"Pobres Criaturas" | © NOS Audiovisuais

As modas de Pobres Criaturas merecem o Óscar?

A figurinista Holly Waddington ganhou o Óscar para Melhor Guarda-Roupa por vestir Emma Stone em “Pobres Criaturas” de Yorgos Lanthimos. Mas será que mereceu a honra contra competição tão forte como “Barbie” e os “Assassinos da Lua das Flores?”

Na última década, são raros os figurinistas com pouco currículo a ganhar o Óscar. Sejamos mais específicos: a maioria dos vencedores são pessoas a ganhar a segunda estatueta ou gente com uma filmografia extensa que já há anos deviam ter arrecadado a honra. Por isso mesmo, a vitória de Holly Waddington nos Óscares deste ano nos parece tão estranha. Além de “Lady Macbeth” e o primeiro episódio de “The Great,” a artista britânica não tinha grande fama na indústria antes do reconhecimento pelo novo filme de Yorgos Lanthimos. Mas antes da fantasia de “Pobres Criaturas,” já há muito ela trabalhava com nomes sonantes.

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Durante muitos anos, ela treinou na célebre Angels Costume House, especializando-se no design de figurinos históricos. Contudo, através de colaborações com artistas tão grandiosas como Sandy Powell e Jacqueline Durran, ela foi ficando frustrada com a recriação exata de modas antigas. Brincar com as possibilidades do cinema tornou-se mais importante que o verismo histórico na perspetiva desta figurinista. Esse gosto pela fuga ao facto ajudou-a em projetos com realizadores desinteressados no realismo. Aliás, foi com a série televisiva sobre Catarina a Grande que Waddington travou amizade com o argumentista Tony McNamara e foi recomendada a Lanthimos.

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O resto é História. Ou talvez fantasia seja a melhor descrição. É que, depois de garantir o seu lugar na equipa de “Pobres Criaturas,” Waddington deparou-se com um cineasta que deseja ter figurinos fora do espectro do filme de época. Contudo, também ele se queria afastar da total fantasia associada à ficção científica. Assim, Waddington construiu uma estética próxima do “steampunk” – mas não é bem isso, como explicou a figurinista em várias entrevistas – derivada da década de 90 do século XIX apesar do texto se passar uma década antes. Essa decisão veio do cineasta grego que adorou as mangas em balão populares nessa década.

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Na sua procura por um meio termo entre anacronismo e História, fantasia e mundanidade, Waddington baniu o espartilho da indumentária da protagonista. Isso logo mudou a silhueta e a estrutura interna dos figurinos. Além disso, ela misturou materiais, usando têxteis inusitados em modos impossíveis pelas normas vitorianas. Veja-se o uso de latex e plástico, por vezes até usado para substituir rendas em vestidos de noite. Em termos de paletas cromáticas, Waddington tomou inspiração da pintura de Egon Schiele, cujo trabalho inspirou a conceção de Bella Baxter. Outros pintores inspiradores foram Otto Dix e George Grosz, todos recomendados pelo realizador.

Lanthimos e Waddington também discutiram um equilíbrio de cores tiradas da natureza. Vejam-se os rosas da matéria orgânica dos nossos corpos, ou as fases de apodrecimento de uma maçã com seus rasgos de amarelo e nódoas negras.  Segundo a figurinista, amarelo e preto são as cores com que a natureza nos avisa, com que o urbanismo marca perigo. São as cores que fazem com que Bella salte à vista em qualquer lugar, como que exigindo a atenção do espetador. As mangas, quais pulmões cheios de ar, também foram feitas para ocupar espaço e salientar a importância narrativa de Bella e sua autoridade sobre si mesma.


Algumas das mangas foram construídas com inspiração nas formas que Waddington achou em ilustrações científicas da época, ora botânicas ou zoológicas. Anémonas e conchas entre as referências especialmente marcantes. Nesse sentido, há uma relação de proximidade entre a heroína e o cenário principal, a casa de Godwin Baxter, que está cheia de detalhes assim. Vejam-se as orelhas esculpidas no teto de uma divisão, murais anatómicos e baixos-relevos em jeito de molúsculo. Ainda a pensar nesse casarão, vamos lá examinar o arco narrativo da nossa heroína, um processo espelhado nos figurinos que ela enverga. Segundo a figurinista, as roupas contam o seu próprio enredo.

