"Les Prières de Delphine" | © IndieLisboa

IndieLisboa ’21 | Grandes Vencedores e Balanço Final

Foram anunciados os palmarés do 18º IndieLisboa e o festival deu-se por encerrado com a exibição de “Paraíso” de Sérgio Tréfaut, um requiem cheio de música brasileira, nostalgia por tempos pré-pandémicos e muita paixão. Parece-nos um final perfeito para este segundo IndieLisboa em tempos de COVID-19.

Na passada noite de 6 de setembro, realizou-se a cerimónia de encerramento do 18º IndieLisboa e os vários júris do festival apresentaram as suas honras. Na Competição Internacional de Longas-Metragens, Bas Devos, Erika Balsom e Joana Craveiro escolheram atribuir o Grande Prémio Cidade de Lisboa a “Les Prières de Delphine”. A obra de Rosine Mbakam, realizadora camaronense radicada na Bélgica, afigura-se como um documentário retratista, um estudo de personagem real. Ela é a Delphine do título, uma mulher que, tal como a realizadora, carrega consigo uma herança de sofrimento feminino proveniente de uma África patriarcal.

Ao nível de formalismos, há pouco interesse no filme, mas sua honestidade lacera e queima. O modo como Mbakam ilumina o processo doloroso da entrevista, do ato de recordar e contar histórias pessoais, é especialmente primoroso. Nessa medida, “Les Prières de Delphine” usa sua simplicidade como mecanismo intrínseco ao revelar da verdade cinematográfica. Por esse feito, ela ganhou 15.000 euros, enquanto Ephraim Asili foi honrado com um prémio especial. O filme desse realizador americano, “The Inheritance”, teve seus direitos de exibição em Portugal comprados pelos Canais TVCine. Mal podemos esperar até que todos possam ver essa reinvenção afro-americana de “La Chinoise” que Godard rodou.

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“The Inheritance” | © IndieLisboa

Na Competição Internacional de Curtas-Metragens, “Keep Shiftin’” de Verena Wagner foi o grande vencedor. O júri composto por Bianca Lucas, Mariana Gaivão e Réka Bucsi atribuiu o prémio de 4000 euros à cineasta germânica. No que se refere a prémios menores, o mesmo trio reconheceu “Thank You” de Julian Gallese como Melhor Curta de Animação. “À La Recherche d’Aline” conquistou Melhor Curta Documental e Melhor Curta de Ficção foi para “Come Here” de Marieke Elzerman. Foram ainda dadas duas menções honrosas sem valor monetário, a “Y’a pas d’heure pour les femmes” de Sarra El Abed e “Lonely Blue Night” de Johnson Cheng.

Ainda pensando em curtas-metragens, há outros vencedores para apontar. Melhor Realização para Curta-Metragem Portuguesa foi para Daniel Soares por “O Que Resta”, enquanto o prémio máximo da competição Novíssimos foi para “Hunting Day” de Alberto Seixas. O júri das curtas-metragens Silvestre, composto por Daniel Ebneer, Maíra Zenun e Rita Cruchino Neves, reconheceu “One Image, Two Acts” como o melhor filme da sua secção. “Palma” de Alexe Poukine foi reconhecido com uma menção honrosa. O júri Árvore da Vida, por sua vez, deu um prémio de 2000 euros a “Sopro” do português Pocas Pascoal. O júri composto pelo público foi para T’es Morte Hélène” de Michiel Blanchart, enquanto a “Tinta” Erik Verkerk e Joost van den Bosch foi a escolha do IndieJúnior.

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“No Táxi de Jack” | © IndieLisboa

Voltando para as longas, a Competição de Longas-Metragens Nacionais resultou na vitória de “No Táxi de Jack”, filme que havia já passado na Berlinale. A obra de Susana Nobre foi premiada pelo júri de Mercedes Martínez-Abarca, Ramiro Ledo Cordeiro e Daniel Vadocky, um reconhecimento merecido. Entre o documentário e a caricatura dissecada, a fita traça ligações entre crises globais e as especificidades geográficas de Nova Iorque, Alverca, Alhandra, e Vila Franca de Xira. A fotografia é sublime, mas ainda mais especial é a figura central, um taxista de cabeleira pintada, que tem muitas histórias para contar. “Simon Chama” de Marta Sousa Ribeiro valeu uma honra de Melhor Realização à sua autora. Esse troféu foi atribuído pelo mesmo júri.

Na secção Silvestre, “By the Throat” de Effi e Amir foi o campeão máximo, batendo concorrentes muito mais famosos. Em comparação o júri feito de Cláudia Guerreuro, Yaw Tembe e Yen Sung, não conseguiu escolher um só filme para premiar da seleção IndieMusic sobre documentários sobre a indústria musical. “Sisters with Transistors” e “Nueve Sevillas” partilharam o prémio de 1000 euros. A Amnistia Internacional premiou um filme também. “Radiograph of a Family” foi a obra escolhida, um dos filmes mais complicados e confrontadores do festival. Desafiando a expetativa, a realizadora Firouzeh Khosrovani conta a história recente do Irão a partir de um estudo íntimo sobre sua família e a radicalização da mãe.

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“Radiograph of a Family” | © IndieLisboa

Se nos tivessem pedido a nós para escolher filme merecedor do Prémio do Público, talvez apontássemos para esse pesadelo iraniano ou quiçá para a história de um vírus niilista, “She Dies Tomorrow”, ou o já muito premiado “No Táxi de Jack”. Contudo, as audiências do IndieLisboa fizeram outra escolha, mostrando preferência pela fita francesa “Au Coeur du Bois”, realizada por Claus Drexel. Concordando ou não com as escolhas destes variados júris, esta foi uma valente edição do festival, uma celebração cinéfila que espalha amor artístico, mesmo em tempos de pandemia. Qual farol, o IndieLisboa é uma luz para o futuro, uma promessa esperançosa para aqueles que adoram o milagre da sétima arte.

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Por fim, fica aqui uma listagem de todas as nossas críticas sobre os filmes do festival:

 

TEXTOS MHD DO INDIELISBOA 2021

 

A seguir a esta cobertura do IndieLisboa, vem já o MOTELx. Do cinema independente ao terror, a Magazine.HD traz-te o melhor dos festivais portugueses. Não percas!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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