Maitreyi Ramakrishnan como Devi | Netflix © 2023

Eu Nunca…, série completa em análise

“Eu Nunca…”, ou “Never Have I Ever”, disse em 2023, mais precisamente em junho, adeus à história de Devi Vishwakumar, uma jovem norte-americana de ascendência indiana. Será que esta série adolescente de primeira linha conseguiu fechar em chave de ouro? 

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A resposta curta é um estrondoso sim. Ao longo de quatro temporadas, emitidas entre 2020 e 2023, “Eu Nunca…” acompanhou a vida escolar e pessoal de Devi Vishwakumar (Maitreyi Ramakrishnan), uma tempestuosa adolescente americana que procura recuperar de um enorme trauma enquanto vive a sua experiência de liceu norte-americano.

Presa entre dois mundos, a cultura indiana da sua família e a experiência clássica dos Estados Unidos, Devi tenta conjugar a sua personalidade explosiva com as expectativas da sua mãe, ao mesmo tempo que procura cumprir todos os seus desejos. Ambiciosa e corajosa, Devi quer entrar para a prestigiada universidade de Princeton, uma das mais cobiçadas nos Estados Unidos da América, e quer também arranjar um namorado atraente e perder a sua virgindade quanto antes.

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As personagens Devi e Nalini Vishwakumar| Cr. Isabella B. Vosmikova/NETFLIX © 2021

Co-criada por Mindy Kaling (“The Office”, “The Mindy Project”), não sendo autobiográfica, esta série faz-se servir de alguns dos elementos da adolescência da sua criadora para criar o enredo central. Uma narrativa de ‘ coming of age’, “Never Have I Ever’ acompanha todos os ritos de passagem na vida de liceu de Devi, da primeira vez ao primeiro triângulo romântico (bem bicudo mas sempre hilariante).

A história é bem simples, acompanhando-se a juventude e interioridade de uma jovem dos seus 15 aos 18 anos. A série terminou organicamente, na sua quarta temporada, à medida que Devi parte para a universidade. Para trás ficaram quatro anos sólidos de criação de personagens repletas de profundidade, numa história capaz de elevar a banalidade do dia-a-dia e criar algo mais.

Em primeiro lugar, “Eu Nunca…” é uma história sobre uma família emigrante, e acerca de imigrantes indianos nos EUA. Uma comunidade habitualmente representada através de lugares-comuns pouco lisonjeiros. Esta série, co-criada por uma filha de indianos com uma relação difícil com a sua cultura de origem, representa a experiência Hindu com graça, classe, detalhe e muito respeito, não deixando de brincar com expectativas, clichés e pré-conceitos.

Descrita pela própria Netflix como uma comédia de auto-descoberta, Devi herda a determinação da sua criadora, uma mulher entre homens nas salas de argumentistas (Mindy Kailing), bem como a sua teimosia e a sua capacidade de inverter estereótipos. Devi é inteligentíssima e ferve em pouca água – diz tudo o que não deve, revolta-se de forma bem audível quando se sente injustiçada e tem as emoções à flor da pele. É tudo menos uma menina bem comportada e coloca a sua vontade acima de tudo o resto.

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As amigas de Devi, que ao longo de 4 ano têm uma paciência de santas | © Netflix

Ao longo de quatro temporadas, o seu arco de crescimento é estrondoso e para lá de orgânico. A revoltada Devi, que sofre com o trauma da morte inesperada do pai, torna-se verdadeira mais adulta e aprende a dar primazia aos sentimentos de quem a rodeia – quer estejamos a falar da sua mãe Nalini (Poorna Jagannathan) , dos seus pretendentes Paxton Hall-Yoshida (Darren Barnet) e Ben Gross (Jaren Lewison), das suas melhores amigas Fabiola (Lee Rodriguez) e Eleanor (Ramona Young), da sua avó Nirmala (Ranjita Chakravarty) ou da sua bela prima Kamala (Richa Moorjani).

Quatro temporadas depois, estabelecemos a relação de amor entre Devi e tantas outras personagens – e depois de muito bater com a cabeça – a nossa protagonista aprende a respeitar as vontades das suas amigas, os desejos dos seus potenciais interesses românticos,  as mentalidades distintas dos seus familiares. Isto com a ajuda da Dra. Jamie (Niecy Nash), uma terapeuta sem papas nas línguas que se assume como a relação mais importante na vida da jovem Devi Vishwakumar.




Pelo meio, Devi comete mesmo muitos erros, trata as amigas com desrespeito e coloca-se a si própria sempre em primeiro lugar. Não obstante, e em grande parte devido ao argumento sólido da série, e parcialmente devido ao carisma da atriz Maitreyi Ramakrishnan, nunca deixamos de torcer pela nossa protagonista. Nem quando decide namorar com Paxton e Ben ao mesmo tempo, partindo o coração de ambos no processo, nem mesmo quando recusa respeitar a sua mãe, que se mantém forte não obstante o desgosto da perda do marido.

