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Gritos, em análise

Até aos dias de hoje, ainda não encontrei um género que realmente não consiga apreciar. Isto não significa que adore em absoluto todos os géneros, mas claro, assim como todo o mundo, tendo a gostar mais de certos tipos de filmes. Horror é, sem dúvida, um dos meus géneros preferidos, tendo influenciado a minha vida mais do que imaginam. Portanto, não será surpreendente afirmar que o “Gritos” original se encontra naquela lista dos “all-time favorites”.

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Mesmo gostando de todas as sequelas, nenhuma chega perto do filme de 1996, que se tornou culturalmente significativo e incrivelmente impactante na história do cinema. O seu ambiente meta permite comentários sociais inteligentes e instigantes, mas desconfiava se uma quinta parcela podia ter sucesso.

Tendo em conta a enorme desilusão pessoal com “The Matrix Ressurrections” há poucas semanas atrás, a preocupação de que “Gritos 5” – para escrever uma crítica menos confusa, abordarei o filme de 2022 assim – poderia seguir o mesmo caminho era real. Felizmente, os realizadores Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett juntaram-se aos argumentistas James Vanderbilt e Guy Busick (todos trabalharam em “Ready or Not – O Ritual”), mostrando ao mundo como fazer um filme meta quase perfeito! Ainda agora terminamos um ano e começamos outro, mas já possuo um forte candidato ao meu próximo ranking de fim de ano.

Scream
Ghostface © 2021 PARAMOUNT PICTURES

Tenho a certeza de que outros críticos estão a enfrentar o mesmo desafio que tento ultrapassar agora. “Gritos 5” é um filme autoconsciente tão extraordinário com centenas de comentários eficazes sobre o género de horror que parte dos meus pensamentos são pedaços exatos do diálogo do filme em si. Desde o jogo bem-humorado com a definição e exemplos de “horror elevado” à brilhante manipulação do conhecimento do público sobre como as sequências de jumpscares funcionam, tanto o argumento como o filmmaking em exibição são totalmente impecáveis. A visão dos realizadores e a intenção dos argumentistas são claramente retratadas no grande ecrã de uma maneira fascinante. Perdi a conta ao número de risos e sorrisos que fui expressando.

O género de horror é sempre abordado dentro da franchise “Gritos”. Existem sempre personagens que adoram este tipo de cinema, por isso, geralmente, a maioria dos comentários meta lidam como Hollywood, os estúdios e, mais recentemente, as redes sociais reagem tanto a filmes novos e originais, como a continuações ou reboots de IP existente. “Gritos 5” pega no tópico adorável, saudável e inofensivo dos grupos de fãs tóxicos. Não sei até que ponto o público em geral possui familiaridade com este assunto, mas para alguém que pertence à comunidade Film Twitter e partilha vários grupos de chat com outros críticos e amantes do cinema, não me podia ter sentido mais feliz durante a visualização. Regozijei-me genuinamente com cada linha de diálogo relacionada com este tópico.

“Como podem os fandoms ser tóxicos?!”, diz uma personagem a certo momento. “É tudo AMOR!”, exclama outro. As prestações são excelentes pelo elenco inteiro, todos entregam as suas falas e interpretam as suas personagens lindamente, mas quando se trata deste tema em particular, é como se percebessem o quão importante era acertar em cheio com os comentários. Tal deixou-me a pensar se os fãs tóxicos se irão reconhecer no grande ecrã… Os fãs tóxicos sabem que estão a ser tóxicos? Não sei, mas “Gritos” retrata na perfeição esse lado mais sombrio das redes sociais. Existe uma grande diferença entre ser um simples fanboy que realmente ama algo com todo o seu coração e um espetador tóxico que intimida e faz bullying a todos os que se atrevem a não adorar o mesmo conteúdo da mesma forma exagerada e super intensa.

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Para além do divertido diálogo meta e respetivas referências, o mistério em redor de quem está por detrás dos assassinatos também é bem tratado até ao final. Os espetadores nunca têm a certeza se podem confiar numa personagem, apesar de uma parte deste “whodunit” ser bastante previsível a partir do primeiro ato. No entanto, as cenas de perseguição e homicídio apresentam mortes extremamente gory, sangrentas e violentas, contribuindo para momentos chocantes. Bryan Tyler (“F9”) oferece uma banda sonora que se encaixa perfeitamente na cinematografia de Brett Jutkiewicz (“The Black Phone”), criando alguns jumpscares hilariantes, mas também inteligentes.

