Rami Malek, convém dizê-lo sem rodeios faz uma interpretação fabulosa. ©Big Creek

O norte-americano Ira Sachs regressou à Competição com “The Man I Love”, um melodrama queer passado na Nova Iorque da SIDA, entre o fantasma de “Filadélfia”, a dor teatral de “Anjos na América” e uma fabulosa interpretação de Rami Malek

“The Man I Love”, de Ira Sachs, visto ontem numa das sessões imprensa mais tardias às 22h30, cansados, parece que se encostou devagar ao nosso ouvido, para nos dizer logo de início que alguém vai morrer. Não transforma a doença num sermão, nem a SIDA numa legenda luminosa a piscar por cima das personagens. Mas prefere outra coisa, mais subtil e talvez mais dura e cruel, para se ver numa jornada de filmes que até tinha sido bastante luminosa: filmar um corpo ainda cheio de desejo, graça, vaidade, capricho, música, sexo, medo e teatro, sabendo que a morte já comprou bilhete para a primeira fila.

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Rami malek
Malek volta a aproximar-se da música, mas aqui sem a máquina oleada do biopic. ©Big Creek

Quando o amor já sabe que vai perder

Ira Sachs, um dos dois norte-americanos da Competição deste ano — o outro é James Gray, com “Paper Tiger” — regressa a Cannes depois de “Frankie”, esse filme inteiramente rodado em Portugal, com Isabelle Huppert, Marisa Tomei e Brendan Gleeson, filmado em Sintra e co-produzido por O Som e a Fúria, que passou pela Competição em 2019. Nessa altura, Sachs parecia fascinado por paisagens, despedidas, famílias em suspensão e esse luxo muito europeu de sofrer com vista para o Atlântico. Agora volta a casa, ou pelo menos à sua mitologia mais funda: Nova Iorque, final dos anos 80, comunidade artística, quartos partilhados, bares, palcos pequenos, apartamentos onde se ama muito, se discute mal e se morre cedo demais.

A Nova Iorque onde a festa já cheira a luto

“The Man I Love” acompanha Jimmy George, (Rami Malek), um talentoso actor, performer, cantor, criatura de palco e de excessos, um desses seres que parecem feitos para transformar cada entrada numa aparição e cada silêncio numa pose. Jimmy está doente. Sabemos isso desde cedo, mesmo quando o filme não o sublinha. Vive com Dennis (Tom Sturridge), o companheiro que o ama, segura e cuida, até que vê chegar Vincent, o jovem vizinho inglês, (Luther Ford), que entra naquele mundo como quem abre uma porta sem perceber que do outro lado há uma epidemia, uma paixão e um cemitério inteiro à espera. À volta dele gravitam ainda a irmã Brenda (Rebecca Hall), magnífica nessa preocupação contida de quem sabe que já não há muito a fazer; e uma comunidade artística que tenta continuar a ensaiar, cantar, beber, desejar, representar e viver, como se a vida pudesse ser prolongada por mais uma cena, mais uma música, mais uma festa.

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VÊ TRAILER DE “THE MAN I LOVE”

É aqui que Sachs encontra o seu território mais forte: os pequenos deslocamentos emocionais, os abismos quase invisíveis entre duas pessoas que ainda se tocam, mas já não estão exactamente no mesmo lugar. Não estamos longe de “Filadélfia”, claro, pela ferida histórica, pela memória de uma América que demorou demasiado tempo a olhar a SIDA de frente, e também não estamos longe de “Anjos na América”, pela dimensão teatral, política, fantasmática, quase litúrgica de uma geração marcada pela doença. Mas Ira Sachs é menos advogado de tribunal do que cineasta de quarto, menos profeta do que observador de respirações. O seu filme não quer vencer uma causa; quer reter um corpo antes que desapareça.

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Rami Malek, finalmente no lugar certo

Rami Malek, convém dizê-lo sem rodeios faz uma interpretação fabulosa. Talvez porque Sachs percebeu aquilo que muitos filmes anteriores nem sempre souberam fazer com ele. Malek tem um rosto difícil, uma presença estranha, uma expressividade que pode parecer calculada, quase artificial, como se estivesse sempre a representar dentro da representação. Aqui, essa qualidade deixa de ser defeito e passa a ser matéria dramática. Jimmy é precisamente isso: um homem que se inventa a cada gesto, que teatraliza a dor porque talvez a dor crua seja insuportável, que canta para não se ouvir morrer.
Depois de Freddie Mercury em “Bohemian Rhapsody”, Malek volta a aproximar-se da música, mas aqui sem a máquina oleada do biopic, sem a obrigação de imitar um ícone com bigode e estádios cheios. Em “The Man I Love”, a música é mais frágil, mais íntima, menos triunfo e mais despedida. Quando Jimmy canta, não estamos perante o grande número destinado ao aplauso fácil, mas diante de alguém que tenta negociar mais uns minutos com a morte. E, isso é muito mais difícil do que fazer pose de estrela rock diante de uma multidão digitalmente obediente. O corpo de Malek é felino, nervoso, por vezes irritante, por vezes irresistível. Há qualquer coisa de cabotino nele, mas Jimmy também é cabotino. É performer, é drag queen, é amante impossível, é doente que recusa ser reduzido à doença. O filme entende que certas pessoas não morrem em silêncio: morrem a encenar, a seduzir, a provocar, a cantar, a exagerar. E talvez tenham todo o direito a isso.

