10 filmes esquecidos pelos Óscares | Midnight Special – Poderes Misteriosos

Michael Shannon pode ter sido indicado para o Óscar por Animais Noturnos, mas foi em Midnight Special que o ator realmente brilhou.

 


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A maior parte dos críticos internacionais tende a caracterizar a oeuvre de Jeff Nichols como naturalista. De facto, a sua atenção parece sempre focada na densidade dos silêncios que se estendem entre esqueléticos diálogos desprovidos de grande informação e nos detalhes minuciosos da vida no interior dos EUA e sua idiossincrática natureza material. Só que, esta predileção obsessiva com a inexistência de ação, interação, enredo ou usuais mecanismos dramáticos não é tanto naturalista como minimalista, um artifício tão falso como as cores saturadas de La La Land. Isso não invalida o seu valor, mas leva a uma diferente contextualização do seu trabalho.

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Fazemos esta introdução pois, em Midnight Special, o seu primeiro filme de 2016, Nichols leva este peculiar tipo de estilização a um extremo francamente alienante. De um modo geral, esta narrativa é uma história de ficção-científica pronta a satirizar o fanatismo religioso que germina selvagem no interior dos EUA assim como a ação impiedosa dos seus serviços de segurança interna, capazes de fazer tudo para impedir algo que considerem ameaçador. Só que, nada nessa proposta é executado da maneira explosiva a que estamos habituados e até a ideia de ambiguidade à la Nolan é rapidamente descartada em prol de uma abordagem extremamente direta mas, ao mesmo tempo, intensamente oblíqua e opaca. Por outras palavras, o filme nunca brinca com jogos de incerteza e dúvida deliberadamente confusa mas também se recusa veemente a explicar o que quer que seja.

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Consequentemente, ver este filme pode ser uma experiência muito frustrante para um espetador à procura de um épico de ficção-científico normal ou de uma versão cinematográfica de Stranger Things (crianças com superpoderes, instituições controladoras de dúbia moralidade, homenagens e referências a clássicos do cinema comercial dos anos 80). Isso não invalida que Midnight Special seja uma obra de fenomenal individualidade no panorama global do cinema americano atual. O seu tema subjacente, o de pais a encararem o crescimento dos seus filhos, a inevitável barreira de entendimento e distância que se manifesta e a possibilidade de que não somos capazes de totalmente proteger aqueles que amamos, é particularmente forte e revela uma dinâmica muito pessoal, quase autobiográfica, entre o realizador e o seu material. Afirmamos mesmo que as decisões estilísticas de Jeff Nichols raramente estiveram tão apuradas e precisas.

Entre sonoplastia expressiva mesmo quando pouco bombástica, alguns toques de eficaz CGI, uma fotografia rica em húmidos tableaux noturnos e uma cenografia detentora de uma especificidade geográfica verosímil e extremamente detalhada, Midnight Special é um triunfo formal do mais alto gabarito. A própria montagem que constrói tanta dessa frustrante reticência tem uma qualidade quase experimental na sua economia monstruosa. O seu único passo em falso, que nada tem que ver com a sua capacidade de irritar ou agradar um público convencional, vem no clímax quando o entrelaçamento dos vários fios narrativos se emaranha num caos de antidramatismo estéril.

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Felizmente, o elenco compensa as falhas do guião e montagem, aproveitando toda o minimalismo de Nichols e tornando-o num veículo para lancinantes retratos humanos. Como o pai de uma criança com misteriosos poderes em fuga das autoridades e de um culto que os procuram, Michael Shannon tem aqui uma das melhores prestações da sua carreira. É bem sabido que Nichols e Shannon são o amuleto da sorte um do outro, mas nada apontava para a subtileza sombreada de potente pânico paternal que os dois conjuram neste protagonista. Num patamar secundário, Adam Driver torna uma personagem superficialmente antagonística num puzzle de peculiaridades pessoais, tiques e reações inesperadas na sua genuinidade, enquanto Joel Edgerton subjuga a falta de informação do argumento ao mesmo tempo que renuncia a qualquer noção de mistério carismático.

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Havia quem pensasse que 2016 seria o ano de Jeff Nichols, com um filme a estrear na competição da Berlinale (Midnight Special) e outro em Cannes (Loving), mas o esperado não se verificou. Quer dizer, Loving arrecadou uma nomeação para Melhor Atriz em nome da maravilhosa Ruth Negga mas, talvez pela sua condição como um filme de género (ficção-científica, fantasia, terror…), Midnight Special ficou de mãos vazias no final da Awards Season. Outros filmes de género com destinos semelhantes, apesar da sua qualidade geral e deslumbrante primor técnico foram The Conjuring 2, A Bruxa, The Wailing, Train to Busan, Under the Shadow, The Intervention, Águas Perigosas e 10 Cloverfield Lane, entre outros.

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Como já dissemos, Michael Shannon acabou nomeado pela sua prestação em Animais Noturnos, um trabalho de inteligente estilização e manipulação de códigos de género mas, mesmo assim, menos poderoso que o seu desempenho em Midnight Special.  Enfim, para quem segue regularmente os Óscares, é uma verdade incontornável que, em muitos casos, um profissional do cinema é raramente celebrado pelos seus melhores esforços.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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