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Bombshell: O Escândalo, em Análise

“Bombshell: O Escândalo” estreou nas salas de cinema nacionais a 23 de janeiro de 2020. O filme, realizado por Jay Roach (“Um Sogro do Pior”, “Trumbo”), recupera a história verídica do escândalo sexual que abalou as fundações do canal norte-americano FOX News.

Conta com prestações centrais de Charlize Theron (“Monstro”, “Jovem Adulta“), Nicole Kidman (“Moulin Rouge!”, “As Horas“) e Margot Robbie (“Eu, Tonya”, “Era Uma Vez…Em Hollywood“). 

O movimento norte-americano #Metoo, contra  o assédio sexual, começou no final de 2017, a propósito da quantidade avassaladora de denúncias de abuso sexual e de poder por parte do produtor executivo de cinema Harvey Weinstein, agora caído em desgraça. Este movimento espalhou-se de Hollywood para o ativismo social nos Estados Unidos da América. Vítimas de assédio ou abuso sexual começaram a falar sobre a “vergonha” que tinham escondido durante meses, anos, décadas. No seu país de origem, o movimento #Metoo aliou-se ao movimento “Time’s Up”, fundado em 2018 por celebridades. Milhões foram angariados para a defesa legal das vítimas, e esta questão merece, desde então, um maior grau de exposição pública.

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Porque é esta pequena recapitulação tão fundamental para falar sobre “Bombshell: O Escândalo”? A obra, co-produzida pela protagonista Charlize Theron, procura encontrar no escândalo da FOX NEWS uma alavanca pré #Metoo que tenha impulsionado o movimento:

“O mais importante com este filme é voltar à história dessas mulheres que realmente nos catapultaram para um movimento que continua a crescer ”, diz Chalize Theron. “Este foi um dos primeiros processos de assédio no local de trabalho. Passou mais de um ano antes que a história de Harvey Weinstein fosse contada.”

A FOX News, fundada em 1996, para quem não a conheça e à sua controvérsia, é uma instituição e um dos mais populares canais de notícias norte-americanos. Muito conservadora na sua acção e influência política, é inequivocamente associada ao Partido Republicano e é ridicularizada por muitos dos meios de comunicação mais liberais. O canal, fundado por Roger Ailes (“John Lithgow”), o seu CEO até este escândalo surgir, e Rupert Murdoch, um dos homens mais ricos do mundo, apoia abertamente a Administração Trump (e apoiara Nixon) e sempre esteve envolvido em muita discórdia.

Bombshell: O Escândalo
John Lithgow está irreconhecível como Roger Ailes |©Pris

Foi em 2016 que um processo jurídico iniciado pela jornalista Gretchen Carlson (Nicole Kidman), no qual denunciou os avanços sexuais de Roger Ailes, originou uma avalanche de denúncias contra o Presidente da FOX News. Este escândalo levou então a uma demissão forçada.

“Bombshell: O Escândalo” tenta recuperar, pela primeira vez, esta história do ponto de vista das mulheres que a viveram. Como referido, Nicole Kidman dá vida à mulher que impulsionou este escândalo. Gretchen Carlson, formada com louvor por Stanford e Miss América em 1989, representava de certa forma o arquétipo das pivôs da FOX News. Mulheres bonitas e inteligentes, colocadas frente à câmara com o intuito de agradar ao “male gaze” (ao homem).

Nicole Kidman como Gretchen Carlson |©Pris

O filme centra-se acima de tudo em três personagens. Duas delas reais, uma delas uma amálgama de diversos relatos que constituíram os depoimentos jurídicos. Para além de Nicole Kidman, temos  uma convincente Charlize Theron como protagonista. Esta interpreta Megyn Kelly, a grande estrela do canal quando este escândalo aconteceu e que estava nesse momento a ser alvo de escrutínio depois de ter confrontado Trump com o seu machismo. Kelly, formada em direito, trabalhou em escritórios de advogados antes de se tornar jornalista, pivô e comentadora política na FOX News. O seu sonho sempre fora cobrir os grandes eventos políticos e debates em Washington DC.