Por fim, o elenco. Mais uma vez, acredito que os realizadores conseguiram equilibrar muito bem as caras novas com as personagens já conhecidas. O filme brinca com o seu próprio título polémico e confuso, então não foi problema abordar também o esquema de marketing frequentemente enganador de trazer de volta pares ator-personagem icónicos para garantir um resultado positivo na bilheteira. “Gritos 5” possui consequências sérias para todos os envolvidos, logo convence o público a acreditar que qualquer personagem pode morrer a qualquer momento, consequentemente gerando sequências com suspense sem fim. David Arquette, Neve Campbell e Courteney Cox são todos notáveis, mas os novatos não ficam muito atrás, especialmente Melissa Barrera (“Ao Ritmo de Washington Heights”) e Jack Quaid (“Rampage”).

Realmente, não tenho nenhum problema de maior a apontar. É um filme de horror constantemente divertido de uma saga bem conhecida que oferece mais do que a maioria dos espetadores antecipa. Acredito firmemente que os fãs vão sair satisfeitos. Requer a suspension of disbelief do costume em relação a algumas cenas de matança, tal como personagens sobreviverem a certas facadas e tiros, mas não é como se a franchise “Gritos” seja conhecida por violência e assassinatos simples, terra-a-terra e realistas. É propositadamente exagerado e algo tonto, mas funciona lindamente dentro da realidade do filme.

GRITOS | DISPONÍVEL NOS CINEMAS A PARTIR DE 13 DE JANEIRO

Gritos, em análise
gritos

Movie title: Gritos

Movie description: Passados 25 anos, desde que uma onda de assassinatos brutais chocou a tranquila localidade de Woodsboro, um novo assassino toma o lugar de Ghostface e começa a perseguir um grupo de jovens para desenterrar segredos do passado sombrio da cidade.

Date published: 13 de January de 2022

Country: EUA

Duration: 114'

Director(s): Matt Bettinelli-Olpin, Tyler Gillett

Actor(s): Melissa Barrera, Mason Gooding, Jenna Ortega, Jack Quaid, David Arquette, Neve Campbell, Courteney Cox, Marley Shelton, Roger L. Jackson

Genre: Horror, Mistério, Thriller

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  • Manuel São Bento - 85
  • Maggie Silva - 75
80

CONCLUSÃO

“Gritos” (5) é uma “requel” brilhante com comentários meta inteligentemente fascinantes sobre o género de horror, fandoms tóxicos, redes sociais e muito mais, tornando-se já um forte candidato ao Top10 deste novo ano. Possuindo um argumento incansavelmente divertido, repleto com diálogos excecionalmente cativantes e relevantes e alguns dos assassinatos mais sangrentos e violentos da famosa saga, os realizadores e argumentistas prestam uma bela homenagem ao influente criador Wes Craven. Todo o elenco – tanto os novatos como os ícones – oferecem prestações notáveis, retratando personagens que abordam, sem medos, tópicos direcionados a cinéfilos, algo que alguns espetadores ocasionais poderão não entender totalmente, mas nunca sem deixarem de receber entretenimento puro no grande ecrã. Como um filme de horror e mistério, mantém o público na ponta dos seus assentos, rindo e assustando-se durante todo o tempo de execução. Não poderia recomendar mais.

Pros

  • Comentários meta sobre fandoms tóxicos e redes sociais são exemplo de escrita perfeita.
  • Opiniões sobre o género de horror e as suas audiências merecem aplausos.
  • Argumento repleto com diálogos fascinantes.
  • Cenas de perseguição bem executadas e assassinatos do mais violento e sangrento que a saga já viu.
  • Manipulação hilariante das expetativas do público em relação a sequências de jumpscares.
  • Elenco com prestações excelentes.

Cons

  • Alguns temas abordados através do ambiente meta poderão ser demasiado niche. deixando de parte algum público.
  • Último ato prolonga-se em demasia ligeiramente.
  • Parte do mistério torna-se bastante evidente a partir do fim do primeiro ato.
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Manuel São Bento

Um jovem engenheiro de 28 anos com uma paixão tremenda por cinema, televisão e a arte de filmmaking. Opiniões baseadas numa perspetiva imparcial de quem não vê trailers desde 2016. Membro de associações de críticos internacionais como GFCA, IFSC e OFTA. Aprovado no Banana Meter. Redes sociais através de @msbreviews.

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