Dor e Glória © El Deseo

Goya 2020 | O que significa a noite de glória de Pedro Almodóvar?

Foram entregues os Goya, os principais prémios do cinema espanhol, e “Dor e Glória”, de Pedro Almodóvar foi o grande vencedor. 

Pedro Almodóvar, o mais conceituado cineasta contemporâneo espanhol, vencedor do Óscar da Academia, foi o grande vencedor dos prémios Goya 2020, entregues na passada noite de sábado no palácio desportivo José María Martín Carpena, em Málaga. Almodóvar conseguiu arrecadar 3 prémios em nome próprio: o de Melhor Argumento Original, Melhor Realizador e Melhor Filme por “Dor e Glória”.

Nesta cerimónia, a glória foi tanta que o filme, atualmente na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional, levou ainda para casa dois galardões em categorias de interpretação: o Goya de Melhor Ator para Antonio Banderas, e o Goya de Melhor Atriz Secundária para a veterana atriz Julieta Serrano. Além disso, o público ficou a conhecer melhor o cruzamento entre a vida e a obra almodovariana. Isto porque, “Dor e Glória” começou a ser escrito nos verões em que Pedro Almodóvar ia às piscinas realizar tratamentos das suas dores na coluna vertebral, descrevendo o processo de escrita como o melhor momento do dia.

Dessa corrente passei à corrente da minha infância, àquela do rio onde a minha mãe e as mulheres da aldeia lavavam as suas roupas. Para mim era uma alegria tremenda, e só me dei conta que estava a escrever sobre mim mesmo com o passar do tempo.

Foram as palavras de Almodóvar ao receber o Goya de Melhor Argumento Original do ano, admitindo finalmente a dimensão pessoal de “Dor e Glória”, mesmo que só em parte. É o jogo de auto-ficção de uma obra com traços da obra “8 1/2” de Federico Fellini, que a Academia de Cinema Espanhola quis homenagear em 7 categorias na 34ª edição dos Goya. Toda a cerimónia dos Goya pareceu mesmo uma vénia prolongada (eterna, quase numa cerimónia com mais de 3 horas de duração) à obra de Almodóvar.

Penélope Cruz
Penélope Cruz em “Dor e Glória” © El Deseo

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O prémio de Melhor Ator, como já dizemos, foi entregue a Antonio Banderas, pela representação de Salvador Mallo, o alter-ego de Almodóvar, pelo menos no seu físico e nas suas doenças, mas não nas suas vivências, por muito similares que possam ser. O ator recebia assim o seu primeiro Goya, após 5 prévias nomeações e a vitória do Goya de Honra em 2015. Extremamente emocionado, Antonio Banderas revelou,

Tudo isto é Pedro, passamos juntos quatro década e oito filmes e nunca conheci alguém com a tua lealdade para com a arte cinematográfica. Afinal, eu tinha que estar aqui contigo.

A vitória de Banderas fez-se numa data muito especial para o artistas, afinal celebraram-se a 25 de janeiro, exatamente 3 anos desde que teve o ataque cardíaco que lhe mudaria a vida. Atualmente Banderas está na corrida ao Óscar de Melhor Ator Principal.

Outro momento almodovariano foi o reconhecimento de Julieta Serrano, que interpreta a mãe da personagem de Antonio Banderas, com o Goya de Melhor Atriz Secundária, o primeiro Goya da carreira de uma das míticas chicas almodovarianas que foi finalmente reconhecida pelos colegas do ofício. Penélope Cruz, que interpreta a versão mais nova da personagem não recebeu o prémio a que estava nomeada, o Goya de Melhor Atriz. Destaque, entretanto, para Alberto Iglesias, o artista vencedor de 11 Goya (é quem tem mais estatuetas em casa) levou para casa o Goya de Melhor Banda-Sonora Original pela obra almodovariana, referindo no discurso a liberdade que este cineasta lhe trouxe na composição musical.