Bombshell: O Escândalo
Charlize Theron como Megyn Kelly, a então estrela da Fox News |©Pris

Uma sempre impecável Margot Robbie dá vida a Kayla, uma personagem anónima que recupera diversas histórias, de diversas mulheres. Jovem, “millennial” conservadora, a sua Kayla é ingénua, sonhadora e fixada em trabalhar na FOX News – o canal favorito da sua família  republicana.

“Bombshell: O Escândalo” foi realizado por Jay Roach, um realizador com um invulgar trajeto em Hollywood. Roach começou na comédia  – realizou filmes como “Austin Powers”(1997 e 1998) , “Um Sogro do Pior” (2000) ou “Uns Compadres do Pior” (2004). Na viragem para a década dos anos 2010, a sua carreira seguiu um rumo bem distinto, tendo migrado para a televisão e para os dramas políticos. Em 2008, realizou, para a HBO, “Recount”, drama histórico sobre as presidenciais norte-americanas de 2008. Por este filme para a televisão, que contou com prestações de atores como Kevin Spacey, Laura Dern ou John Hurt, Roach venceu dois Emmy Awards.

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Em 2012 realizou o drama político “Mudança de Jogo”, sobre a corrida presidencial de 2008 entre a então Governadora do Alaska, Sarah Palin (Julianne Moore) e o Senador John McCain (Ed Harris). Este filme para o pequeno ecrã foi criado também para a HBO, e voltou a valer-lhe mais Emmys. Em 2015, realizou para o cinema o drama biográfico “Trumbo” que viria a valer a Bryan Cranston uma nomeação ao Óscar.

Tendo em conta estas suas credenciais, “Bombshell” é uma entrada lógica na sua filmografia. Tendo também em conta o registo cómico que dominou grande parte da sua carreira, não é surpreendente que “Bombshell: O Escândalo” seja um filme que trata de uma temática bastante séria com alguma leveza. Para muitos um problema, ou até uma desconsideração do sensível tema que se aborda, há que dizer que esta obra biográfica consegue fazer-nos partilhar do desconforto e sofrimento das vítimas que retrata.

O filme foi escrito por Charles Randolph, argumentista de “A Queda de Wall Street”, de Adam McKay. O ritmo do filme, dos diálogos e da sequência de cenas resulta deste casamento entre Roach e Randolph. “Bombshell” é rápido, quase estonteante. Somos incluídos na narrativa de forma abrupta, apresentados a muitos personagens, ambientes e muito sobre a FOX e sobre as mulheres que estão à frente e atrás da câmara fica por dizer.

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A realização não parece inteiramente decidida. Oscilamos entre um registo de “mocumentário”, uma espécie de paródia do registo de documentário (exemplo: “The Office”, “Parks & Recreation“), quebramos a quarta barreira ocasionalmente (com as personagens a interpelarem o espectador), depois regressamos a um registo mais tradicional.

Peca talvez por querer mostrar demasiado. Revelar-nos demasiada informação, demasiadas histórias, fica-se demasiado pela superfície. Acabamos por conhecer pouquíssimas personagens em pormenor, vendo antes uma sucessão de caras vagamente familiares do cinema e da televisão. John Lithgow (“Dexter”, “How I Met Your Mother” e tantos outros projetos) dá vida a Ailes, a fenomenal Allison Janney também graceja o ecrã com a sua presença, Malcolm McDowell ( eterno Alex de “A Laranja Mecânica”) aparece brevemente como Ruper Murdoch. De “American Horror Story”, Connie Britton aparece como a esposa de Ailes, entre tantos outros nomes maiores ou menores (D’Arcy Carden, Jennifer Morrison…). 

