"Nomadland - Sobreviver na América" | ©Leffest/ NOS Audiovisuais

LEFFEST ’20 | Nomadland, em análise

O LEFFEST’20 aconteceu entre 13 e 25 de novembro em Lisboa e Sintra. “Nomandland” foi o filme escolhido para o encerramento. A obra realizada por Chloé Zhao, e que conta com Frances McDormand como protagonista e produtora, chega a Portugal depois de sair vitoriosa em Veneza e Toronto. 

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Num ano cinematográfico atípico e marcado por inúmeros adiamentos de estreias, “Nomadland”, que em Portugal será distribuído com o título “Nomadland – Sobreviver na América“, é um pequeno raio de esperança. O LEFFEST foi capaz de reunir alguns dos grandes destaques cinematográficos deste conturbado período e entre eles se encontra esta longa-metragem que dança entre a fição e o retrato de uma situação e pessoas reais que aqui encenam versões da sua própria narrativa.

“Nomadland”, um dos favoritos aos Óscares em 2021, que acontecem mais tarde no próximo ano, apenas a 25 de abril, tem vindo a ser aclamado por onde passa. Em Veneza levou o Leão de Ouro e já no Festival Internacional de Cinema de Toronto, também conhecido como TIFF, foi vencedor do Prémio do Público, um forte indicador da popularidade de uma obra, na interceção entre o público geral e o mais especializado. Este é apenas o início de uma jornada promissora e que ainda se faz longa.

 

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©Leffest/ NOS Audiovisuais

O apelo de “Nomadland” é mais que legítimo. Esta é uma história orientada por uma notória beleza, por uma capacidade antropológica inegável no sentido de explorar uma comunidade de forma honesta e delicada e por uma prestação central de Frances McDormand que continua o legado dos papéis femininos fortes que tanto marcam presença na sua carreira.

A longa-metragem baseia-se na vida de Fern (McDormand), uma viúva que perde tudo no seguimento da Grande Recessão ocorrida na primeira década do século XXI.. Fern compra uma carrinha, faz-se à estrada e começa a viver como uma verdadeira nómada dos tempos modernos, percorrendo o vasto e cinematográfico Oeste dos Estados Unidos da América. A sua jornada baseia-se no livro “Nomadland: Surviving America in the Twenty-First Century”, de Jessica Bruder. Esta obra de jornalismo imersivo lançada em 207 explora o fenómeno de cidadãos americanos mais velhos que viajam pelo país como nómadas, nas suas caravanas e carrinhas, em busca de emprego de curta duração.

 

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Frances McDormand em “Nomadland” |©Biennale de Veneza/ NOS audiovisuais

 

Estes mesmos sujeitos, estes aventureiros forçados a reinventarem-se, são também o objeto de atenção mediática por parte de publicações como o “New York Times”. Bruder viveu durante três anos e milhares de quilómetros com esta nova geração de nómadas, os “acima de 50 na estrada”. Cidadãos seniores, impossibilitados de se reformarem devido às baixas pensões, e que continuam estrada fora como a nova mão-de-obra de eleição para trabalho temporário nos mais variados setores de atividade no Velho Oeste (e não só).

É o retrato sensível e honesto de Frances McDormand que nos traz esta realidade dura mas simultaneamente fascinante até ao filme realizado por Chloé Zhao. A realizadora, por sua parte e para seu crédito, parece colocar a tónica da obra na sua autenticidade e humanidade. Poucos dos intervenientes no filme são atores profissionais, a grande maioria são nómadas  que se representam a eles próprios, como Linda May, Charlene Swankie ou o guru Bob Wells, entre tantos outros.

 

Nomadland
‘Nomadland’ é produzido e protagonizado por Frances McDormand| ©Biennale de Veneza/ NOS Audiovisuais

 

Eles são os mentores, companheiros, amigos, confidentes da Fern de McDormand. Quando tudo se inicia, a nova vida itenerante da nossa heroína parece um castigo e não uma oportunidade. Ela, como tantos outros, foi esquecida pela sociedade, pelo governo, pelos diminutos apoios sociais. Demasiado nova para a reforma, sem trabalho em vista, faz-se à estrada à procura de algo melhor abandonando tudo o que conhecera até então. É aí que a história se vai, progressivamente, transformando. Os “vagabundos” que conhece ao longo da viagem convertem a necessidade em engenho e o instinto de sobrevivência em vontade de ser e sentir mais e de novas formas.

“Nomadland – Sobreviver na América” é menos sobre sobreviver e mais sobre o poder da resiliência, adaptabilidade e criatividade humana. Com pouco estes novos nómadas fazem muito. Percorrem o deserto norte-americano e por lá encontram um novo sentido de comunidade, quiçá uma nova vida, onde a estrada se torna uma personagem central que tudo unifica e aproxima.

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A realizadora Chloé Zhao é capaz de nos imergir de forma quase absoluta na vida desta comunidade. Frances McDormand, sem surpresa, é capaz de se adaptar na perfeição e sentimos esta história menos como uma mera narrativa e mais como um pedaço de vida, um fragmento correspondente a um período concreto no tempo e no espaço. As imagens, essas, são quase avassaladoras. O deserto dos Estados Unidos da América parece ser mais extenso do que a visão consegue imaginar e o uso da golden hour para exemplificar a sua beleza é recorrente em “Nomadland” uma e outra (e outra) vez.

Um filme para os sentidos, para os sonhadores, para os não conformistas. Estes corajosos seniores são quase equiparáveis ao estatuto de pioneiros e há que aplaudir a equipa do filme por os saber representar como tal. Sim, há aqui a denúncia da falência do sistema capitalista e do dito  sonho americano mas há também infindável beleza e vitalidade. O sonho pode morrer, mas o sonhador sabe reinventá-lo uma e outra vez.

TRAILER | NOMADLAND DE CHLOÉ ZHAO – FILME ENCERRAMENTO LEFFEST ’20

“Nomadland” já tem data de estreia em Portugal. Deverá chegar às salas no dia 18 de março de 2021 pela mão da NOS Audiovisuais, que cedeu a cópia ao LEFFEST para esta projeção. 

Nomadland, em análise
leffest nomadland

Movie title: Nomadland

Date published: 27 de November de 2020

Duration: 108'

Director(s): Chloé Zhao

Actor(s): Frances McDormand

Genre: Drama,

  • Maggie Silva - 95
  • Virgílio Jesus - 80
88

CONCLUSÃO

“Nomadland”, o terceiro filme realizado por Chloé Zhao, é um tributo aos mais resistentes sonhadores que convertem sofrimento e esquecimento em novas oportunidades para viver uma existência mais desprendida e livre. Esta é uma obra singular que se destaca nitidamente num ano cinematográfico abaixo da média. Obrigada a Zhao e a McDormand por esta pérola de beleza avassaladora.

Pros

O retrato cuidado, tenro e nobre que Zhao desenha ao retratar uma comunidade que já passou por muito e que permanece alta, digna, corajosa;

A performance de Frances McDormand que, como sempre, é capaz de se imiscuir profundamente na classe trabalhadora americana e no papel de uma mulher forte e resiliente sem qualquer pele de “celebridade” ou “privilégio” a remover;

Cons

A jornada de Fern é tão dinâmica e vívida que poderíamos permanecer para sempre. Não obstante, o filme poderia ter acabado mais cedo. É discutível se as últimas cenas eram de facto necessárias ou se poderíamos apenas ter-nos mantido sempre na estrada;

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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