Carla Gugino | © Miami Film Festival, imagem modificada

Jett | Carla Gugino em entrevista exclusiva

Conhecida por “Spy Kids“, “The Haunting of Hill House” e “San Andreas“, Carla Gugino deu-nos uma entrevista exclusiva acerca da sua mais recente série, “Jett“.

“Jett” é uma das mais recentes séries da HBO, estreada em junho, acerca de uma criminosa de renome mundial que consegue escapar da prisão — interpretada por Carla Gugino.

 

Deve ser satisfatório dar vida a uma personagem tão complexa, multifacetada e complicada quanto Jett.

Carla Gugino: É, realmente, satisfatório. Nós estivemos a analisar o guião por algum tempo antes de avançarmos, pelo que fui incorporando a personagem. No entanto, não foi até estar realmente na sua pele durante as gravações que percebi o quão único ela na verdade é.

Como atriz, sou usualmente solicitada a trazer uma complexidade emocional para uma peça, ou contextualizar algo ou ainda trazer um pouco de humanidade para uma história — todas as características que as personagens femininas geralmente fornecem, enquanto as personagens masculinas apenas praticamente existem — e, neste programa, eu compreendi que Jett só começa por existir. E isso foi surpreendentemente libertador. E bastante invulgar.

Para este fim, a minha tendência como atriz é de querer transmitir mais, e grande parte da realização de Sebastian passou por me empurrar para trás. “Muita empatia. Eu vejo-a em demasia nos seus olhos. Estou a perceber o que estás a sentir. É demasiado.’ E foi interessante para mim, porque uma das minhas maiores habilidades enquanto atriz é o meu rosto ser muito expressivo e também é o que os cineastas apreciam e normalmente pedem que desenvolva. Desta forma, foi uma experiência bastante interessante ser despojado disso — e um autêntico desafio.

Remontando Lee Marvin em “À Queima Roupa“, que foi um dos nossos modelos, ou Clint Eastwood ou ainda Toshiro Mifune, eu fui completamente compelida pelas personagens que eles criaram e não tinha a certeza se gostava deles assim, como espectadora. Mas “gostar deles” não é o que faz uma personagem interessante. E todos estamos acostumados a isso em personagens masculinos, embora não encontremos muitas personagens femininas a fazer esse papel sem precisarem de ter uma desculpa por trás, que explique a razão de elas não seguirem as normas da sociedade.

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Eu tive uma conversa com alguém no outro dia, que estava a comentar como os realizadores dizem às atrizes que o público tem de se apaixonar pelas suas personagens. Ela perguntou-me porquê? Por que motivo isso é exigido às mulheres?

CG: Sim, isso acontece. E ninguém diria o mesmo sobre uma personagem masculina.

E acreditas que essa realidade esteja, finalmente, a ser alterada?

CG: Eu acho que está. Há um apetite cada vez maior na televisão em para explorar tipos diferentes de mulheres do que tem sido apresentado nos últimos anos. E esperamos que mais e mais destas personagens passem no teste de Bechdel (teste que averigua se o filme aborda corretamente as suas personagens femininas. Basicamente, há 3 regras. Possuir duas personagens femininas com nome; haver pelo menos uma conversa entre elas; e essa conversa não pode ser sobre um homem, ou não conta). Onde a sua existência não é sempre anexada a um homem. A questão é que existem muitas mulheres e homens no mundo real cujas histórias de vida são muito mais interessantes e além do que “o amor” e o seu sentido pragmático. Mas não me entendas mal, sou apaixonada por uma boa história de amor. Estou somente entusiasmado por podermos explorar mais camadas.

Foi particularmente interessante no início — houve um momento em que algumas jovens compositoras foram convidadas para trocar ideias de músicas para a Jett. Muitas das músicas apresentadas eram sobre a ascensão da fénix, a mulher injustiçada que foi derrotada e está a erguer-se das cinzas para se vingar. Na altura, Sebastian e eu entreolhamo-nos e pensamos: “Este não é o conceito da história, de todo”. Ela não é uma mulher injustiçada. Não é “Kill Bill“. Jet é alguém que é excelente no que faz — ela é muito prática, um lobo solitário, e está definitivamente a seguir o seu próprio ritmo, com a sua própria moral. No entanto, a sua vida não é sobre malícia ou vingança. Se alguém interceder o seu caminho, vai estar em apuros. Mas não há uma vendeta pessoal… bem, até que, a certo momento, haja.

