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Pedágio, a Crítica | Como tratar da doença “gay”?

“Pedágio”, a segunda longa-metragem da realizadora brasileira Carolina Markowicz, integrou a nova secção Rizoma do IndieLisboa 2024 e chega agora às salas devidamente contextualizado com algumas sessões comentadas. Trata-se de um drama ácido sobre uma mãe desconcertada com a questão da orientação sexual do filho adolescente, num filme que foi co-produzido pela portuguesa O Som e a Fúria. “Pedágio” estreia já dia 13 de junho nas salas de cinema nacionais e teve antestreia com a realizadora e o ator português, a 11 no Cinema Ideal.

A cineasta paulista Carolina Markowicz, regressa às salas de cinema com este impressionante “Pedágio”, pouco mais de um ano após ter estreado o seu belíssimo filme de estreia “Carvão” (2022), com o qual conquistou aliás diversos prémios em festivais internacionais.

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Protagonizado por Maeve Jinkings — a atriz fetiche de Kléber Mendonça Filho — e Kauan Alvarenga — num óptimo papel —, este novo filme — escrito também pela própria Carolina Markowicz — conta a história marcada, de uma operadora de portagens de autoestrada (um pedágio para os brasileiros) que, inconformada com a orientação sexual do filho, acaba por cometer uma série de delitos na tentativa de financiar uma cura para a “doença” do rapaz.

O filme passa-se em Cubatão (no interior do Estado de São Paulo), uma cidade marcada pela onipresença visual e acústica das refinarias de petróleo e dos céus cobertos de fumo negro e de ar irrespirável, imagens e sensações que na verdade constituem um cenário evocativo e meio-depressivo, para as desventuras destes dois protagonistas: uma mãe solteira e o seu filho adolescente.

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Um processo evangélico de cura

Suellen — a carismática Maeve Jinkings, que se destacou, entre outros filmes, em “O Som ao Redor” e em “Carvão”, também —, anda horrorizada e envergonhada com os vídeos que seu filho Tiquinho (Kauan Alvarenga) publica na internet.

Esse exuberante adolescente de 17 anos, sonha tornar-se uma diva, gravando playbacks da música “Baby Won’t You Please Come Home”, cantada por Dinah Washington, ao mesmo tempo que vai “influenciando”, os seus seguidores na compra de alguns produtos de beleza e maquilhagem, tirados à sua mãe; para esta já não chega acender umas velas e rezar, pois não sabe mais o que fazer para redirecionar o rapaz, que tudo indica ser homossexual.

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A aparentemente “piedosa” e crente evangélica Telma (Aline Marta Maia), colega de trabalho e amiga de Suellen, recomenda-lhe matricular Tiquinho num programa supostamente milagroso, dirigido por um pastor-guru europeu, interpretado curiosamente pelo ator português Isac Graça.

Não tendo outra escolha, António acaba por aceitar a proposta e embarca num estonteante “processo de ressignificação bioenergética”, ou melhor numa verdadeira “cura gay”. Porém, como Suellen não tem condições financeiras de arcar com essa caríssima cura milagrosa, apenas com o seu salário, decide recorrer ao seu antigo amante Arauto (Thomas Aquino), um pequeno meliante…e com a sua ajuda obter um dinheiro extra.

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Retrato do Brasil conservador e tradicional

É extraordinário como a cineasta consegue entrelaçar várias veias abertas e vários fios narrativos, sobre a sociedade brasileira da atualidade: a vida difícil de uma mãe solteira da classe trabalhadora, as esperanças de um jovem homossexual, no limiar da emancipação típica da chegada da idade adulta em tempos de repressão sexual, e apesar de tudo, a relação carinhosa e emocional entre mãe e filho, bem como o peso “delirante” das igrejas evangélicas no Brasil e a sua influência sobre as populações e por fim a criminalidade generalizada, espalhada por todo o País, devido às grandes desigualdades.

