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Malcolm & Marie, em análise

O filme ‘Malcolm & Marie’, escrito e dirigido por Sam Levinson,— o criador de ‘Euphoria’ — é mais uma forte aposta da Netflix, onde Zendaya e John David Washington os únicos actores em cena, brilham numa visceral história de amor que é uma verdadeira torrente de emoções e sentimentos contraditórios.

Começo por dizer que adoro, provavelmente contra a maioria da crítica mais ortodoxa, este ’Malcolm & Marie’ de Sam Levinson — filho da escritora-argumentista Diana Rhodes e do cineasta Barry Levinson — pois é um filme lindíssimo e uma pequena lição de cinema, filmada a preto e branco, durante o confinamento. De qualquer modo, creio que se trata de um filme que vai inevitavelmente dividir e muito as opiniões não só da crítica, como do público. E ainda bem!! ‘Malcolm & Mairie’ não existiria obviamente se a bela Zendaya e o actor-realizador Sam Levinson (de 36 Anos) — que estudou interpretação pelo famoso Método — não se tivessem cruzado em Euphoria, a premiada série da HBO, pelo qual a jovem actriz — começou a carreira como modelo, bailarina e agora cantora — recebeu um Emmy. Depois porque a pandemia causou uma paralisação da indústria de cinema em todo o mundo e logo de mais uma temporada de ‘Euphoria’, levando a que os dois jovens talentos, pensassem num projeto que os mantivesse no activo. E assim produziram em comum este ‘Malcolm & Marie’, convidando para o efeito, o actor John David Washington (‘BlacKkKlansman: O Infiltrado’) e uma pequena equipa de filmagens, que usou sempre máscara durante a rodagem de duas semanas, tendo em conta as regras sanitárias e que se tornou provavelmente o primeiro filme feito em plena era Covid-19. 

VÊ TRAILER DE ´MALCOM & MARIE’

Em ‘Malcolm & Marie’ tudo começa quando um jovem e elegante casal chega a uma belíssima casa de campo e iniciam uma estúpida discussão — como  sempre começam as discussões entre casais — porque ele um realizador novato (John David Washington) em momento de afirmação, se esqueceu de agradecer a ela, a sua companheira (Zendaya) no discurso que proferiu na estreia da sua primeira longa-metragem, intitulada ‘Imani’, terminada há poucas horas. O casal que deveria estar a celebrar um grande episódio das suas vidas, num momento da verdade — provocado pela excitação e a bebida  — resolvem confrontarem-se com questões e fantasmas que estão no meio da sua relação amorosa. Assim mais do que uma zanga de namorados, o filme torna-se numa torrente de emoções à flor da pele, entre o narcisismo e a vaidade, entre o visceral e o fascinante, que nos agarra até ao genérico final.

Malcolm & Marie
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Rodado apenas com os dois actores em cena e quase sempre no mesmo cenário (entre a sala, o quarto e a varanda da casa à noite), ‘Malcolm & Marie’ poderia tornar-se mais um filme de uma peça de teatro, em um acto. Por isso temos que reconhecer de imediato todo o engenho dramático, a eficácia do argumento e sobretudo o talento com que Levinson constrói uma realização que rejeita essa ideia da rodagem de teatro-filmado, dando-lhe um tratamento puramente cinematográfico. E consegue-o ultrapassando as limitações do cenário — uma bela casa nos arredores de Monterrey, Califórnia — e dando vivacidade ao confronto dialéctico entre os dois protagonistas. A forma como é concebido ‘Malcolm & Marie’ acaba por justificar que realmente seja um filme, quanto mais não seja pelo seu primor fotográfico e um espantoso classicismo. Levinson consegue dar ao filme dinamismo — sem usar movimentos de câmera nervosos e antes optando por planos fixos, estáveis e suaves — que efectivamente permanece constante ao longo do drama. Contudo, há ainda planos prolongadas dos rostos, para destacar as emoções com que Zendaya e John David Washington se entregam aos seus, violentos e tóxicos diálogos. Às vezes até talvez seja mais apropriado falar de largos monólogos. Levinson, faz ainda algumas pequenas pausas para separar as cenas, utilizando um curioso dispositivo: os protagonistas vão fumar ou vão à casa-de-banho.

