Madres Paralelas/© 78ª Festival de Veneza

78º Festival de Veneza: As Mães de Almodóvar

As baterias ainda estão em carga depois do Festival de Cannes e já só faltam seis semanas para a 78ª Mostra Cinematográfica de Veneza (1-11 de setembro). O programa vai ser anunciado na próxima segunda-feira, 26 de julho, mas a abertura é com ‘Madres Paralelas, o novo filme de Pedro Almodóvar’.

No 78º Festival de Veneza parece quase tudo pronto para arrancar mais uma edição de luxo (de 1 a 11 de setembro), que já nos habitou a combinar excelentes filmes de autor e potenciais concorrentes aos Óscares. E agora mesmo com a pandemia a influenciar ainda toda a produção mundial de cinema. A edição do ano passado foi absolutamente notável! Logo nos primeiros dias do Festival de Cannes 2021, que terminou há pouco — que diga-se, foi muito bom e correu muito bem, tanto do ponto de vista da organização como dos resultados artísticos, mesmo com as limitações sanitárias — já se discutiam, quais poderiam ser as estreias mundiais mais atraentes, a serem exibidas, no Lido de Veneza. Agora só faltam escassas seis semanas e anuncio da programação está marcado já para a próxima segunda, dia 26 de julho às 11h (hora de Veneza) via streaming. Além de ter sido apresentado mais um lindíssimo cartaz oficial desta 78ª edição (na mesma linha dos anteriores de Lorenzo Mattotti e intitulado A Contest of Gazes’), foram anunciados os membros do júri internacional, que será presidido por Bong Joon Ho (Coreia do Sul). A acompanhar o realizador de Parasitas, nas sempre difíceis decisões de escolher o Leão de Ouro e os outros prémios a atribuir, assim estarão Saverio Costanzo (Itália), realizador e argumentista de A Solidão dos Números Primos (2010);  Virginie Efira (Bélgica/França), a protagonista de Benedetta; Cynthia Erivo (Reino Unido) a actriz de cinema e teatro e, também cantora que faz de Aretha Franklin na série Genius’; Sarah Gadon (Canadá), é a actriz revelada em Um Método Perigoso (2012), de David Cronenberg; Alexander Nanau (Roménia), o realizador do documentário Collective—Um Caso de Corrupção (2019); Chloé Zhao (China/EUA) a realizadora de ‘Nomadland-Sobreviver na América’, vencedora do Leão de Ouro 2020 e de seis Óscares da Academia de Hollywood em 2021. Uma composição muito interessante de figuras e talentos.

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VÊ TRAILER DE ‘MADRES PARALELAS’

Desta vez até há uma pré-abertura com os filmes ‘La Biennale di Venezia: il cinema al tempo del Covid’, um filme-diário de Andrea Segre, e Per grazia ricevuta’ (Por Obra e Graça’) (1971) de e com Nino Manfredi, para comemorar o centenário do actor e realizador, que serão exibidos, logo a 31 de agosto, na Sala Darsena do Lido, a partir das 18h30; a programação adivinha-se muito forte com os novos filmes de Pedro Almodovar (este na abertura), Jane Campion e Paolo Sorrentino, já considerados quase como certos para constarem da programação. Juntando-se à já confirmada estreia da nova versão de Dune, de Denis Villeneuve. Este thriller de ficção científica é protagonizado por Timothée Chalamet e Rebecca Ferguson, será exibido fora da competição, igualmente como Halloween Kills, de David Gordon Green e cuja a protagonista, Jamie Lee Curtis,  será homenageada com o Leão de Ouro de Carreira. Também o thriller Nightmare Alley’ de Guillermo del Toro, protagonizado por Cate Blanchett, Toni Collette e Bradley Cooper, faria todo o sentido estar em Veneza 78 se estivesse pronto a tempo. Veremos se será possível, pois Guillermo del Toro é um ‘realizador da casa’, que já ganhou o Leão de Ouro por A Forma da Água em 2017 e voltou no ano seguinte como presidente do júri. 