Repare-se como, no início, há uma infantilidade rendada nas roupas de Bella Baxter, escolhidas a dedo pela Sra. Prim que o Dr. Godwin emprega como assistente médica e, mais tarde, ama-seca da experiência. Sentimos, nessas passagens iniciais como se a mulher mais velha estivesse a vestir Bella como uma boneca, forçando certas ideias de feminilidade e inocência. Dito isso, há ainda uma irreverência menina no modo como ela se veste. Falamos dos seus preparos, onde a parte de cima do fato está completo, mas a parte de baixo ainda se vê em trajos menores. Dá a impressão de uma criança traquinas que se aborreceu com o ritual de vestir e não pôs ainda as saias todas.

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Até o peso e volumetria dos tecidos ajuda a dar a impressão de uma boneca. Para uma blusa em tafetá, Waddington escolheu o tecido pela grossura e rigidez excessiva, para dar a falsa impressão de miniatura. A heroína assim se torna num brinquedo meio-vestido ou quiçá um bolo coberto em maçapão e grinaldas de cobertura. É claro que nem tudo é tão inocente. O uso de filas de pregueados em jeito simétrico tem uma conotação anatómica e sexual. Para Waddington, estas peças eram como blusas vaginais e aparecem espalhadas por todo o guarda-roupa de Bella Baxter, especialmente depois dela abandonar a casa do seu criador e se aventurar pela Europa com o seu amante advogado.

Aqui sim, começa a evolução estilística da personagem. Há uma ideia de que a Sra. Prim lhe fez as malas, mas é Bella que escolhe como usar as peças ao longo da sua viagem pela Europa, acabando por criar conjuntos desconjuntados – caos e liberdade manifestos em anarquia estilística. Essa estética vai-se alterando e ganhando propósito, como se a mulher fosse crescendo e descobrindo o seu próprio gosto. Chegado o fim da fita, há mais ordem na indumentária. A excentricidade mantém-se, mas há uma intencionalidade por detrás da sua expressão. Antes de chegarmos à conclusão, no entanto, a aventura começa em Lisboa.

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Na chegada à capital portuguesa, “Pobres Criaturas” tem o seu momento “Feiticeiro de Oz”, fazendo a transição do preto-e-branco para uma explosão cromática. Por isso mesmo, as cores que Bella veste tornam-se importantes. Nesta primeira fase, a combinação de amarelos solarengos e azuis celestes é como uma manifestação de um espírito otimista em forma de vestuário. É claro que a paleta também denuncia inocência juvenil, como seria de esperar nesta parte da narrativa. Em Lisboa, Bella Baxter ainda se veste como criança. No navio rumo a Alexandria, o seu guarda-roupa é mais próximo da adolescência, mesmo que as peças sejam repetidas.


Esse crescimento materializa-se em várias vertentes. Os calções que vestia em casa de Godwin desaparecem, pois Bella cresce e começa a usar peças de aparência mais adulta. Para a visita a Lisboa, Waddington usou um modelo inspirado em figurinos de dança dos anos 30. A inspiração principal para o fato lisboeta terá sido Jodie Foster em “Taxi Driver.” Por seu lado, as botas com buracos circulares à volta dos tornozelos e dedos dos pés são uma homenagem aos desenhos de André Courrèges nos anos 60 do século passado. Bella Baxter é uma figura que transcende o tempo e espaço, ela é um fenómeno que ninguém consegue conter.

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Depois de Alexandria, Bella e Duncan perdem o dinheiro e são corridos para fora do navio, acabando na penúria parisiense. Só que a mulher com cérebro de bebé não se deixa ficar derrotada e encontra trabalho como prostituta, proporcionando a sua separação final do Casanova britânico. Em Paris, ela usa uma capa feita em latex, semelhante aos casacos de laboratório transparentes que Godwin enverga nas cirurgias. Para Waddington, a inspiração para o material e cor do traje veio dos preservativos Vitorianos, muitas vezes feitos através de vísceras processadas. O latex, os amarelos pálidos e cores da carne repetem-se nas trabalhadoras do sexo com quem Bella encontra irmandade.