Jett
Carla Gugino como Jett | © HBO Portugal

Ela é absolutamente destemida e sem remorsos em abordar a sua sexualidade para obter o que ela pretende. Como é que te sentiste em relação a isso, em 2019, dada a sensibilidade recente da sociedade a questões como esta?

CG: Jett está completamente confortável com a sua sexualidade, ela diverte-se a faz~e-lo. Por vezes, também é útil para ela. É refrescante interpretar um personagem que não se importa minimamente com o que as pessoas pensam dela.

Então, paralelamente a essa sexualidade evidente que ela sabe manipular nos homens, ela é a favor da solidariedade feminina, o que eu acredito ser uma adorável complexidade. Esta dualidade foi algo que te atraiu para o papel?

CG: Muito mesmo. Eu admiro as mulheres e tenho uma irmandade de amigas e colaboradoras, e Sebastian foi criado numa casa de mulheres. Acredito que essa é uma das razões pelas quais ele desenvolve tão primorosamente as personagens femininas. Então, a história secreta (que não é assim tão secreta) dentro da própria história é esta tribo de mulheres que está a ser construída, esta família em formação.

Se o programa encontrar um futuro além desta primeira temporada, essa família aparecerá nele com destaque. À medida que estas personagens se revelam elas desafiam muitas das reações apalermadas que temos sobre as pessoas. Com Phoenix, por exemplo, estamos a lidar com alguém que foi uma prostituta e muitas vezes temos noções ou julgamentos incorretos sobre o tipo de pessoa que ela é, e depois vemos um lado totalmente diferente dela em “Jett”.

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Sim, ela também é uma ótima personagem!

CG: Ela é mesmo uma grande personagem, e Gaite é brilhante. Se já a viste em qualquer projeto que ela fez, ela é completamente revigorante. Ela é especial. Isso também  é o que tem tornado este processo tão emocionante. Ser um dos produtores permitiu-me ajudar a escolher o elenco principal, tal como Avy Kaufman. Tivemos a sorte de ter pessoas extraordinárias disponíveis. Algumas eu já conhecia, enquanto outras foram autênticas revelações para nós, o que é genuinamente divertido de se ver. É emocionante dar a oportunidade a um ator menos conhecido de sobressair. E acredito termos vários destes casos no elenco.

Além de ser teu colega, tu e Sebastian trabalharam muito juntos antes. Vocês estão sempre envolvidos no início do processo criativo como estiveram em “Jett”, ou é particularmente incomum?

CG: Eu sou a primeira pessoa que lê os seus guiões, mas é ele que os escreve por conta própria. Portanto, sim, geralmente estou envolvida desde cedo. Quando algo tão impressionante e inspirador como “Jett” sai da mente dele, eu fico maravilhada. Eu penso que isso é algo que faz da nossa colaboração, de facto, produtiva. Ele evoca algo do nada (meio que equiparo os escritores a mágicos) e a minha experiência e paixão estão em interpretar parte desse material. Ajudar a trazer a visão de um cineasta para a vida. Espero conseguir torná-la ainda melhor do que o cineasta imaginou inicialmente, quando a desenvolveu no computador às 2 da manhã, meneando nas teclas do computador.

Por vezes, as pessoas perguntam-me: “Tu costumas dizer-lhe (ao Sebastiam) quais papéis gostarias de interpretar?”. Isso raramente faz parte
da nossa dinâmica. E estar na posição em que um escritor/realizador que respeito dizer: “Aqui está o guião, dá uma vista de olhos, foi te oferecido o papel de Jett.” e lê-lo é muito mais divertido. Ha! Escusado será dizer que a partir desse momento que tenho estado envolvida no programa e no seu desenvolvimento, embora não haja dúvidas que “Jett” nasceu da visão de Sebastian.

