanhará certamente nesta temporada, como um ‘produto de prestígio’, desde aqui de Veneza 79, até à próxima corrida aos Oscars de 2023. Um filme que mais dia menos dia, estará disponível numa plataforma em vossa casa!

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Na abertura da secção Orizzonti assisti igualmente ao interessante ‘Princess’, a segunda longa-metragem do realizador italiano Roberto De Paolis (‘Cuori Puri’, 2017), agora num filme que revela a espinhosa questão da exploração ilegal da prostituição nigeriana, nos arredores de Roma. O filme conta a história de Princess (um extraordinária e convincente interpretação da atriz Glory Kevin, acabei de passar por ela aqui na esplanada do hotel), uma jovem nigeriana, que se prostitui na floresta da estrada rumo à praia de Ostia. Como uma amazona lendária a bela rapariga africana, move-se com a sua longa cabeleira postiça cor-de-rosa, dentro de uma espécie de floresta encantada, num grande pinhal, que se estende até ao mar e num local onde tanto se pode refugiar da polícia, como encontrar uma fonte de sobrevivência e um lugar de ‘caça’ de clientes, que procuram os seus serviços. Depois de várias situações de risco e sobretudo de um desentendimento, com uma das suas colegas, com quem partilha o destino da estrada, Princess conhece Corrado (interpretado pelo actor napolitano Lino Musella) um homem gentil, que parece disposto a ajudá-la e a tomar conta dela. Porém a rapariga, rapidamente descobrirá que para encontrar a sua salvação, só pode contar consigo própria.

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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