Telemundo de James Benning |©DocLisboa

DocLisboa ’19 | Telemundo, em Análise

Telemundo”, de James Benning, foi exibido no DocLisboa ’19 inserido na secção “Riscos”. Um filme de aproximadamente 80 minutos, que consiste de um único plano de duas pessoas a ver um canal em espanhol nos Estados Unidos da América. Metáfora para a imperfeição da comunicação neste país. 

Este filme segue uma premissa muito simples, tal como é descrita na sinopse: duas pessoas vêem um filme no Telemundo, um canal em língua espanhola. Ouve-se o som do filme e a publicidade. De vez em quando, falam um com o outro, mas nunca sobre o filme. Um homem de 74 anos e uma mulher de 33. Ele conta histórias, ela é sábia.

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Que mais há a dizer sobre “Telemundo” ? Eles estão a ver o filme, mas nunca os vemos a vê-lo, apenas o ouvimos. Ela fala em espanhol, ele fala em inglês. Ela fala sobre questões abstratas e gerais, ele lamenta nunca ter aprendido mais nenhuma língua. A guerra não permitiu de outra forma, e a situação persistiu. Culpa o patriotismo, que parece achar pouco legítimo falar algo para além de inglês. As suas conversas são assim mais monólogos do que verdadeiras conversas. Durante grandes porções do filme, estão em silêncio total, enquanto vêem o seu filme, que se desenrola no canal de língua espanhola. Porquê integrar este filme na secção “Riscos”? Claramente devido ao seu carácter experimental.

James Benning é já quase da casa, tendo sido convidado da secção riscos também na passada edição do festival.  “Riscos” é uma secção sobre experimentação no cinema, sobre as estratégias alternativas e sobre as linhas de fuga. Benning, nascido no Milwaukee, Wisconsin, Estados Unidos da América, é aqui participante no seu próprio filme. É nasceu nos Estados Unidos, e tem família originária da Alemanha, mas nunca aprendeu, com pena sua, a falar alemão. É muito possivelmente a sua verdadeira história, mas é uma que é narrada com muito pouca naturalidade neste documentário.

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O próprio James Benning é associado à noção de riscos, de radicalismo formal, também muito associado à filmagem de paisagens, que aqui se encontra ausente.  O homem americano, protagonista do filme,  que sabemos ser Benning, explica que apenas consegue captar televisão hispânica com a sua ligação de satélite, especialmente quando existem tempestades. Como existem muitos mexicanos e outros povos de língua espanhola a lavrar as terras e a fazer os trabalhos pesados não muito longe de onde vive, esta emissão é forte e popular. Este filme fala sobre o que é a América, e a impossibilidade de comunicação entre os seus habitantes. A outra performer é Sofía Brito, atriz e realizadora argentina.

Contudo, fala muito pouco. A qualidade sonora é atroz, provavelmente para conferir um ar realista, e as intervenções dos dois sujeitos filmados são tão pontuais e plásticas, desprovidas de contexto, que lamentavelmente o filme acaba por transmitir, acima de tudo, uma enorme pretensão. A pretensão de diferença, de singularidade, quando na realidade o som o torna quase imperceptível, e as intervenções esporádicas dos intervenientes torna-o maçador para lá do razoável. E como o som é tão mau, é difícil seque compreender a televisão, Por isso, o encontro de significados entre o que os personagens dizem e o que o filme reflecte nem sequer se atinge decentemente.

Uma experiência com algum interesse, mas em última instância repetitiva e desperdiçada, “Telemundo” é um pretensioso exercício preguiçoso, que podia ser bem, mas bem mais interessante.

O DocLisboa ’19 continua nas grandes salas da capital  até dia 27 de outubro, domingo. 

Telemundo
James Benning

Movie title: Telemundo

Date published: 2019-10-25

Director(s): James Benning

Genre: Documentário , Experimental

  • Maggie Silva - 45
45

CONCLUSÃO

Uma interessante proposta, com uma finalização rústica e insuficiente.

O MELHOR: As ideias que aqui são exploradas e o conceito proposto.

O PIOR: A monotonia deste plano, bem como o trabalho de som intragável que compromete a própria compreensão do filme.

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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