Mas o que significa exatamente o sucesso e a glória de “Dor e Glória” nos Goya para a temporada de prémios? Terá algum reflexo nas próximas entregas de galardões como os BAFTA Awards ou os Óscares 2020? Na verdade, pouco ou nada têm a dizer, senão refletir um pouco o excelente panorama artístico do país, que infelizmente parece estar tão ou mais avançado ao nível da produção que o pequeno e vizinho Portugal.

“Dor e Glória” foi um dos melhores filmes espanhóis do último ano e, nada mais do que normal, que a Academia de Cinema do país celebrá-lo. Mesmo assim., não deve ter qualquer impacto para as estatuetas douradas, afinal Antonio Banderas tem um rival de peso que é Joaquin Phoenix por “Joker” e há uns certos “Parasitas” que ameaçam Pedro Almodóvar na categoria de Melhor Filme Internacional. Curiosamente, será Penélope Cruz a responsável por entregar o Óscar de Melhor Filme Internacional no próximo dia 9 de fevereiro, mas é quase certo que não iremos ouvir o mítico grito “Pedrooo”, como aconteceu há vinte anos com “Tudo Sobre a Minha Mãe”.

Além disso, apesar dos Goya serem os prémios mais conhecidos entregues pelos nossos vizinhos espanhóis, não poderemos esquecer que outras cerimónias estão a começar a ganhar um lugar na cultura cinematográfica do país, que cresce a um ritmo veloz ao nível da produção e distribuição além fronteiras, muito graças também a plataformas de streaming (a Netflix tem sede europeia em Madrid). Criados em 2013, foram entregues na passada semana os “Feroz Awards” que também celebraram o génio de Almodóvar. Aliás, “sempre Almodóvar” parece ser o lema do outro lado da fronteira quando o tema é cinema.

Vale a pena não esquecer que os Goya celebraram, em 5 categorias o belíssimo filme “Enquanto a Guerra Durar”, de Alejandro Amenábar, sobre os inícios da Guerra Civil Espanhola, que viu o Franquismo assumir-se como a principal força política da nação. O filme venceu os Goya de Melhor Ator Secundário (para Eduard Fernández), Melhor Direcção Artística, Melhor Design de Produção, Melhor Guarda-Roupa e Melhor Maquilhagem e Cabelos. Além disso, “O Que Arde”, aclamado na passada edição do Festival de Cinema de Cannes, arrecadou o prémio de Melhor Fotografia e Melhor Atriz Revelação para a octogenária Benedicta Sánchez, na pele de uma mulher galega que sofre pelos erros do seu filme.

Entre os restantes filmes vencedores de destacar a entrega do Goya de Melhor Realização Estreante a uma mulher, Belén Funes pelo drama “La Hija de un Ladrón”. Ironicamente, como aconteceu nas edições deste ano dos Golden Globes, dos BAFTA e dos Óscares, nenhuma mulher estava nomeada na principal categoria de realização, que foi dominada por 7 homens, uma vez que um dos filmes foi realizado por 3 pessoas. Esse filme, é nada mais nada menos que “La Trinchera Infinita”, aclamado no passado Festival de San Sebastián, e uma das obras essenciais da cinematografia espanhola de 2019 – para não dizer do cinema mundial – que foi reconhecido nas categorias de Melhor Som e Melhor Atriz.

Belén Cuesta, atriz de 36 anos, habituada a comédias populares, transforma-se neste drama na mulher de um “topo”, apelido dado aos homens que estiveram escondidos nas paredes das suas casas durante a Guerra Civil Espanhola por delitos contra o Estado. Muitas atrizes já foram nomeadas e venceram um Óscar de interpretação por pouco. A personagem de uma mulher que faz de tudo para proteger o seu marido da morte é tão resistente, quanto traumática, e revela ser uma representação autêntica de uma realidade ainda pouco conhecida junto dos espanhóis.