Madres Paralelas
Madres Paralelas/© 78ª Festival de Veneza

ABRIR COM ALMODÓVAR  

Madres Paralelas, de Pedro Almodóvar, protagonizado por Penélope Cruz, tem já uma data marcada para o seu lançamento em setembro na Espanha, alinhando-se perfeitamente com a sua apresentação e abertura da Mostra de Veneza 2021. ‘Como contador de histórias, neste momento inspiram-me mais as mães imperfeitas’, dizia o realizador espanhol, citado pelo El País, e cujo trabalho sobre mulheres e a maternidade, é conhecido em filmes como Tudo Sobre a Minha Mãe ou Dor e Glória. Este Madres Paralelas foi rodado durante a pandemia, terminou há poucas semanas e além de Penélope Cruz, o filme conta ainda com Aitana Sánchez Gijón (Volavérunt), a revelação Milena Smit (‘No Matarás’) e o regresso de Rossy De Palma, ao universo almodovariano. O foco desta nova história de Almodóvar, são novamente as mulheres — o seu mundo preferido — e mães não muito vocacionadas para o efeito, num filme que começa pelo encontro de duas dessas mulheres (uma adolescente e outra de meia idade), mães-solteiras, que engravidaram sem quererem e que no hospital se preparam para seus respectivos partos. A idade diferencia-as no sentimento: uma está muito feliz (Penélope Cruz), com o nascimento da criança, ao passo que a outra está apavorada (Milena Smith), ou será o contrário? O realizador espanhol estreou a sua curta-metragem A Voz Humana, com Tilda Swinton, no ano passado, diz ter gostado muito da experiência de Veneza e por isso voltou, pouco depois de ter entregue em Cannes em mão, a Palma de Carreira, a Jodie Foster. Contudo, Almodóvar reafirmou também que ‘nasceu’ como realizador com ‘Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos’, em 1983, apresentado na secção Mezzogiorno Mezzanotte: ‘Trinta e oito anos depois sou chamado a abrir o festival. Não consigo explicar a alegria e a honra e quanto isto significa para mim, sem cair na complacência’, diz o realizador nas notas de apresentação de ‘Madres Paralelas’. Alberto Barbera, então nessa altura já director-artístico do Festival de Veneza — foi substituído pelo meio por Marco Muller — também se referiu ao sucesso da estreia de, ‘Mulheres à Beira de Um Ataque’, de Almodóvar na Mostra de 1983, dizendo que é um privilégio ter o seu novo filme a abrir o festival: Trata-se de ‘um retrato intenso e sensível de duas mulheres que lidam com uma gravidez com consequências imprevisíveis, com a solidariedade entre mulheres e com a sexualidade experimentada em total liberdade e sem hipocrisia. Tudo tendo em pano de fundo, um reflexo da necessidade inelutável pela verdade, que deve ser perseguida sem cedências’. 

FILMES A CAMINHO DO LIDO

A actriz Penélope Cruz, protagoniza igualmente com Antonio Banderas, o filme Competencia Oficial’ (‘Oficial Competition’), da dupla argentina Mariano Cohn e Gastón Duprat, que também é dado quase como certo em Veneza 78. Em busca de importância e prestígio social, um empresário bilionário decide fazer um filme para deixar sua marca. Para isso, contrata os melhores: uma equipa de estrelas formada pela famosa cineasta Lola Cuevas (Penélope Cruz) e dois atores famosos, ambos de enorme talento, mas com egos ainda maiores que eles próprios: Félix Rivero (Antonio Banderas), um famoso ator de Hollywood e o ator dramático vindo do teatro mais radical Iván Torres (Oscar Martínez). As lendas, não são exatamente os melhores amigos. Porém, através de uma série de desafios cada vez mais excêntricos colocados por Lola, Felix e Iván têm de não apenas se enfrentarem um ao outro, mas também contra os seus próprios legados. Depois da polémica hesitação de Cannes, em relação a The Power Of The Dog, de Jane Campion, também está a caminho de Veneza, levando consigo as estrelas Benedict Cumberbatch, Jesse Plemons, Kirsten Dunst e Thomasin McKenzie, num filme que conta uma história da rivalidade entre irmãos. A Netflix parece também ter recusado uma  possível apresentação deste filme Fora da Competição, em Cannes. Recorde-se que Campion teve até agora, (Julia Ducournau, venceu a Palma de Ouro 2021 com Titane) a duvidosa honra de ser a única realizadora-mulher a ganhar uma Palma de Ouro (por O Piano, embora ex aqueo). A vaga na competição de Veneza, surge obviamente por causa das regras do Festival de Cannes, que impedem a exibição de filmes em competição, a menos que se comprometam a um lançamento completo nos cinemas na França. As portas estão mais abertas em Veneza para os filmes da Netflix.

VÊ TRAILER DE ‘COMPETENCIA OFICIAL’

No entanto, Campion tem tido bastante êxito em Veneza, onde estreou o múltiplo vencedor ‘Um Anjo à Minha Mesa’ (1990) e onde competiu pela última vez com ‘Fumo Sagrado’, em 1999. Outro título da Netflix considerado como um forte candidato ao Lido é È Stata la Mano di Dio, do italiano Paolo Sorrentino, protagonizado pelo seu colaborador habitual, o actor napolitano Toni Servillo. O filme é descrito pelo cineasta, como uma obra profundamente pessoal. Pouco se sabe sobre o novo filme de Sorrentino, exceto que, embora o título se refira, aparentemente, ao polémico golo de Diego Maradona pela Argentina contra a Inglaterra no Campeonato Mundo de 1986. Porém não se acredita que seja um filme sobre a falecida lenda do futebol mundial. Mona Lisa And The Blood Moon’, de Ana Lily Amirpour, protagonizado por Kate Hudson, também pode estar a caminho do Lido bem como Spencer, de Pablo Larrain, com Kristen Stewart como e sobre a Princesa Diana de Gales, filme que decerto (aliás já começou) vai dar polémica com a família real britânica e sobretudo com o irmão Charles Spencer. Um filme que faz todo o sentido estar em Veneza 78, já que foi lá que o realizador chileno apresentouJackie (2016) e Ema (2019). Resta-nos ansiosamente a apresentação definitiva da Seleção Oficial de Veneza 78, para a próxima semana. 

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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