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O melodrama como último luxo

A mise-en-scène de Ira Sachs é uma das grandes forças do filme. Nada ali parece querer fechar-se numa narrativa demasiado arrumada. “The Man I Love” avança por fragmentos, momentos, pedaços de vida, cenas que parecem começar já a meio e terminar antes de nos darem o conforto da conclusão. Há ensaios de teatro, festas domésticas, quartos, corredores, bares, hospitais, canções que entram como feridas abertas. Sachs não filma a SIDA como uma catástrofe abstracta, mas como uma alteração da temperatura emocional: as pessoas falam de outra maneira, tocam-se de outra maneira, riem-se com uma urgência quase obscena.

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The Man I Love
“The Man I Love” avança por fragmentos, momentos, pedaços de vida.©Big Creek

O filme tem momentos musicais belíssimos, não no sentido clássico do musical que suspende a realidade para a transformar em fantasia, mas como se a música fosse o último idioma disponível quando a conversa já não chega. O standard que dá título ao filme, “The Man I Love”, funciona como promessa e ironia: o homem que se ama pode estar ali, pode estar a fugir, pode já estar condenado, pode ser apenas uma memória futura. Há ainda canções que atravessam o filme como pequenas cápsulas de tempo, misturadas com a sensualidade nocturna dos clubes, a tristeza dos quartos e a violência íntima de saber que há uma geração inteira a desaparecer antes de envelhecer.Neste ponto, Ira Sachs aproxima-se da tradição melodramática sem se envergonhar dela. O cinema contemporâneo, tantas vezes, tem medo de sentir. Prefere a secura, a distância, o comentário inteligente, o plano que hesita em emocionar-se. Sachs deixa o melodrama entrar, sentar-se à mesa, beber qualquer coisa e fazer estragos. Mas é um melodrama com pudor, com cortes secos, com elipses, com a inteligência de quem sabe que a lágrima só vale alguma coisa quando não é extorquida.

Ira Sachs e a arte de filmar o que se desfaz

Há muito que Ira Sachs filma relações em estado de deslocação. Em “O Amor é Um Coisa Estranha”, acompanhava um casal obrigado a separar-se depois de décadas de vida comum. Em “Passagens”, filmava o desejo como uma força simultaneamente libertadora e devastadora. Em “Frankie”, em Portugal, olhava para uma família reunida sob a sombra discreta da morte. Agora, em “The Man I Love”, junta tudo: amor, corpo, doença, intimidade, sexualidade, despedida, teatro, música e comunidade.

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The Man I Love
“The Man I Love”, funciona como promessa e ironia. ©Big Creek

É talvez o seu filme mais ambicioso e, ao mesmo tempo, um dos mais fiéis à sua identidade. Sachs continua a ser um cineasta independente no melhor sentido da palavra: não porque filma com ar pobre ou contra Hollywood por princípio, mas porque se interessa por aquilo que o grande cinema americano tantas vezes simplifica. Gente que ama mal. Gente que deseja fora de horas. Gente que se magoa sem querer e que não cabe em narrativas higienizadas sobre coragem e superação.
“The Man I Love” não transforma Jimmy numa boa pessoa. Jimmy pode ser fascinante, insuportável, generoso, vaidoso, frágil, cruel, sedutor, perdido. Ou seja, está vivo. E é precisamente por isso que a sua condenação dói. Porque o filme não nos pede que choremos por uma vítima exemplar. Pede-nos que olhemos para uma pessoa inteira, com todas as suas contradições, antes que a doença a reduza a diagnóstico.

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Um adeus sempre cantado

No fim, “The Man I Love” é menos um filme sobre a morte do que sobre a recusa de sair de cena discretamente. Jimmy sabe que o corpo o trai, que a memória falha, que a juventude se foi, que o amor não salva tudo, que a arte não cura nada, pelo menos no sentido médico da palavra. Mas também sabe que cantar ainda é uma forma de ocupar espaço. Que desejar ainda é uma forma de continuar. Que representar ainda é uma maneira de dizer: estou aqui, mesmo que por pouco tempo.
Ira Sachs filma essa permanência como quem acende uma luz num quarto onde todos sabem que a electricidade vai abaixo. E Rami Malek, no centro, oferece uma interpretação de uma entrega rara, feita de afectação, fragilidade, arrogância e medo. Pode não ser um filme perfeito — às vezes o seu gosto pelo fragmento ameaça dispersar-se, às vezes o drama roça a pose —, mas é um filme que sabe exactamente onde dói. O corpo, o amor, a juventude, a noite, a festa. Ficam algumas canções. Ficam alguns rostos. Fica, se tivermos sorte, um filme a dizer-nos que houve ali alguém que amou, dançou e ardeu antes de desaparecer.

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