Never Have I Ever t3
Cr. Lara Solanki/Netflix © 2022

Ficamos sempre do seu lado, salvo seja, porque sabemos que os seus atos resultam do sofrimento e duma personalidade impulsiva, desprovida de mau intento. É essa a magia de “Never Have I Ever”, fazer-nos torcer por uma miúda que não é perfeita, mas que está a passar por um processo constante de aperfeiçoamento. A série é perfeita para um binge-watch, à medida que vemos a picardia entre Devi e Ben desenrolar-se (num “text book” de romance, o delicioso lugar-comum de enemies to lovers – inimigos a amantes).

O seu outro romance, vivido com o rapaz mais popular da escola, Paxton, é inteiramente diferente. Diz-nos que o idealismo nem sempre é um bom companheiro, à medida que o próprio Paxton cresce e supera noções elementares como o conceito de popularidade. Mesmo uma personagem como esta, o aparente desportista sem muito na cabeça, nos é capaz de surpreender, não tivéssemos já defendido a maravilhosa construção de personagens desta comédia dramática adolescente.

Outro elemento essencial é mesmo o equilíbrio entre comédia e drama. Sofremos com Devi, mas rimo-nos com Devi, somos convidados para viver no seu mundo de forma plena. Com vários detalhes deliciosos, “Eu Nunca…” vence através da forma como habita a mente dos seus protagonistas. Num toque de génio, o tenista John McEnroe narra a vida de Devi, não fosse ele o desportista favorito do falecido Mohan Vishwakumar ( Sendhil Ramamurthy), pai de Devi.

Em alguns episódios pontuais, dois dedicados a Ben, e dois dedicados a Paxton, os nossos co-protagonistas, John McEnroe afasta-se e dá espaço a dois outros narradores omniscientes, Gigi Hadid, como a bela narradora da vida do belo Paxton, e Andy Samberg como um dos ídolos de Ben, que assume também a narração pontual do seu ponto de vista. Esta escapatória ocasional de pontos de vista, que ocorre pontualmente ao longo das quatro temporadas, enriquece a série com novos pontos de vista.

Eu Nunca... Temporada 4
Jaren Lewison e Maitreyi Ramakrishnan como Ben e Devi (T4) |©Netflix

Particular destaque para um episódio narrado por Andy Samberg, na primeira temporada, apresentado do ponto de vista do eterno rival de Devi, Ben, intitulado “Never Have I Ever …been the loneliest boy in the world”( “Eu Nunca Fui o Rapaz mais Solitário do Mundo”). Aqui, o humor da série, extremamente inteligente, chega ao seu estado de graça. Aqui, o argumento revela a diferença clara entre uma boa série adolescente e uma série adolescente banal.

Com tristeza ocasional bem demarcada, “Eu Nunca…” sabe equilibrar bem a balança e nunca entrar no campo do melodrama adolescente que permeia há décadas a televisão (do seminal “Dawson’s Creek” ao atual fenómeno da Amazon “The Summer I Turned Pretty“). “Never Have I Ever …” é mais humano e real, mas também mais exacerbado do que a maioria dos dramas adolescentes. É também mais inteligente que a maioria das obras que caiem dentro do cânone.

A vida das personagens é repleta e carregámo-las connosco, bem depois de acabarmos de ver as quatro temporadas já emitidas. E para bem dos seus pecados, “Eu Nunca…” consegue também fazer-nos partir o coco a rir. Vai deixar saudades.

TRAILER | EU NUNCA, SÉRIE COMPLETA NA NETFLIX

 

Já viste “Eu Nunca…”, a série adolescente co-criada pela hilariante Mindy Kaling?

Eu Nunca..., série completa em análise
Never Have I Ever o Poster

Name: Eu Nunca...

Description: Eu Nunca… é uma comédia de autodescoberta sobre a complexa vida de uma adolescente indo-americana moderna de primeira geração. A série é protagonizada por Maitreyi Ramakrishnan no papel de Devi, uma estudante sobredotada que se mete em apuros por ferver em pouca água. "Eu Nunca…" foi criada pelas produtoras executivas Mindy Kaling e Lang Fisher, com Fisher a assumir também as funções de diretora de produção.

Author: Mindy Kaling e Lang Fisher

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  • Maggie Silva - 90
90

Eu Nunca...

“Eu Nunca…” é uma narrativa adolescente pouco usual, com um ângulo concreto e muito desenvolvimento das suas personagens ao longo dos anos. Do trauma ao crescimento, Devi é uma personagem plena e irresistível. A sua intérprete central ajuda muito à força do conteúdo, bem como o argumento.

Pros

  • Uma dupla de criadoras à frente de um conteúdo adolescente, que sabem conferir-lhe uma aura de autenticidade inegável;
  • A grande intérprete da personagem central;
  • Um triângulo romântico bem aproveitado, e muito menos desesperante do que muitos encontrados em conteúdo adolescente;
  • O verdadeiro crescimento que se faz sentir ao longo de quatro temporadas.

Cons

  • Muitos mal entendidos para adiar acontecimentos, também conhecido como conveniência narrativa;
  • Alguns dramas familiares arrastados.
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