O realizador romeno Cristian Mungiu Ganhou a Palma de Ouro 2026 e voltou ao topo de Cannes com “Fjord” um filme tenso, moralmente incómodo e politicamente afiado. O júri de Park Chan-wook preferiu o desconforto ao brilho fácil e entregou um palmarés sério, sombrio e cheio de ex aequo.
A 79.ª edição do Festival de Cannes terminou como Cannes gosta de terminar: com aplausos, vestidos a brilhar, egos a disfarçar feridas, críticos a fazer contas de cabeça e produtores a fingirem que sabiam tudo desde o princípio. Mas, este ano, talvez houvesse menos suspense do que o habitual. Quando “Fjord”, de Cristian Mungiu, recebeu durante a tarde o Prémio FIPRESCI da crítica internacional, a Palma de Ouro começou logo a sair do nevoeiro norueguês e a aproximar-se perigosamente da Croisette.
Antes da cerimónia, Sebastian Stan cerrava os punhos na passadeira vermelha, Renate Reinsve fazia o V da vitória para os fotógrafos, e Cannes, que adora surpresas mas também gosta muito de fingir que elas acontecem, preparava-se para coroar aquilo que já cheirava a consagração. Quando o nome de Mungiu foi anunciado, ninguém caiu da cadeira. No máximo, alguns ajustaram o smoking, outros engoliram em seco, e os restantes começaram imediatamente a explicar que, claro, sempre tinham percebido que era este o filme.
A Palma que não quis agradar
“Fjord” é uma Palma de Ouro 2026 muito Cannes: séria, seca, moralmente desconfortável e com aquela capacidade rara de transformar uma sala de cinema num tribunal sem juiz. Mungiu, que já tinha vencido a Palma em 2007 com “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, regressa agora ao topo com um drama rodado na Noruega sobre uma família aparentemente irrepreensível, formada por um pai romeno e uma mãe norueguesa, evangélica, apanhada numa investigação social que expõe o choque entre tradição, religião, Estado-providência, integração cultural e um certo progressismo com vocação de esquadra.

Como sempre no cinema de Mungiu, ninguém é totalmente inocente e ninguém é totalmente culpado. A Noruega não é apenas paisagem bonita para postal escandinavo; é laboratório moral. A família não é apenas vítima; é também problema. O sistema não é apenas protector; pode tornar-se trituradora. E o espectador, essa pobre criatura que entrou a pensar que ia ver “um drama social”, sai de lá promovido a juiz de instrução.
A Palma foi, portanto, para o desconforto. Não para o filme mais sedutor, mais glamoroso ou mais consensual, mas para aquele que deixa marcas. Cannes, quando ainda se lembra de ser Cannes, gosta disso: de filmes que fazem fricção. Porque sem fricção não há cinema. Há apenas conteúdos com boa fotografia — e essa palavra, “conteúdos”, devia ser proibida por decreto cultural.
Rússia, Espanha, Alemanha: o palmarés das feridas abertas
O Grande Prémio foi para “Minotaure”, de Andreï Zviaguintsev, um falso remake de “A Mulher Infiel”, de Claude Chabrol, transportado para a Rússia de Putin e para o pântano moral da guerra na Ucrânia. Zviaguintsev continua a filmar o seu país como uma casa assombrada por dentro. Tudo nele parece tribunal, confissão, castigo. Há realizadores que contam histórias; ele lavra sentenças. E Cannes reconheceu, mais uma vez, esse cinema glacial, formalmente irrepreensível e politicamente impiedoso.
O Prémio da Realização foi dividido entre dois filmes quase opostos: “La Bola Negra”, dos espanhóis Javier Calvo e Javier Ambrossi, e “Fatherland”, de Pawel Pawlikowski. De um lado, Los Javis, filhos espirituais de Almodóvar, da televisão, do melodrama, da cultura queer e de uma Espanha que já não tem medo de ser barroca. “La Bola Negra” cruza guerra civil, desejo, Lorca, identidade homossexual, música, teatro e excesso, como se quisesse enfiar a História inteira dentro de uma mala cheia de lantejoulas, sangue e lágrimas.

