©José Vieira Mendes/70SSIFF

70º Festival de San Sebastián | A Concha de Ouro para ‘Los Reys del Mundo’

‘Los reyes del mundo’, da colombiana Laura Mora, um dos filmes que mais tinha impressionado espectadores e profissionais, foi o vencedor da Concha de Ouro, da edição 70 do Festival de San Sebastián. ‘Great Yarmouth – Provisional Figures’, de Marco Martins estava na Secção Oficial  é um grande filme, mas não ganhou nenhum prémio. Mas houve outros tantos filmes muito bons, que não ganharam nada…no palmarés oficial.

O filme colombiano Los reyes del mundo, dirigido por Laura Mora Ortega, foi o vencedor da Concha de Ouro, desta redonda edição 70, do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, talvez o mais cool dos certames cinematográficos europeus. Pela primeira vez na história do festival ‘donostiarra’ — em basco — um filme da Colômbia ganhou o prémio máximo do palmarés oficial, aliás este ano muito diversificado, predominantemente feminino e juvenil e mesmo, um tanto injusto, a começar por duas fortes candidatas: a britânica Florence Pugh em ‘The Wonder’, do chileno Sebastián Lelio e a portuguesa Beatriz Batarda em ‘Great Yarmouth – Provisional Figures’, de Marco Martins. Os prémios de interpretação aliás recaíram em actores muito jovens e sem grande carreira no cinema, mas já lá vamos.

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Quanto a ‘Los reyes del mundo’, de Laura Mora, tornou-se de imediato um dos filmes favoritos da crítica, logo após as sua projecções de imprensa e oficial, a meio da semana do festival. Filmado com uma rara sensibilidade, na extraordinária beleza da selva colombiana, protagonizado por actores não-profissionais saídos da rua, ‘Los reyes del mundo’ conta-nos uma perigosa viagem, entre Medellín e Nechí (Antioquia), de cinco amigos adolescentes de rua, que sozinhos no mundo mais não fazem do que procurar chegar à ‘terra prometida’. No seu périplo, Rá, Culebro, Sere, Winny e Nano vão cruzar-se com o melhor e pior da natureza humana, como reflecte uma terna cena em que são abraçados pelas velhas prostitutas. Os rapazes, sonham levar uma nova vida nas terras que Rá herdou da sua avó e que lhe foi restituída pelo Governo. Porém até lá só recebem desprezo e humilhação. Entre o realismo e a fábula social, a realizadora Laura Mora, compõe uma comovedora história carregada de violência, ternura e poesia, que ao mesmo tempo é uma crítica ao cenário político e social colombiano, extensível à maioria dos países da America Latina. Por sua vez, a Concha de Prata para Melhor Realização foi para o cineasta japonês Genki Kawamura, por a ‘A hundred flowers’, um retrato poético sobre a doença de alzhéimer, baseado na história da sua propria avó e protagonizado pela veterana Mieko Harada. Surpreendentemente a norte-americana Marian Mathias, recebeu das mãos da escritora Rosa Montero — talvez a mais destacada personalidade entre os jurados — o Prémio Especial do Júri, pela seu primeiro filme intitulado ‘Runner’, um drama marcado pela melancolia e que se apoia na beleza de uns planos pictóricos para explicar a saudade de uns personagens perdidos na América profunda.

70º Festival de San Sebastián
No final da cerimónia de entrega dos prémios do 70SSIFF/©José Vieira Mendes

Dos quatro filmes espanhóis em competição, aliás todas excelentes, — por exemplo, não se percebe porque ‘Suro’, do estreante Mikel Gurrea, só saiu com os prémios Fipresci e Melhor Filme Basco, ambos fora do Palmarés Oficial — só ‘La maternal’, de Pilar Palomero (a realizadora do extraordinário ‘As Raparigas’), um filme espantoso, que explora a maternidade na adolescência, que ganhou a Concha de Prata para Melhor Interpretação, da sua protagonista: a novíssima actriz Carla Quílez, uma jovem estudante barcelonesa do terceiro ano do Ensino Secundário; esta partilhou o reconhecimento exaequo com o jovem francês Paul Kircher, filho na vida real da actriz Irène Jacob e que é uma espécie de alter ego do realizador Christophe Honoré em ‘Le lycéen’: um drama sobre a perda, que remete para a época em que o próprio cineasta ainda adolescente, perdeu o seu pai.

70º Festival de San Sebastián
Renata Lerman, uma das jovens actrizes premiadas. ©José Vieira Mendes

O Prémio de Melhor Actriz/or Secundário foi para outra novíssima intérprete: Renata Lerman, que ganhou surpreendentemente (e discutivelmente) este prémio por um pequeno e pouco influente papel de uma adolescente rebelde em ‘El suplente’, um filme dirigido pelo seu pai o realizador argentino Diego Lerman. O filme também um dos mais apreciados da competição é uma história que gira à volta de um professor de literatura de uma escola dos subúrbios de Buenos Aires que tenta ajudar um dos seus estudantes, que é perseguido por um grupo de narcotraficantes. Por outro lado, o Prémio de Melhor Argumento foi parar ao realizador, argumentista e produtor chinês Wang Chao pela sua história de uma superação ambientada na Revolução Cultural Chinesa, que narrada em ‘A woman’, na verdade um filme bastante convencional e baseado em ‘Dream’, um romance autobiográfico, da escritora Zhang Xiu Zhen.

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Los reyes del mundo
No final o vencedor da Concha de Ouro 2022 foi ‘Los reyes del mundo’. ©José Vieira Mendes

O prémio de Melhor Fotografia, foi para ‘Pornomelancolía’, do argentino Manuel Abramovich, em mais uma decisão que foi de certo modo polémica — dir-se-ia mesmo incompreensível face por exemplo à fotografia de Ari Wegner — que também filmou ‘O Poder do Cão’ — em ‘The Wonder’, do chileno Sebastían Lelio, com Florence Pugh — por parte do júri presidido — na ausência forçada da grande Glenn Close— pelo produtor argentino Matías Mosteirín. 

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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