Ice Merchants © Cinemundo

MONSTRA 2023 | Competição de Curtas 2, em análise

A MONSTRA 2023 continua por Lisboa até ao próximo dia 26 de março. Traz consigo uma programação rica, repleta de obras de animação oriundas de todo o mundo. E como qualquer festival de cinema, parte dos seus momentos altos são reservados às secções competitivas. Hoje, percorremos a Competição de Curtas 2, que exibiu um total de 7 curtas-metragens de animação muito distintas. 

Lê Também:   Porto/Post/Doc ’22 | Ice Merchants, em análise

Curar uma sessão de curtas-metragens, como é esta “Competição de Curtas 2”, exibida nos primeiros dias do Festival, passa em grande parte por escolher um conjunto de filmes distintos entre si, que oscilem entre o mais experimental e narrativo, também capazes de ilustrar vários estilos e técnicas de animação. Esta segunda sessão de curtas internacionais atinge este objetivo com notável sucesso. Passamos agora a analisar as obras analisadas:

COMPETIÇÃO DE CURTAS 2 – PRISÃO EM VOO (SUÍÇA, 2021, 8′)

Competição de Curtas 2 MONSTRA 2023
“Arrest in Flight” |©Adrian Flury

Este filme experimental prepara o palco para uma forma de vida mágica até agora nunca vista. O filme centra-se no caráter não óbvio do movimento quando transferido para um objeto estranho dotado de vida. O movimento nesta improvável animação em stop-motion é deslocado no tempo e no espaço, resultando na explosão do continuum tempo-espacial que irrefletidamente tomamos por garantido.

Com argumento e realização da autoria do suíço Adrian Flury, “Prisão em Voo” arrancou a secção da Competição de Curtas 2 com um dos estilos essenciais de qualquer competição de curtas, o filme experimental. Tipicamente, a curta experimental – que não é capaz de convencer qualquer público – exprime conceitos, ideias, formas ou estilos artísticos sem se focar na história em primeiro plano, muitas vezes rejeitando, de forma parcial ou total, a componente narrativa.

É mesmo isso que acontece neste “Prisão em Voo” (ou “Arrest in Flight”), um filme que valoriza a análise do movimento acima de contar qualquer tipo de história. Para o realizador, o objetivo central do filme relaciona-se com o movimento de corpos pouco óbvios, estranhos, não-usuais. Exibido em palcos celebres como Sundance, Annecy, ou Vienna, “Prisão em Voo” é um objeto ambicioso do ponto de vista conceptual, mas que não consegue mexer com a nossa emotividade (talvez nem o queira fazer!).

Nota: 60/100


SANTO HOLOCAUSTO (ISRAEL, 2021, 18′)

Go FIlms Holy Holocaust
“Santo Holocausto”, obra documental sobre uma inesperada ligação a um criminoso Nazi |
©Go Films

Um segredo de família sombrio do passado é inesperadamente revelado e abre um abismo entre duas amigas íntimas: Jennifer, uma alemã, descobre que é a neta negra de um famoso comandante nazi; Noa, uma israelita, está a fazer tudo o que pode para evitar que a sua vida também se vire do avesso.

A curta mais longa desta sessão, e também aquela com mais notória narrativa, “Santo Holocausto” trata-se de uma curta documental de animação, a qual foi apresentada em sala, no Cinema São Jorge, por uma das suas realizadoras. Da autoria de Osi Wald e Noa Berman-Herzberg, “Holy Holocaust” é um filme charmoso, com animação 3D e música à altura do argumento, que recupera a relação de amizade entre uma jovem alemã e uma israelita. Amigas de longa data, a ligação a um criminoso de guerra nazi cria uma tensão inesperada entre as duas amigas, a qual acabam por não ultrapassar devido aos seus mecanismos bem distintos para lidar com o problema.

“Santo Holocausto” é um filme inesperado acerca de traumas e segredos familiares, pautado por piadas desconfortáveis e silêncios que desejamos ver preenchidos. Com uma dose saudável de humor negro, contrabalançado com bastante emotividade e empatia, “Holy Holocaust” é o tipo de filme que não esperamos acerca desta temática, com um ângulo fresco e fora da norma.

Nota: 80/100


ILUSÃO DE INCIDENTES (POLÓNIA, 2022, 5′)

Ilusão de Incidentes MONSTRA
©MONSTRA

Um homem, como um projecto aberto, está a compor a sua própria viagem, no rasto da procura do seu próprio ritmo no espaço-tempo. Um registo da vida e das suas experiências, emoções e reflexões abstratas, inspirado no livro “Bieguni”, de Olgi Tokarczuk.

“Ilusão de Incidentes”, uma brevíssima curta em exibição nesta segunda sessão de curtas-metragens competitivas, regressa a um universo mais pautado pelo experimental.

Este pequeno filme escrito, produzido, e realizado por Karolina Alicja Dżbik assume-se, antes de mais, como uma verdadeira experiência sensorial, onde a abstração parece dar corpo e forma concreta à sensação de giz sobre papel. Sim, livre de preocupações que se prendam com uma linha narrativa clássica, este filme vence através da experiência sensorial.

A obra destaca-se ainda através de um estilo de animação interessante e bastante vitorioso dentro da sua própria simplicidade, com um traço que simula o carvão e que se adequa, na perfeição, à paisagem sonora da própria curta.