Bombshell: O Escândalo
A parelha Margot Robbie e Kate McKinnon é uma das mais agradáveis surpresas do filme |©Pris

Kate McKinnon, estrela do célebre “Saturday Night Live” é a maior surpresa como uma lésbica liberal, duplamente no armário na FOX News. Prova aqui que consegue aguentar no cinema uma personagem que vá muito além da comédia pateta. A química com Margot Robbie é palpável. 

Dito isto, Charlize Theron e Margot Robbie estão fenomenais nos seus papéis, e mereceram bem as distinções ao longo da temporada de prémios que culminaram com ambas nomeadas ao Óscar (Nicole Kidman tem um papel um pouco menos significativo). Ouso dizer que o Óscar que Laura Dern vencerá a 9 de fevereiro seria mais bem entregue à promissora Robbie, que tantas provas já deu antes de chegar à casa dos 30.

“Bombshell: O Escândalo”  segue ainda com a nomeação ao Óscar na categoria de Melhor Maquilhagem e Penteados. O trabalho de caracterização de Charlie Theron, que se torna quase impossível de distinguir de Megyn Kelly, justifica o porquê de “Bombshell” ser o favorito à vitória nesta categoria.

Uma vez mais, num tema tão sensível, polémico e recente, é difícil manter uma separação entre o objecto artístico e a realidade. Esta imiscui-se na nossa análise do objecto fílmico, e por isso deixo essa contaminação aqui transparecer. Não será mesmo inevitável?

“Bombshell” é capaz de emocionar, não obstante a sua natureza frenética. Testemunhei-o numa antestreia muito bem composta, onde uma fila repleta de mulheres se emocionou visivelmente ao ouvir relatos múltiplos de abusos de poder e de confiança perpetuados não só por Ailes como por alguns dos restantes jornalistas da Fox News. “Bombshell” fez um trabalho exímio de investigação, retratou pequenos detalhes com precisão e cuidado, e procurou respeitar quem retratava. Contudo, não ouviu ou consultou quem viveu este escândalo. O vídeo acima, uma reacção de Megyn Kelly e outras intervenientes que viveram esta situação, deixa-nos compreender a história para lá da história – caso queiramos aceder a esta intromissão do real na ficção.

“Bombshell: O Escândalo” está nomeado a três Óscares – Melhor Atriz (Theron), Melhor Atriz Secundária (Robbie) e Melhor Caracterização (ou Maquilhagem e Penteados). Agora, é esperar por dia 9 de fevereiro para saber se sairá vitorioso em alguma das categorias. 

Bombshell: O Escândalo
bombshell

Movie title: Bombshell: O Escândalo

Date published: 2020-01-26

Director(s): Jay Roach

Actor(s): Charlize Theron, Nicole Kidman , Margot Robbie

Genre: Biografia

  • Maggie Silva - 77
  • Cláudio Alves - 45
  • José Vieira Mendes - 60
  • Virgílio Jesus - 50
  • Rui Ribeiro - 85
63

CONCLUSÃO

"Bombshell: O Escândalo"é dominado por mulheres, com fortes prestações, num verdadeiro filme de elenco. É notório por vezes uma atitude um pouco branda face aos que perpetuaram as injustiças representadas no grande ecrã. Apesar disso, consegue transportar-nos para o seu mundo com uma visível facilidade e envolver-nos nestas vidas verdadeiras que se retratam.

O MELHOR: As prestações das suas intérpretes centrais, a tentativa de honrar as histórias destas mulheres com uma pesquisa deveras extensa. Destaque ainda para o trabalho meticuloso que envolveu a criação das próteses.

O PIOR: Muitas histórias, de pessoas reais, são contadas como notas de rodapé.

A realização parece não ter decidido em que moldes queria contar a sua história.

Como produto para exportação, a estrutura narrativa esquece-se que nem toda a gente sabe tudo sobre Megyn Kelly ou sobre a Fox News.

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Maggie Silva

Mestre em Ciências da Comunicação na vertente de Cinema e Televisão pela FCSH-UNL. Dependente de cultura pop e cinema indie. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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