©Queer Lisboa

Queer Lisboa ’23 | Anhell69, em análise

Primeira longa realizada pelo colombiano Theo Montoya, “Anhell69” é deslumbrante e devastador em igual medida. Um filme documental distinto, que se afirma como “um filme sem género e sem fronteiras, trans”, é na competição Queer Art do Quer Lisboa 27 que podemos encontrar esta obra de arte notável. 

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Depois de uma rota de festivais invejável, que começou no Festival de Veneza, o mais antigo do mundo, já cerca de um ano, e incluiu dezenas de certames de qualidade, “Anhell69″ chegou ao Queer Lisboa como competidor na Competição Queer Art. Esta é uma das selecções mais empolgantes do festival Queer, pois promove a exibição de narrativas elásticas e de filmes que procuram ultrapassar o expectável dentro do cânone. Filmes centrados no “sentir” e não em fórmulas, filmes que se afirmam como experiências sensoriais plenas e únicas.

“Anhell69”, nomeado ao Leão Queer e vencedor de três outros prémios em Veneza, para além de uma Menção Especial do Júri na Semana da Crítica de Veneza, entre tantas outras distinções, sem dúvida encaixa-se nesta definição de filme pleno no sentir. Além de devastadoramente belo, “Anhell69” é sincero e fluído. Transporta-nos pela cidade de Medellín, a mais devastada e ainda hoje marcada pelo império de Pablo Escobar, e aqui apresenta-nos um ponto de vista peculiar com particular emoção.

O realizador, Theo Montoya, jaz num caixão e é transportado numa carrinha funerária (conduzida pelo realizador Víctor Gaviria, um dos mais influentes da Colômbia e um herói pessoal). Este é o nosso ponto de início e o nosso ponto final, esta é a rota que o prende a uma cidade amaldiçoada, a uma cidade de fantasmas. Conduzido dentro de um caixão por Medellín, Montoya convida-nos a mergulhar de forma plena no seu mundo, da sua infância à sua ocupação como realizador.

Uma defessa contra uma depressão coletiva e sentimento de perda que parecem assolar a juventude queer desta cidade, o cinema é a arma essencial do arsenal deste jovem autor. Com humor e mágoa a viverem lado a lado, Montoya filma com uma beleza inegável e uma estética irrepreensível a cidade de espectros onde habita. Com filmagens de arquivo e fotografias que foi tirando dos seus amigos e colaboradores, somos convidados para uma espécie de “making of” bem distinto.

Anhell 69
©Square Eyes Film

Narrativa meta com cunho pessoal, Montoya apresenta-nos o filme de fantasmas de série “b” que desde 2017 (ou quiçá talvez antes) pretendia criar. Um filme de fantasia, com estética steam-punk, sobre espectrofílicos, aqueles que têm um interesse sexual por fantasmas. O autor mostra-nos pequenos apontamentos do que seria esse filme,  em que a cidade de Medellín é dominada por espectros e por aqueles que se envolvem sexualmente com os mesmos.

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Mas fá-lo de uma forma única, intercalando as imagens do seu filme de ficção com as imagens clássicas do documentário, entrevistando atores para os papéis centrais da fita. Todes elus membros da comunidade queer da segunda maior cidade da Colômbia. Aqui começamos a conhecer as suas histórias, os seus traumas, as suas motivações.

Aqui, começamos a conhecer pessoas fascinantes, pessoas interessadas e interessantes, mas incapazes de perspectivar a hipótese de um “futuro”. Ao longo do filme, compreendemos que tal palavra soa risível para a juventude queer de Medellín. Os seus testemunhos esmagam-nos, ferem. Falam-nos de um país criado por um sistema matriarcal, simplesmente porque a maioria dos homens havia morrido em guerras, guerrilhas, devido à droga e à mão do suicídio.

Todo este cenário seria de si já devastador para qualquer jovem, com perspectivas de futuro pouco palpáveis, mas na comunidade queer de Medellín encontramos ainda a homofobia sentida e o sentimento de exclusão num país onde a religião e o conservadorismo estão bem presentes. Aliás, o realizador nunca se coíbe de nos mostrar a toxicidade desta presença do tradicional.

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Na sua metáfora da espectrofilía, os caçadores de espectrofílicos são uma versão fantasiada de quem já “caça” a juventude queer na vida real. Assim, o tal filme de fantasmas de série b intromete-se na realidade e vice-versa, à medida que a mágoa de quem vê vai crescendo.

Queer Lisboa 23
©Square Eyes Film

A obra de Theo Montoya sofreu inúmeras mutações: da fase de entrevistas à fase da criação do filme de série b, até ao momento em que este jovem realizador percebeu que o importante para si seria registar testemunhos individuais de quem decidiu participar na obra. Os seus planos para o futuro, as suas ocupações, as suas lutas e tudo o que define estas pessoas.


Por isso, “Anhell69” é tudo menos uma obra linear – é um documentário mas também é um filme de terror, é uma fantasia distópica e um retrato real e fiel, é de tudo um pouco. É um documentário tradicional e o oposto disso mesmo. É uma obra que bebe da tradição de realismo mágico. É, em primeiro lugar, um exercício que procura lidar com o luto que ameaça devorar Montoya.

