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Casa Gucci, em análise (2)

“Casa Gucci”, um dos dois filmes lançados pelo prolífico realizador Ridley Scott em 2021 (o outro o superior “O Último Duelo”), é menos um thriller criminal e mais um melodrama que recupera a história de uma família polémica e algo perversa. 

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Quem vê o trailer de “House of Gucci”, em português “Casa Gucci”, pensa que esta é uma narrativa criminal a puxar para o thriller, uma recuperação de eventos que testemunha o homicídio encomendado de Maurizio Gucci (Adam Driver) pela sua esposa Patrizia Reggiani (Lady Gaga). Contudo, o longuíssimo novo filme de Ridley Scott segue uma orientação bem distinta e, quiçá, menos proveitosa do que a premissa proposta no trailer. É que “House of Gucci” não é de todo um drama criminal, mas antes uma autêntica telenovela que apresenta a ascensão, queda e todas as intrigas que levaram a que a família Gucci fosse afastada do seu próprio legado no seguimento de muitas, muitas, más decisões.

Casa gucci
Lady Gaga na sua mais recente incursão no cinema| ©NOS Audiovisuais

Como qualquer história, esta narrativa tem também um princípio que, infelizmente para “Casa Gucci”, é recuado de forma desnecessária. É que os eventos retratados no filme cobrem cerca de 15 anos na vida dos Gucci, senão mais (embora a caracterização nunca o revele nem se esforce por mostrar a passagem do tempi), do momento em que Maurizio conheceu a sua futura esposa Patrizia no início dos anos 70 até ao momento em que esta é condenada, no final dos anos 90, pelo seu homicídio.

Nos entretantos, é-nos apresentado o legado familiar desta “Casa”, sem que efetivamente as roupas e o glamour ocupem um lugar excessivamente central. São antes um pretexto para o avanço da narrativa, nada mais nada menos do que um drama familiar bicudo. Este é o primeiro pecado de “Casa Gucci”. Sendo um filme sobre moda, não é de todo um filme sobre moda. Ou seja, estando Lady Gaga sempre bela e impecável, vestida de Gucci da cabeça aos pés, a verdade é que a passadeira e os figurinos são ruído de fundo neste dramalhão sobre italianos estereotipados. As cores são pastel, tal como os fatos de Paolo, e a Fotografia desta narrativa centrada em moda nunca brilha mais alto.

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Demasiado longo para o seu próprio bem, “Casa Gucci” sofre de uma imensa falta de capacidade no sentido de se editar e domar. Narram-se, de forma arrastada e incluíndo múltiplos momentos sem grande pertinência para o avanço do enredo. Seja Patrizia a passar todo o seu tempo com a vidente Pina (Salma Hayek), seja a atenção dedicada aos devaneios do abrasivo e patético Paolo Gucci (Jared Leto), uma caricatura de uma caricatura. Basta ver fotografias do verdadeiro Paolo para saber que o valor de exagero foi empregue com grosseiro excesso de à vontade.

E se “Casa Gucci” é demasiado longo, é também demasiado curto noutros aspectos. As temporalidades desta história estão mal medidas, com muitas cenas para contexto e tempo a menos para a resolução da trama. Ao fim de duas horas é meio é extraordinário que tudo pareça apressado, mas é mesmo isso que acontece aqui. Entre Patrizia exigir o assassinato do marido e o final do filme passam-se talvez 10 minutos. Quanto ao seu julgamento, toma lugar em dois breves minutos, quase não damos por estes, numa cena já quase a entrar pelos créditos adentro.

Não defendendo que “House of Gucci” estivesse melhor como drama de tribunal, longe disso, não deixaria de ser interessante descobrir o que aconteceu depois da morte do neto do fundador da marca Gucci. O julgamento de Patrizia e de seus cúmplices é uma parte tão inerente da história como os eventos que nos conduziram até esse momento, mas nada sabemos para além dos típicos títulos nos créditos a anunciar o que aconteceu aos intervenientes reais da história.

Adam Driver
Adam Driver como Maurizio Gucci| ©NOS Audiovisuais

 

Quanto às interpretações, Adam Driver e Lady Gaga são a antítese um do outro nesta obra de Ridley Scott. Stefani, como lhe chamam fora da esfera pública, está fenomenal no papel central e é o farol que conduz tudo o que aqui se passa. Ela prova aqui, depois de ter brilhado em “Assim Nasce uma Estrela”, que não é apenas uma cantora talentosa mas também uma atriz capaz de se transformar e entregar a qualquer papel.

Quanto a Adam Driver, estupendo em tantos dos seus papéis passados –  da série “Girls” ao filme “Silêncio”, de “Patterson” a “Blackkklansman”, aos recentes “O Último Duelo” e “Anette”  – onde é uma presença determinante no ecrã, está apagado neste “Casa Gucci”. Sim, este é um dos papéis mais contidos da sua filmografia mas, não obstante, sentimos que o ator está aqui em piloto automático, indiferente para com o seu papel, quiçá já a pensar no próximo. Não há paixão na sua performance, e entre o fogo contigo de Gaga, o fogo excessivo de Leto e a prestação competente de Al Pacino como Aldo Gucci, Driver surge como uma sombra da sua habitual presença cinematográfica.

“Casa Gucci” é uma telenovela excessiva e que, no seu âmago, não escolhe um rumo para a sua narrativa. Esta falta de inspiração é notória, num tipo de registo que na realidade escapa dos universos mais comuns e confortáveis de Ridley Scott – o épico histórico e o sci-fi.

O filme encontra-se já em exibição, desde 25 de novembro de 2021, em salas de cinema do norte ao sul do país. Não sendo uma obra- prima, é uma oportunidade ideal para descobrir a sórdida e trágica história de uma família poderosa. 

Casa Gucci, em análise
House Casa Gucci Poster

Movie title: Casa Gucci

Movie description: Inspirado na chocante história verídica dos bastidores da família detentora do império da moda italiana. Quando Patrizia Reggiani (Lady Gaga), uma desconhecida de origem humilde, se casa com Maurizio Gucci (Adam Driver), a sua ambição desmedida começa a desencadear no legado da família uma imparável espiral de traição, destruição e vingança que culmina... num assassínio.

Date published: 26 de November de 2021

Country: EUA, Canadá

Duration: 157'

Director(s): Ridley Scott

Actor(s): Lady Gaga, Adam Driver, Al Pacino, Jared Leto

Genre: Drama, Crime

  • Maggie Silva - 60
  • Rui Ribeiro - 80
  • João Garção Borges - 70
  • José Vieira Mendes - 60
  • Cláudio Alves - 50
64

CONCLUSÃO

“Casa Gucci” transforma uma história familiar interessante num melodrama telenovelesco. Não deixa de prometer uma sessão de cinema capaz de entreter, mas com o seu material de origem e temática poderia ter sido muito, muito mais. Lady Gaga salva o filme como a manipuladora e ambiciosa Patrizia Reggiani. 

Pros

  • Lady Gaga carrega o filme, dá-lhe todo o seu apelo e redenção e entrega a alma, coração e tripas. A sua prestação é a qualidade redentora de “Casa Gucci”, com a cantora a tornar-se cada vez mais uma interessante habitante no mundo da representação;
  • A história de vida da família Gucci é deveras interessante;

Cons

  • Extenso de mais e ao mesmo tempo apressado em certos momentos-chave – falta a capacidade de dosear e ritmar;
  • Jared Leto é caricatural até à quinta casa e desempenha não uma pessoa mas uma punchline, um alívio cómico;
  • A moda encontra-se  secundarizada;
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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