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75º Festival de Cannes | ‘Coupez!’: Uma Homenagem ao Cinema!

‘Coupez!’, uma ‘comédia horripilante’ do francês Michel Hazanavicius teve a honra de ser o primeiro filme, exibido fora da competição oficial, da cerimónia de abertura do Festival de Cannes 2022,  no pós-Covid. É absolutamente hilariante!

Michel Hazanavicius, o realizador dos dois primeiros episódios da famosa saga de espionagem francesa OSS 117 e agora de Coupez!, foi por uma questão de protocolo, uma das últimas ‘estrelas’ a percorrer a passadeira vermelha ontem à noite, ao lado de Bérénice Bejo (a sua companheira e mãe dos seus filhos, Lucien e Gloria, mãe e filha são actrizes neste seu novo opúsculo), Romain Duris, Grégory Gadebois, Finnegan Oldfield, Jean-Pascal Zadi, e a atriz japonesa Yoshiko Takehara, ou seja com todo o elenco do filme de abertura de Cannes 75. Além da forte presença da apresentadora, de um discurso institucional de amor ao cinema de Vincent Lindon, o presidente do júri de Cannes 75, ainda houve tempo para mais uma acção via video — na sessão de imprensa os foram aliás aplausos foram bastante contidos — do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, que está literalmente em ‘todas’. Porém no que diz respeito ao cinema, sessão de abertura de Cannes 75 foi absolutamente genial e inesperada graças a Coupez!. Trata-se de uma comédia de terror, que não é propriamente de terror, mas antes uma grande homenagem ao cinema ou ao filmes maus que se tornam culto, feita com um enorme sentido de oportunidade, quando vivemos a pós pandemia e uma crise de espectadores nas salas. Espero que Coupez!, chegue rapidamente aos cinemas portugueses, para ir o ir ver outra vez! Atenção amigos do Motel X, têm em Coupez!’, também uma abertura grandiosa e um presente para o vosso público e para os cinéfilos portugueses.

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VÊ TRAILER DE ‘COUPEZ!’

Michel Hazanavicius, é o realizador de O Artista, que surpreendentemente, ganhou um Óscar de Melhor Realizador em 2012, enquanto Jean Dujardin trouxe para França o de Melhor Actor. Porém, não tem tido tanta sorte nos seus últimos anos da sua carreira. Saiu de mãos vazias da sua última passagem pela Croisette em 2017 com Le Redoutable’: a apaixonante história de amor entre Jean-Luc Godard e Anne Wiazemsky, que apesar das figuras que representava, não foi um filme unânime entre a crítica da época. Aliás como The Search, em 2014, um filme que tinha como cenário a guerra na Chechênia e que acabou por se tornar um fracasso de bilheteria.

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Porém, o realizador, regressou cinco anos depois ao Festival de Cannes 2022 com esta longa-metragem ‘Coupez!’ que se passa no mundo do cinema. Escreveu o argumento durante o confinamento e na verdade é um remake bastante livre — ou melhor uma espécie de alucinada reconstrução da rodagem — do filme japonês ‘One Cut of The Dead’(2017), de Shin’ichirô Ueda — sinceramente, não sei onde é possível recuperá-lo — um filme ‘muita mau’, que se tornou um objecto de culto, feito praticamente apenas com dois planos-sequências, de mais de 30 minutos e câmara à mão.

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Originalmente intitulado Z (como os filmes de série Z), Hazanavicius teve à ultima da hora, que mudar-lhe o título por causa do risco de confusão com a letra, que aparece nos veículos blindados russos na guerra da Ucrânia. ‘Coupez!’ imerge assim das filmagens de um filme de zombies, em algum lugar, num improvável edifício em desuso, que imaginamos localizado nos arredores de Paris. A atmosfera é catastrófica no set e a palavra de ordem é: NÃO CORTAR! e sobretudo para os espectadores é outra a de NÃO SAIR! da sala nos primeiro 20 minutos, porque o que estamos a ver é mesmo muito mau. Mas não sabem o que vos espera? Esse é o grande segredo do filme: técnicos em pânico, atores sobrecarregados pelos acontecimentos em catadupa, principalmente quando a história repercute com a irrupção no set de uma série de mortos-vivos reais e inesperados e um filme que acaba derrapando seriamente, em algo muito, mas ‘muita mau’, de nos questionar-mos, ‘o que estamos a fazer aqui?’. Só que o espectador não faz a mínima ideia das hilariantes surpresas que ‘Coupez!’ lhe vai proporciona a seguir nos momentos seguintes, num filme incrível que funciona como uma espécie de gaveta com fundo duplo e com muitas e inesperadas caixinhas de surpresas.

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A imaginação e originalidade do argumento que enlouquece em todas as direções, acaba por nos surpreender e nos fazer rir tanto, tanto, ao ponto de nos virem as lágrimas aos olhos. E isso, apesar dos litros de hemoglobina vermelha, que vão saltando no ecrã, para cima dos actores. Os actores a começar por um excepcional Romain Duris, o suposto realizador, estão todos brilhantes e em sintonia perfeita com um género que Hazanavicius, homenageia com ternura e génio: os filmes de zombies, muitas vezes ridicularizados pela crítica de cinema, mas que atraem bastante o público (…e grandes cineastas com George A. Romero ou mesmo John Carpenter), sobretudo os mais jovens, que andam tão afastados das salas de cinema.

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Michel Hazanavicius em ‘Coupez’, proporciona-nos assim uma comédia bastante sofisticada, graças a situações improváveis ​​e diálogos que acertam em cheio nas nossa memórias cinéfilas dos filmes do género Z (zombies). Além disso, é efectivamente uma bela declaração de amor ao cinema e aos seus profissionais e raros momentos de diversão inteligente para os espectadores, num momento difícil para a história dos filmes e da humanidade. Por favor não saiam logo da sala de cinema!

JVM em Cannes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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