A cerimónia dos Goya 2020 foi apresentada novamente por Andreu Buenafuente e Sílvia Abril e a desaparecida atriz Pepa Flores (também conhecida como Marisol), um verdadeiro “topo” na cultura popular espanhola, foi galardoada com o Goya de Honra. Em palco uma das suas três filhas revelou que a mãe nem sabe o bem que fez a muita gente com as suas personagens. Embora este mediatismo em torno dos prémios seja sempre visto como relativo para as mentes mais elitistas, poderemos tecer um paralelismo desse discurso com a realidade cinematográfica que ainda persiste em Portugal. Faltam os políticos, aos governantes e aos ditos entendidos na produção artística a aceitarem que o cinema faz bem às gentes, que o cinema e a arte são a alma de um povo. Talvez por isso, Espanha tenha tantos Óscares em exposição e Portugal não tenha nenhum. Além do mais nem sequer estivemos nomeados ao Goya de Melhor Filme Ibérico-Americano.

Abaixo poderás conhecer todos os vencedores dos Goya 2020. Deixa os teus comentários abaixo para sabermos que filmes é que viste e quais gostarias que tivessem distribuição em Portugal.

Goya 2020 | Lista Completa de Vencedores

MELHOR FILME

“Dor e Glória”

MELHOR REALIZADOR

Pedro Almodóvar, por Dolor y gloria

MELHOR ATOR

Antonio Banderas, por “Dor e Glória”

MELHOR ATRIZ

Belén Cuesta por “La trinchera infinita”

MELHOR ATOR SECUNDÁRIO

Eduard Fernández por “Enquanto a Guerra Durar”

MELHOR ATRIZ SECUNDÁRIA

Julieta Serrano por “Dor e Glória”

MELHOR ARGUMENTO ORIGINAL

Pedro Almodóvar, por “Dor e Glória”

MELHOR ARGUMENTO ADAPTADO

Benito Zambrano, Daniel Remón e Pablo Remón, por “Intemperie”

MELHOR FILME IBÉRICO-AMERICANO

“La odisea de los giles” (Argentina)

MELHOR DOCUMENTÁRIO

“Ara Malikian una vida entre las cuerdas”, de Nata Moreno

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO

“Buñuel en el laberinto de las tortugas”, de Salvador Simó

MELHOR FILME EUROPEU

“Os Miseráveis”, de Ladj Ly (França)

MELHOR REALIZADOR ESTREANTE

Belén Funes, por “La hija de un ladrón”

MELHOR ATOR REVELAÇÃO

Enric Auquer, por “Quien a hierro mata”

MELHOR ATRIZ REVELAÇÃO

Benedicta Sánchez, por “O Que Arde”

MELHOR CURTA-METRAGEM

“Suc de Síndria”

MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIO

“Nuestra vida como niños refugiados en Europa”

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO

“Madrid 2120”

MELHOR BANDA-SONORA

Alberto Iglesias, por “Dor e Glória”

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

“Intemperie” de Javier Ruibal, por “Intemperie”

MELHOR MONTAGEM

Teresa Font, por “Dor e Glória”

MELHOR DIRECÇÃO ARTÍSTICA

Juan Pedro de Gaspar, por “Enquanto a Guerra Durar”

MELHOR FOTOGRAFIA

Mauro Herce, por “O Que Arde”

MELHOR SOM

Iñaki Díez, Alazne Ameztoy, Xanti Salvador e Nacho Royo-Villanova, por “La trinchera infinita”

MELHORES EFEITOS VISUAIS

“El hoyo”

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO

Carla Pérez de Albéniz, por “Enquanto a Guerra Durar”

MELHOR MAQUILHAGEM E CABELOS

Ana López-Puigcerver, Belén López Puigcerver y Nacho Díaz, por “Enquanto a Guerra Durar”

MELHOR GUARDA-ROUPA

Sonia Grande, por “Enquanto a Guerra Durar”

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