Spy Kids
Spy Kids | © Rico Torres / Dimension Films

Podemos falar sobre o guarda-roupa da tua personagem? Está fantástico! Qual foi a inspiração para o teu look?

CG: Eu sei, nós divertimo-nos bastante a desenvolvê-lo. Houve diversas influências que ditaram o visual do programa e o guarda-roupa das personagens, contudo, as cores saturadas foram o fundamental. Porque Jett precisa de cativar diferentes personagens durante o desenvolvimento da temporada, ela tem de se sentir especificamente adequado para cada circunstância.

Como Charlie é mais old-school, pelo que com ele há muita lingerie sexy; praticamente ela está a aproveitar-se de uma beleza clássica. Com Bestic, já temos a sensação tropical de Ava Gardner. E os calções curtos no campo de golfe, com a boina e o lenço, foi uma divertida inspiração em Bonnie e Clyde (um casal de criminosos americanos).

O casaco de leopardo da Dolce que Jett veste é, curiosamente, meu. Tenho sempre algumas peças que guardo para um dia em que em que possa precisar delas e houve um momento, estava eu em Toronto a filmar, e Nancy (Gold, a estilista de “Jett”) disse “Agora só preciso de uma grande trincheira“, e eu respondi: “Eu tenho o ideal” e liguei para alguém mo enviar de Nova York. Entretanto, tornou-se num dos looks mais icónicos de Jett.

A estética atual de Jett é super simples e prático. Ela não está a usar roupas estilizadas do designer tal, mas sim um par de leggings pretas; ela quer qualquer coisa que seja facilmente esquecido, de forma que possa ser invisível. Ela não pode chamar muito a atenção e tem de ser prática para conseguir entrar e sair de espaços apertados. Tão funcional quanto possível.

Nancy fez um trabalho brilhante. Sebastian sempre teve uma estética visual única e muito específico e único estética, e todos se empenharam muito para desenvolver a sua visão.

The Haunting of Hill House
Carla como Olivia Crain em “The Haunting of Hill House” | © Tina Rowden/Netflix

Achas que Jett possui alguma moral. Se sim, como é que ela faz para estabelecer os limites, para a definir? (afinal de contas, ela é uma criminosa e não tem problema algum em admiti-lo).

CG: Ela tem definitivamente tem uma moral bem delineada, todavia, certamente não está definido de acordo com o mundo exterior. Muito pessoalmente, posso dizer que, por mais anos do que gostaria de admitir, o meu senso de auto-estima foi realmente determinado por como estava a ser recebida pelo outros, ou como entendia que estava a ser recebida. Acho que se deve à forma como somos educadas enquanto mulheres. E também como atriz, começando muito jovem. Como fazer algo muito pessoal e muito particular para o público e ouvir as opiniões alheias enquanto ainda estamos a descobrir quem somos.

Jett vê o mundo de dentro para fora. Não há dúvidas de que, se ela te deixar entrar no mundo dela, ela irá proteger-te para a vida. Mas é de acordo com as suas próprias regras. No programa, quando ela mata pessoas, ela faz uma escolha infeliz que tem de ser feita — ela não tem qualquer interesse em matar pessoas por si só. Não é como “Killing Eve“, onde a protagonista retira prazer da matança.

“Jett” é de natureza lúdica, mas a violência tem uma consequência real, e o humor não vem da violência. Contrariamente, Quentin Tarantino faz isso, e fá-lo brilhantemente, onde há algo engraçado sobre a natureza da violência, mas é algo que não tem interesse para a nossa série. Jett não obtém prazer da dor alheia. Ela está apenas um passo à frente de todos os outros e elimina metodicamente os obstáculos. É meramente uma questão de sobrevivência.

Com vontade de conhecer Jett? Já podes fazê-lo, uma vez que a série estreou há pouco mais de um mês, na HBO!

Luis Telles do Amaral

Escritor de O Diário da Pandemia, administrador do blogue Para Lá da Kapa e a licenciar-se em Microbiologia. Considero-me um devorador de livros nato e fã assíduo do grande ecrã.

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