Uma carta de amor a tantes amigues do realizador que morreram, de overdose de drogas ou pela sua própria mão, “Anhell69” é um filme de apenas 75 minutos de duração mas que provoca um horror quase sufocante em quem vê. Por exemplo, quando nos apresenta quem deu origem ao nome da obra – “Anhell69” era o pseudónimo (handle das redes sociais) do jovem de 21 anos que seria o protagonista do seu filme de fantasmas, não tivesse morrido de overdose.

Son of Sodom Short
Poster da primeira curta do autor, também acerca da vida e morte de Camilo Najar, símbolo da juventude nihilista de Medellín | ©Theo Montoya

Camilo Najar, o jovem que tanto fascinava Theo (e sobre quem já havia realizado a curta “Son of Sodom”, nomeada para a Palma de Melhor Curta em Cannes), seguro na sua sexualidade e magnético, a estrela mais brilhante das entrevistas conduzidas durante a preparação da história de fantasmas, um talento inato. Camilo, a força que motivou a mudança de direção de “Anhell69”, uma obra sobre a qual é difícil falar, e que acima de tudo pede para ser sentida.

O jovem Camilo personifica o retrato devastador de uma geração, e por isso Montoya volta a este trauma uma e outra vez: aqui,  o niilismo pessimista impera,  a juventude preza o “aqui e o agora” acima de tudo – as drogas, sexos e rock’n’roll imperam e nada importa acima dos prazeres hedonistas.

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Este é um tratado de luto singular, que nos ilustra o que é verdadeiramente viver sem esperança, numa cidade onde a morte parece ser, para quem é entrevistado, a única escapatória possível, o único refúgio perante a certeza de que os sonhos não serão cumpridos. Que bom que Theo Montoya arranjou uma forma de fugir a este destino, e uma forma tão nobre e ímpar de imortalizar estes protagonistas.

Claro, “Anhell69” não está acima de críticas. Os primeiros 30 minutos do filme apresentam-nos a sua tese central, bem como a justaposição da história de fantasmas e das entrevistas. Dá-nos também os momentos emocionalmente mais envolventes da obra, à medida que Montoya revela o seu sofrimento e trauma, bem como os mecanismos de defesa que utilizou para continuar a lutar.

Daí para a frente, imagens de manifestações encontram-se com testemunhos documentais e com mais algumas imagens do seu filme de fantasmas, numa vertigem que por vezes parece algo arbitrária. Todavia, quando a obra se dá por concluída, todos estes aspectos se unem – apresentando um conceito coeso e uma tese assombrosa.

Anhell69″ é verdadeiramente memorável, inesquecível. Um murro no estômago na forma de filme, uma história que não nos dá tréguas. Uma realidade difícil de inverter, mas um retrato que não deixa de funcionar também como cinema de intervenção – exigindo uma rebelião contra uma sociedade que apenas há pouco passou a desfrutar de “liberdade”.

Que triunfo e que tortura é este “Anhell69”.

“Anhell69” compete, no Queer Lisboa 27, na Queer Art Competition. Dia 30 saberemos os resultados. Por agora, sugerimos que seja acompanhada a nossa cobertura

TRAILER | ANHELL 69 NA COMPETIÇÃO QUEER ART 

Anhell69, em análise
Poster Anhell69

Movie title: Anhell69

Movie description: Um carro funerário percorre as ruas de Medellín, enquanto um jovem realizador narra a história do seu passado nesta cidade violenta e conservadora. Recorda-se da pré-produção do seu primeiro filme, um série-b com fantasmas. Jovens da cena queer de Medellín integram o elenco do filme, mas o protagonista morre de overdose de heroína aos 21 anos, assim como muitos dos amigues do realizador.

Date published: 28 de September de 2023

Country: Colômbia, Roménia, França, Alemanha

Duration: 75'

Author: Theo Montoya

Director(s): Theo Montoya

Actor(s): Alejandro Hincapié, Camilo Machado, Alejandro Mendigaña, Julián David Moncada, Camilo Najar

Genre: Drama, Híbrido, Noir, Steam Punk

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  • Maggie Silva - 95
95

CONCLUSÃO

Mais do que um híbrido entre documentário auto-reflexivo e ficção fantasmagórica e distópica, “Anhell69” é um filme que se aproxima verdadeiramente da noção de “ausência de limites”. Tudo isto em prol de nos conduzir pela interioridade do autor e da juventude queer que povoa (ou assombra) esta sua belíssima primeira longa-metragem.

Pros

  • Que deslumbrante esforço, que franqueza emocional, que desarmante sinceridade e mágoa encontramos em “Anhell69”, tão aterrador quanto belo;
  • A construção de uma metáfora verdadeiramente eficaz e poderosa;
  • Histórias pessoais narradas na primeira pessoa que se conseguem encontrar, com destreza, com um problema societário sistémico e de difícil reversão;
  • Uma história de fantasmas original.

Cons

  • Com tantos elementos a povoarem “Anhell69”, é inevitável que quisessemos saber mais sobre muito do que aqui se passa: mais acerca de quem protagoniza a obra, mais sobre o jovem Camilo, mais sobre as personalidades fortes do filme, e até mais sobre a história de fantasmas;
  • Este tópico não é de todo um comentário negativo, mas “Anhell69” deve ser acompanhado de um “trigger warning”, sendo uma história particularmente dura e capaz de induzir ansiedade e angústia durante a sua visualização.
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