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Todas estas abordagens são pacientemente alcançadas graças a uma harmonia perfeita da realização, realista e que proporciona uma grande intimidade entre as personagens, que é sensível e tocante. Prova disso são por exemplo as cenas de cozinha em família, as conversas entre Suellen e Telma no refeitório da portagem, enquanto que ao mesmo tempo emerge deste melodrama familiar, também um certo toque de cinema de género de ação, com assaltos de mota e confrontos entre ladrões e polícias, estes nem sempre um exemplo de autoridade e justiça.

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Uma co-produção luso-brasileira

Além disso, Markowicz, faz-se valer de um razoável número de planos de uma impressionante beleza e de tons cinzentos da poluição da cidade, graças ao talentoso diretor de fotografia venezuelano Luis Armando Arteaga. “Pedágio” é ainda um retrato sutil da sociedade brasileira onde as coisas parecem que nunca mudam, mesmo que mudem os políticos e os presidentes, embora isto esteja um tanto escondido pela natureza agridoce de uma história simples e quase óbvia, dessa pequena família do interior.

Carolina Markowicz é de facto uma cineasta brasileira a seguir com atenção. “Pedágio” teve estreia mundial nos festivais de cinema de Toronto e de San Sebastián e antestreia nacional na última edição do IndieLisboa 2024. Trata-se de uma produção luso-brasileira da Biônica Filmes e O Som e a Fúria.

O Cinema Ideal esteve em pré-estreia na terça-feira, dia 11 de junho, pelas 21h30, o filme “Pedágio” (2023), de Carolina Markowicz. A sessão contou com uma conversa com a realizadora e o ator Isac Graça, no final da projeção.

Pedágio, em análise

Movie title: Pedágio

Movie description: Suellen, cobradora de portagem (pedágio), percebe que pode usar seu trabalho para  conseguir uns rendimentos extra, mas ilegalmente. Tudo por uma causa nobre: financiar a ida de seu filho António à caríssima cura gay ministrada por um famoso pastor estrangeiro.

Country: Brasil/Portugal 2023

Duration: 102 minutos

Director(s): Carolina Markowicz

Actor(s): Maeve Jinkings (Suelen), Kauan Alvarenga (Tiquinho), Thomás Aquino (Arauto), Aline Marta Maia (Telma), Isac Graça (Pastor Isac)

Genre: Crime, Drama

  • José Vieira Mendes - 70
70

Conclusão:

“Pedágio”, de Carolina Markowicz é a história de uma mãe perplexa que tenta tornar o seu ‘abichanado’ filho adolescente em heterossexual, num filme marcado por um realismo severo e sofisticado. Trata-se ainda de ‘um drama permeado por humor ácido’ e um retrato da opressão e violência sofrida pela comunidade LGBTQIA+ diante das incoerências e atrocidades promovidas por alguns setores mais conservadores da sociedade brasileira: as igrejas evangélicas introduziram práticas absurdas e patéticas, como as retratadas pelo filme, que parecem ser quase ficção, próximas de uma realidade surreal, que têm gerado sequelas físicas e emocionais irreparáveis em muitas pessoas. Na verdade, são estes os eixos narrativos desta extraordinária história de uma família monoparental, passada no interior de um Brasil tradicional, num ambiente opressivo e com um ar quase irrespirável. Uma pérola de filme e uma realizadora a ter em conta.

O melhor: Além da cineasta utilizar muito bem o grande dilema familiar, a cena final entre mãe e filho que parecem encontrar aparentemente uma forma abrupta de se conectarem é muito forte e absolutamente memorável. Notável a interpretação dos dois protagonistas.

O pior: Para alguns espectadores podem parecer exageradas e arriscadas tantas doses de humor nesta história, que na verdade trata-se de uma experiência amarga e pouco dignificante para as personagens. Porém parece-me mais uma forma de a realizadora atenuar um pouco, a densidade do(s) tema(s).

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