No 23.º IndieLisboa, em 2026, decorrente entre 30 de abril e 10 de maio, a secção retrospectiva ocupou-se do mundo dos mockumentaries ou “mocumentários”. Na Cinemateca, vimos “Ilha das Flores” e “Las Hurdes”, duas curtas-metragens profundamente impactantes e que têm em comum a temática da miséria humana.
O vasto universo do mockumentary no IndieLisboa
O mundo do mockumentary é vasto e abrange múltiplos géneros fílmicos, como pudemos testemunhar na presente edição do IndieLisboa, através da estimulante retrospectiva completa dedicada a este formato particular. Num mocumentário, ou falso documentário, cria-se uma ficção que pretende simular o real, muitas vezes seguindo as regras mais fundamentais do estilo documental e emprestando-as à ficção.
O mocumentário é muito associado à comédia, com exemplos incontornáveis como a série norte-americana “The Office” ou, no cinema, o hilariante “What We Do in The Shadows” de Taika Waititi. E embora a comédia seja o lugar por excelência do mockumentary, há uma plasticidade bastante notória em torno do formato. No terror, o falso documentário foi já muito associado à found footage, como por exempo em “The Blair Witch Project”, que também exibiu neste ciclo.
Todavia, esta sessão dupla na Cinemateca, com a exibição do brasileiro “Ilha das Flores” e o espanhol “Las Hurdes”, prova que o mocumentário pode comportar muito mais estilos fílmicos. Aqui, torna-se uma ferramenta poderosa para explorar a miséria da condição humana, e também até um objecto educacional fora da norma.
A simplicidade ilusória de Ilha das Flores (1989)
Obra “compacta”, com 13 minutos apenas de duração, “Ilha das Flores”, narrativa de Jorge Furtado, oriunda do Brasil e premiada com o Urso de Prata na Berlinale no ano de 1990, é um exemplo majestoso do poder de uma narrativa repetitiva, explicativa e aparentemente simples mas que nos deixa com um forte baque emocional.
Muito exibida nas escolas brasileiras e uma referência desde o seu lançamento, “Ilha das Flores” é uma obra munida de uma animada narração em off que, com valor de entretenimento muito elevado, nos apresenta, da forma mais clara e inequívoca, a evolução de um tomate na cadeia de produção, do momento em que é plantado até ao instante em que chega a uma grande lixeira a céu aberto.
“Ilha das Flores” é quase um bê-á-bá do mundo capitalista, do seu modus operandi à sua notável crueldade. O valor do dinheiro, as trocas comerciais, a produção de bens e serviços, todos estes processos são explicados de forma sumária até chegarmos ao coração da narrativa.
O momento em que o tomate descartado por uma dona de casa chega a um enorme aterro sanitário é o mote para a ação desumanizante que se segue: os alimentos presentes no aterro são divididos entre comida digna para os porcos dos proprietários dos terrenos próximos e comida indigna para este consumo. A comida rejeitada poderá posteriormente ser escolhida pelas massas humanas que vasculham o lixo em busca de alimento, entre larvas e dejetos.
O filme questiona abertamente a nossa sociedade e o valor da liberdade. Subjacente está a questão: quem vale mais, um porco com dono ou um ser humano livre que viva na miséria? No fim, resta a pujante revolta face a esta situação e a certeza de que cada indivíduo carece da capacidade de transformar este cruel sistema.
Não tendo sido efetivamente gravada na Ilha das Flores, mas antes noutra localização por perto, e munindo-se de um guião claro e de atores que interpretam personagens, “Ilha das Flores” é assim inequivocamente um documentário falso. Não obstante, o seu âmago assenta em verdades devastadoras acerca do capitalismo. E, quase 40 anos depois, a curta é suficientemente poderosa para se manter atual e pertinente.
A brutalidade de Las Hurdes ou Terra sem Pão (1932)
Luis Buñuel realizou “Las Hurdes” em 1932, sendo esta apenas a terceira obra da sua prolífica carreira. Este filme situado na marca da meia hora de duração, batizado também como “Terra Sem Pão”, acompanha a vida das povoações remotas e isoladas das Hurdes, uma região extremamente desolada situada entre Salamanca e a fronteira portuguesa.
Se hoje em dia uma pesquisa pelas Hurdes nos remete para um local pitoresco, a realidade retratada por Buñuel é bem distante, com um nível de pobreza e devastação tão grandes que a obra, na época, foi proibida devido ao retrato trágico que pinta da região e, consequentemente, de Espanha.
O filme retrata uma população paupérrima, isolada, a debater-se com mortalidade elevada e todo o tipo de doenças, tais como malária. A brutalidade das imagens impressiona, e muito, da cerimónia fúnebre de um bebé a um burro a ser devorado por abelhas.
“Las Hurdes” é um filme profundamente surreal, muitas vezes descrito como um pseudo-documentário. A obra é extremamente polémica, pois oficialmente afirma-se como um documentário, quando na realidade a maioria das situações testemunhadas pela equipa de rodagem foram encenadas.
Aliás, há 25 anos atrás, o “The Guardian” explorou o tema de “Las Hurdes”, compreendendo o ódio fervoroso que as povoações locais nutrem pela obra de Buñuel. Todavia, em parte também advém daqui algum do charme de “Terra Sem Pão”. Ao fim de contas, as fronteiras entre a realidade e a ficção são mais ténues do que aquilo que possamos imaginar. A vida nas Hurdes nunca foi simples, particularmente em 1932, e com este filme o realizador enfatizou e dramatizou a realidade dura com a qual se deparou.
Mesmo vista à lupa, a experiência de “Land Without Bread” acaba por ser recompensante, devido à sua capacidade para olhar o devastador e o chocante sem receios, permitindo que a lente filme o que vê e também o subtexto reconhecido pelo realizador.
Desse lado, estiveste presente no IndieLisboa em 2026? Em particular na secção dedicada aos falsos documentários?