No bordel, as prostitutas usam indumentárias que expõem ao invés de esconder, como que emoldurando a nudez feminina. Os braços podem estar cobertos, mas o peito estará despido. Dito isso, não há erotismo nestas criações, havendo uma procura pelo grotesco sem que preocupações com sensualidade interfiram. Tecidos pesados contrariam a sedução, insinuando o arranhar de lã na pele macia, o desconforto de têxteis para mobiliário virados para a criação de moda. As meias são de latex, em tons de pele, dando a impressão de uma segunda derme ou quiçá a textura de uma boneca insuflável para sexo.

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Estamos muito distantes da realidade histórica nestes contextos. Dito isso, há que entender que, não obstante o devaneio dos desenhos, a pesquisa histórica que Waddington fez deixou marca na obra final. Há muito detalhe derivado da especificidade Vitoriana. Note-se, por exemplo, como Madame Swinney tem mãos esculpidas no seu cinto, uma tendência oitocentista que a figurinista achou brilhante para essa mulher proxeneta, sempre aconchegada por mãos masculinas. Em combinação com esses trejeitos, a mesma personagem usa algo tão moderno como uma seda supermoderna, tecida para parecer varizes.

Ainda em França, vislumbramos mais uma evolução estilística de Bella Baxter. Para se infiltrar na Faculdade de Medicina, ela escolhe um fato parecido com as modas masculinas do restante corpo estudantil. Abandonadas as cores da infância e suas formas estrambólicas, ela agora veste preto e boa alfaiataria. Emma Stone teve a ideia só vestir o casaco do fato em Paris. Apesar das ruas estarem cobertas de neve, ela passeia com as pernas à mostra. Curiosamente, em Londres, já a saia marca presença. A dinâmica destabiliza o espetador e faz com que a protagonista se destaque dos restantes atores. Mantém-se algo alienígena na irracionalidade com que ela se veste.


Depois do regresso a Inglaterra, afigura-se o matrimónio e Bella veste o figurino que Stone mais amou em todo o filme. Entenda-se que vestido de noiva é uma contradição e uma brincadeira. Waddington queria dar a impressão de uma jaula, com tubos de seda a desenhar uma gaiola sobre o corpo da atriz. Dito isso, o tecido também é transparente o suficiente para denunciar a nudez por baixo. Há a armadilha e a liberação numa só peça. Para completar tudo, está uma faixa de renda em desenho geométrico que Emma Stone decidiu atar à volta da cabeça, a paródia de um véu tradicional. Mas a cerimónia é interrompida pelo General Blessington.

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O pai/marido de Bella faz-nos repensar a origem da personagem, dando novo contexto à sua génese. Victoria Blessington – o corpo e mãe de Bella – foi vislumbrada no início da fita em azul profundo no momento do suicídio. O tom que Waddington adora remete para uma melancolia de espírito e quase rima com o céu tempestuoso. As mangas do vestido também nos contam a sua história ao sugerirem armadura. A influência bélica do marido atormenta Victoria e manifesta-se como uma prisão no figurino que Bella enverga quando se vê encarcerada na mansão Blessington. Tal como a camisola da sua última cena, também essa peça foi reproduzida com base no arquivo do museu MET.

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Muito falámos dos figurinos femininos em “Pobres Criaturas,” mas os homens estão tão bem vestidos como as suas parceiras de cena. Como Godwin, Willem Dafoe enverga fatos simples, quase utilitários e em reflexo de uma mente científica. O Duncan de Mark Ruffalo é um dandy desenhado segundo caricaturas oitocentistas. Em jeito radical, a figurinista espartilhou Mark Ruffalo e usou técnicas de acolchoamento para lhe aumentar o peito e o rabo, alterando-lhe a postura na procura de uma silhueta exagerada. Afinal, a comédia também se faz com moda. E há ainda o cínico a quem Jerrod Carmichael dá vida, parecendo saído diretamente dos anos 20 e 30. Como Bella, ele é uma figura de outro tempo, existindo em jeito disfuncional no cenário pseudo Vitoriano.

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Todos estes detalhes contribuem para um guarda-roupa extraordinário, na vertigem do caos e da discórdia. Talvez votássemos em “Barbie” se nos dessem lugar na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, mas isso não invalida a vitória de Holly Waddington. Ela merece este Óscar!

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