Malcolm & Marie
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‘Malcolm & Marie’ começa também com uma abordagem realista e tudo flui com naturalidade, mostrando o tipo de relação que existe entre os dois, a partir de situações do quotidiano, com as quais nos podemos identificar: chegar a casa depois de uma festa, de um intenso convívio social, excitados, bebidos, enciumados, enfim tudo aquilo que é próprio de um momento da vida; mas depois o filme transforma-se em algo mais complexo e ácido: um cruzamento entre o abstrato e o intenso, que permite a Levinson mostrar através de Malcolm — uma espécie do seu alter-ego as suas próprias visões da vida e do showbiz de Hollywood: os excessos do politicamente correcto, a superficialidade, a afirmação de um realizador negro, heterossexual, o percurso mais ou menos sinuoso de ascensão de algumas estrelas e a autenticidade da arte; ou usar o Los Angeles Times para lançar algumas farpas no mundo da crítica de cinema de Hollywood, como uma espécie de vingança por causa de uma resenha negativa, acusando-o de pedantismo e publicada há uns anos pelo jornal a propósito deAssassination Nation’, o seu filme anterior de 2018. E também da opinião não muito favorável do referido LAT, em relação à carreira da própria Zendaya e a Euphoria.

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Não tenho dúvidas que a reação do espectador em relação a ‘Malcolm & Marie’, pode ser bastante antagónica: é um daqueles filmes que ou se ama ou odeia, como os protagonistas. A reacção tanto pode ser ir da indignação à indiferença, até à profunda atração pelo combate dialético que se estabelece entre os dois protagonistas, que é de uma enorme veracidade. Acreditamos sobretudo por causa da forma como Malcolm e Marie dizem esses diálogos e pela interpretação de Zendaya (24 anos) e de Washington (36 anos), — punha-se em causa por vezes a diferença de idade de 12 anos entre os dois actores — que agem como se fossem eles na situação. Conseguem mesmo, uma abordagem bastante diferente dos seus personagens: Zendaya mantêm-se sempre numa estranha serenidade e descobrimos que é uma fachada para esconder uma certa inquietação e controlar todos os seus demónios internos do passado e do presente: ‘Imani’ é em grande parte baseado na sua vida, uma ex-toxicodependente, frustrada ainda com o insucesso da sua carreira como actriz; ao passo que Washington, bebido e com o ego em cima, por causa da sua efémera noite de glória, é mais explosivo, histriónico e disparatado. Washington adota a ironia e as  piadas características da comédia, enquanto que Zendaya assenta num discurso dramático. Mas tudo é sempre muito bem equilibrado por Levinson, mesmo quando parece que tudo pode descontrolar-se, pelo difícil trabalho dos atores, pelas constantes mudanças de dinâmica e humores, ora pela tensão dos diálogos, que poderiam extravasar para a violência física. Mas não…

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Na verdade, Zendaya e Washington parecem mesmo complementarem-se, ’colando-se’ aos seus personagens. Ambos são culpados e inocentes relativamente à situação que chegou o seu relacionamento, tornando-se desconfortável para o espectador tomar partido por um deles. Aconselho por isso a todos os espectadores a desfrutarem dos desenvolvimentos deste hiperbólico romance, das suas contradições, da tóxica relação amorosa e deixar-se ir no jogo, no elegante desafio narcísico ou ajuste de contas de Sam Levinson em relação à crítica de cinema e ao mundo da indústria do entretenimento. Desfrutem dos magníficos diálogos, da beleza da expressividade dos actores, do guarda- roupa, da decoração da casa, dos maravilhosos temas da banda-sonora de Labrinth, que ouvimos vários à medida do humor das personagens, da brilhante fotografia a preto e branco — mesmo da perfeita iluminação dos escassos exteriores à noite. Ao apreciar isto tudo, corro o risco de ser superficial, mas sobretudo admirem as duas notáveis interpretações de Washington e Zendaya, além da inegável química, entre os dois, que faz com que ‘Malcolm & Marie’, seja um filme único e inesquecível. Um primor!

JVM

Malcolm & Marie, em análise
Malcolm & Marie

Movie title: Malcolm & Marie

Date published: 7 de February de 2021

Director(s): Sam Levinson

Actor(s): Zendaya, John David Washington

Genre: Drama, Romance , 2021, 106 min

  • José Vieira Mendes - 90
90

CONCLUSÃO:

Uma das coisas que mais aprecio em ‘Malcolm & Marie’ é não ter nenhum problema em ser um filme que vai dividir o público e a crítica. Podem até chamar presunçoso ou pretensioso a Sam Levinson. É verdade que também é um filme que dá uma certa sensação de se sentir mais importante do que realmente é neste momento histórico de crise a todos os níveis. Mas é um filme que dita as suas próprias regras do jogo, que entramos ou não e o realizador Sam Levinson sabe muito bem combinar todos os ingredientes e tirar o máximo partido do talento de seus dois extraordinários protagonistas: Zendaya e John David Washington.

O MELHOR: a extraordinária química física, sentimental e interpretativa entre Zendaya e John Davi Washington;

O PIOR: Essa vingança fria que Sam Levinson tenta fazer à critica e à industria de cinema de Hollywood. 

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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