Do outro lado, Pawlikowski faz o contrário: depura, corta, esfria. “Fatherland” leva-nos à Alemanha em ruínas, a Thomas Mann, à filha Erika — com Sandra Hüller, mais uma vez, em grande —, à culpa, ao exílio e à pátria transformada em fantasma. Se “La Bola Negra” dança com a História, “Fatherland” olha-a fixamente, em preto e branco, até ela desviar os olhos. O prémio duplo acaba por fazer sentido: Cannes distinguiu duas formas muito diferentes de filmar o passado sem o transformar em museu.
O Prémio do Júri foi para “The Dreamed Adventure”, de Valeska Grisebach, filme árido, fronteiriço, situado entre a Bulgária e a Turquia, atravessado por tráficos, masculinidades predatórias e uma arqueóloga, interpretada por Yana Radeva, que regressa à sua terra natal para enfrentar homens, mafiosos e, aparentemente, a resistência física de parte da crítica internacional. Tem cerca de 2h40, o que em Cannes tanto pode ser defeito como certificado de seriedade. Mas é também um olhar duro sobre essa Europa das margens onde a violência chega sempre antes da civilização.
Quando Cannes decide premiar a dois
Este foi também o ano dos prémios aos pares, como se o júri tivesse decidido que uma só interpretação já não chegava para tanta dor acumulada. O Prémio de Interpretação Feminina foi para Virginie Efira e Tao Okamoto, por “Soudain”, de Ryusuke Hamaguchi. Uma escolha bonita e justa. O filme fala de cuidado, doença, cansaço, amizade, teatro e fim de vida com aquela delicadeza japonesa que nunca precisa de se pôr em bicos de pés. Efira, cada vez mais uma das grandes actrizes do cinema europeu, e Okamoto foram premiadas não apenas por aquilo que fazem isoladamente, mas pelo modo como respiram juntas. Cannes lembrou-se, por momentos, de que o cinema também acontece entre dois rostos.

O Prémio de Interpretação Masculina foi igualmente dividido, desta vez entre Emmanuel Macchia e Valentin Campagne, os jovens actores de “Coward”, de Lukas Dhont. Aqui, a I Guerra Mundial deixa de ser apenas lama, trincheira e massacre para se tornar também lugar impossível de desejo. Dhont continua fascinado pela fragilidade dos corpos jovens, pela beleza ferida, pela inocência sacrificada antes do tempo. Pode haver excesso de beleza? Pode. Pode haver fascínio a mais pelo corpo masculino em sofrimento? Pode. Mas em Cannes isso raramente foi problema. Às vezes até ajuda a subir ao palco.
O Prémio do Argumento foi para “Notre Salut”, de Emmanuel Marre, talvez uma das decisões politicamente mais fortes do palmarés. O filme mergulha na República de Vichy, na colaboração, na burocracia da vergonha e nessa França que continua sem saber muito bem onde guardar os seus fantasmas. Ao premiar este argumento, Cannes reconheceu uma ficção que transforma a memória familiar em matéria explosiva. O cinema como escavação, não para absolver, mas para expor. Ficou de fora a interpretação de Swann Arlaud, e foi pena. Mas os prémios não chegam para todos, mesmo quando são distribuídos a dobrar.
O futuro, as curtas e os mitos de serviço
A Caméra d’Or foi para “Ben’imana”, de Marie-Clémentine Dusabejambo, apresentado na secção Un Certain Regard e apontado como o primeiro filme ruandês seleccionado em Cannes. É um prémio que passa muitas vezes discretamente no meio da grande liturgia da Palma, mas que devia ser olhado com mais atenção. É ali que Cannes se lembra de que o futuro não pertence apenas aos mestres consagrados, aos regressos anunciados e aos nomes que já vêm com dossier de imprensa encadernado. Às vezes, o futuro chega de cinematografias menos visíveis, sem pedir licença à Europa.
A Palma de Ouro da Curta-Metragem foi para “Para Los Contrincantes”, do argentino Federico Luis, deixando pelo caminho a esperança portuguesa depositada em “Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de um Rio”, de Daniel Soares. As curtas continuam a ser tratadas, muitas vezes, como aperitivo antes do banquete dos longos, mas talvez seja nelas que o cinema ainda arrisca com menos cerimónia e menos gravata.

Ao longo da quinzena, Cannes entregou ainda Palmas de Ouro honorárias a Barbra Streisand, Peter Jackson e John Travolta. A diva, o demiurgo e o sobrevivente da pista de dança. Streisand enviou vídeo, Jackson trouxe o império da fantasia, Travolta trouxe aquele brilho pop de quem ainda sabe entrar numa sala antes da própria pessoa. Cannes também é isto: um altar onde cabem autores severos, monstros sagrados, estrelas antigas e novos mártires do tapete vermelho.
No fim, o palmarés de Park Chan-wook não quis ser simpático. Quis ser coerente. Premiou filmes sobre culpa, guerra, família, Estado, identidade, poder, desejo e memória. Não foi buscar a euforia; foi buscar a ferida. Na Croisette, onde tudo parece feito para reluzir, o júri preferiu os filmes que sujam o smoking. E talvez seja essa a melhor notícia desta edição: ainda há cinema capaz de deixar nódoa.
Palmarés 2026
Palma de Ouro — “Fjord”, de Cristian Mungiu
Grande Prémio — “Minotauro”, de Andrei Zvyagintsev
Prémio de Realização — Javier Ambrossi e Javier Calvo, por “La Bola Negra”, e Paweł Pawlikowski, por “Fatherland”
Prémio do Júri — “The Dreamed Adventure”, de Valeska Grisebach
Prémio do Melhor Argumento — Emmanuel Marre, por “Notre Salut”
Prémio de Interpretação Feminina — Virginie Efira e Tao Okamoto, por “Soudain”
Prémio de Interpretação Masculina — Emmanuel Macchia e Valentin Campagne, por “Coward”
JVM

