What Really Happen to Baby Jane |©American Genre Film Archive/ Queer Lisboa

Queer Lisboa ’22 | What Really Happened to Baby Jane e outras curtas

No âmbito da habitual parceria entre o Queer Lisboa e a Cinemateca Portuguesa, a 26ª edição do Festival viu-se marcada pela exibição da retrospetiva “Notes on Camp: O Delírio Drag do Gay Girl Riding Club”, a qual se dedicou ao conjunto de filmes amadores criados por este coletivo e que, em setembro de 2022, passou também pela exibição das obras que inspiraram as paródias do G.G.R.C. 

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O G.G.R.C foi formado no final dos anos 50 e, entre a década de 60 e a década de 70 do século XX, produziu um total de sete filmes. Entre estes, cinco chegaram até aos dias de hoje e dois perderam-se. Inicialmente, o Gay Girls Riding Club, como o nome bem indica, era um grupo de homens gays que se reuniam, ao final de semana, para andar a cavalo no muito emblemático Griffith Park.

Além disso, o G.G.R.C era importantíssimo na cena drag local de Los Angeles, ainda bastante de nicho e (forçosamente) underground nos anos que antecederam Stonewall. Ano após ano, este inventivo grupo organizada festas drag, as Annual Halloween Balls, que viriam a continuar até aos finais da década de 1980, antes do grupo e da comunidade ser abalada pela epidemia de Sida.

Na década de 1960, este grupo, maioritariamente composto por homens de posses e trabalhadores da indústria mainstream de Hollywood, que a conheciam a si e aos seus bastidores, começaram a criar paródias dos filmes que viriam mais tarde a ser considerados clássicos. Nesta altura, não eram senão seus contemporâneos. Quanto aos atores, eram também as mesmas pessoas que participavam nas festas organizadas por este importante coletivo que, durante muito tempo, viu o seu trabalho remetido para a obscuridade mas que agora é alvo de um forte trabalho de restauro.

Todos estes filmes foram assinados por Ray Harrison, que inicialmente dava pelo pseudónimo de Connie B. de Mille. Quanto aos restauros, são agora distribuídos pelo American Genre Film Archive e foram exibidos, por ocasião do Queer Lisboa ’22, pela primeira vez na Cinemateca.

Depois de termos assistido às paródias “All About Alice” (inspirada em “All About Eve”) e “Always on Sunday” (que bebe da narrativa de “Never on Sunday”), esta sessão tripla, a qual podemos ver a 20 de setembro, apresentou “The Roman Springs on Mrs. Stone”, “The Spy on the Fly” e “What Really Happened to Baby Jane?”.

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Começando por “The Roman Springs on Mrs. Stone” (19′), esta tresloucada narrativa assinada por Connie B. de Mille trata-se de uma interpretação drag do filme “The Roman Spring of Mrs. Stone”, de José Quintero, obra baseada no romance do mesmo nome assinado por Tennessee Williams. Esta é a história clássica (salvo seja) de uma atriz que se encontra numa fase de decadência da sua carreira e que, com vontade de provocar inveja junto das suas amigas, recorre aos serviços de um acompanhamento profissional para mostrar que ainda é capaz de encontrar um par.

The Roman Springs on Mr. Stone
The Roman Springs on Mr. Stone| ©American Genre Film Archive/ Queer Lisboa

O ligeiro trocadilho linguístico “on Mrs. Stone”, deixa desde logo bem clara a natureza mais “apimentada” desta versão do G.G.R.C. Em suma, as velhas drags acabam por rapidamente ser ultrapassadas pelos jovens acompanhantes, mais interessados em interagir entre si. Com algumas reviravoltas curiosas, “The Roman Springs on Mrs. Stone” é mais um esforço divertido das Gay Girls Riding Club mas, afastando-se bastante do enredo do próprio filme que está a parodiar e não desenvolvendo muito a ideia central, não é de longe a mais divertida das paródias do grupo.

“The Spy on the Fly”, a segunda curta-metragem, desta vez com uma duração “simpática” de 43 minutos, uma das mais longas alguma vez produzidas pelo coletivo, é também uma das produções que maior quantidade de risos será capaz de provocar. Aqui, é importantíssimo dizer que “The Spy on the Fly ” é a única criação G.G.R.C que não parodia um filme específico de Hollywood ou da cena europeia, mas sim vários.

Ao invés de se basear em torno das linhas narrativas de uma história pré-existente, esta curta tem um argumento próprio muito simples mas muito delicioso. Com uma música swing contagiosa de início ao fim, que nos impele a dançar energicamente nas cadeiras da Cinemateca, “The Spy on the Fly” é uma brincadeira com os filmes de James Bond que se tornavam tão populares na altura. Na realidade, a sua natureza jovial e apatetada camufla um conceito incrivelmente provocador – o de que a mesma pessoa poderia ser o Agente Secreto e a “Bond Girl”.

Aqui, o Agente 0069 (claro, como não podia deixar de ser) é interpretado em drag e fora de drag por Warren Fremming, o mesmo que deu vida a Mona Manning, com todos os seus deliciosos trejeitos exagerados em “All About Alice”. “The Spy on the Fly” tem mudanças de guarda-roupa, pirotecnia primitiva, montagens, cenas de luta e perseguição, vários cenários e inúmeras reviravoltas.

Para o universo de um grupo underground e praticamente amador, a verdade é que a execução desta curta impressiona tendo em conta o carácter apenas semi-profissional dos esforços. Além disso, “The Spy on the Fly” problematiza questões de género e é mais divertido do que algum filme da saga Bond alguma vez conseguiu (ou provavelmente conseguirá) ser!

Ainda a assinar como Connie B. de Mille, Ray Harrison lançou, com este coletivo, a curta “What Really Happened to Baby Jane” (31′) em 1963. Entre as várias obras mais ou menos obscuras produzidas por este grupo, é bem possível que esta paródia de “What Ever Happened to Baby Jane? ” (1962) seja o esforço mais memorável do coletivo. O Gay Girls Riding Club já procurava extrair, nas suas paródias, a maior queerness que conseguia encontrar no cinema mainstream de Hollywood. Ora, o clássico de terror de Robert Aldrich, “What Ever Happened to Baby Jane?” , protagonizado por Bette Davis e Joan Crawford, já é de si um ícones mais queer e camp dentro da cultura do mainstream.

A própria curta de Ray Harrison vai utilizar muitos adereços do filme original e lança a sua paródia apenas um ano depois do surgimento do mítico filme. O camp – o exagero, a teatralidade, o melodrama torna-se ainda mais exacerbado (elevado ao quadrado ou ao cubo, para deleite de quem vê). “What Really Happened to Baby Jane” é absolutamente bizarro da melhor forma possível, genuinamente hilariante, atípico em todas as frentes e impossível de provocar nada senão reações fortes.

TRAILER | WHAT REALLY HAPPENED TO BABY JANE E OS FILMES DO G.G.R.C

Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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