Nota: 70/100


FEIRA DE LIZUNAS (JAPÃO, 2021, 12′)

Competição de Curtas 2 MONSTRA 2023 - Feira de Lizunas
Feira de Lizunas, do Japão ©MONSTRA

No meio de uma noite frenética, um homem encontra-se perdido na fenda do tempo. Não eram seres grotescos nem monstros, mas era ele que “estava lá, mas não estava lá”. Ele era o fantasma. Enterrado sob memórias, cheio de inibições e promessas não cumpridas, o tempo mantém-no à distância do “lugar”. A partir das palavras que desapareceram na costa das praias, o homem ouve poemas que rimam e vêm com as ondas do mar.

Uma obra encomendada por um museu, “Feira de Lizunas” é um festim visual irresistível, capaz de hipnotizar quem vê com as suas cores vibrantes e a sua animação encantadora e pincelada a aguarela.

“Feira de Lizunas”, escrito e realizado por Sumito Sakakibara, afirma-se como um mosaico de cores e como o testemunho dos ritos e modos de lazer de um determinado povo, num determinado momento no tempo. A narrativa começa com um plano fechado, numa casa, com um homem a cortar lenha, enquanto memórias e momentos passados são projectados, com ajuda das chamas, na parede ao seu lado.

O filme transmite a ideia, intencionalmente enganadora, de que iremos focar-nos neste momento durante todo o filme. Mas eis que, a certo ponto, a imagem torna-se mais ampla, capaz de respirar e deslumbrar. De repente, vemos não só a casa mas toda a aldeia, e eis que se encontra a desenrolar uma gigante feira, a tal Feira de Lizunas, uma espécie de “bonfire night” à japonesa. Entre performers de rua, bancas de comida de rua e uma enorme fogueira que tudo parece devorar, um plano muito geral enquadra toda a vila e a animação que se sente nas ruas.

Lentamente, este plano geral vai dando lugar à perspectiva ligeiramente ao lado, à medida que um pan lento, bastante charmoso, nos guia através daquilo que se encontrava previamente fora do enquadramento. E entre memórias, festa e movimento, há ainda tempo para acidentes e imprevistos, numa curta visualmente impressionante, repleta de movimentos de câmara e escolhas estilísticas interessantes, que tornam este quadro vivo extremamente sedutor.

Escrito e realizado, com perícia, pelo japonês Sumito Sakakibara, previamente nomeado a um BAFTA por uma das suas curtas.

Nota: 90/100


A SOMBRA DAS BORBOLETAS (FRANÇA, 2022, 9′)

A Sombra das Borboletas na MONSTRA
©MONSTRA

Numa floresta misteriosa, uma mulher é lentamente atraída para um devaneio nostálgico enquanto observa as borboletas.

Quanto a esta obra de Sofia El Khyari, “L’Ombre des Papillons”, no original, não há verdadeiramente assim tanto a dizer. Aqui, é-nos apresentado um típico enredo metafórico em torno do conceito de metamorfose, numa sequência visual interessante. “A Sombra das Borboletas” é curto mas valoroso, onírico, capaz assim de nos introduzir numa sequência de sonho hipnótica.

A floresta encontra-se imersa pela escuridão, presa num labirinto de memórias e desilusões românticas. Mas, a partir do trauma e da saudade, algo novo poderá surgir na vida da nossa protagonista. Nesta misteriosa floresta, o tom é dominado por uma nostalgia agridoce, onde a linha entre o sonho e a realidade é difícil de definir, onde a fantasia procura superar a dor da realidade, e onde a dor e prazer se interligam. É na floresta que a protagonista escapa à realidade e se prepara, via metamorfose, para um novo estado e para renascer.

Nota: 75/100


DIES IRAE (AUSTRÁLIA, NOVA ZELÂNDIA, 2022, 8′) 

DIES IRAE (AUSTRÁLIA, NOVA ZELÂNDIA, 2022, 8') 
©MONSTRA

Dois anjos brincalhões, sete porcos pecadores, e um pobre e justo transeunte.

Uma co-produção entre os dois grandes países da Oceânia, sem dúvida os 8 minutos mais divertidos que verás na MONSTRA 2023, e certamente a obra mais animada e irónica desta Competição de Curtas 2, “Dies Irae” é uma curta absolutamente deliciosa, na qual dois anjos supervisionam, de cima, a vida na terra.

Numa maquete aberta de casa dos sonhos, em conjunto com os anjos, observamos a vida quotidiana de um conjunto de porcos antropomórficos, à medida que estes roubam, enganam, discutem e matam. Um por um, os porcos sofrem destinos trágico-cómicos, neste pequeno filme onde o humor negro é um trunfo inegável e permanente.

“Dies Irae”, da autoria do Maru Collective, é uma pequena maravilha, perfeitamente deslumbrante e única. Do latim, a expressão remete-nos para uma alusão bíblica e significa, em português, “dia de ira”. Uma expressão mais do que adequada para os eventos fatídicos que vemos desenrolar-se.

Outro elemento bastante interessante prende-se com o facto desta curta ter sido realizada não por um indivíduo, mas antes por um colectivo composto por apaixonados por animação oriundos de vários países.

Nota: 85/100


ICE MERCHANTS (PORTUGAL, FRANÇA, REINO UNIDO, 2022, 14′) 

ice merchants critica porto post doc
© Curtas Metragens CRL / Agência – Portuguese Short Film Agency

Todos os dias, um homem e o seu filho saltam de paraquedas da sua casa fria e vertiginosa, situada no alto de um precipício, para se deslocarem à aldeia que se situa na planície abaixo, onde vendem o gelo que produzem diariamente.

E eis que esta sessão da “Competição de Curtas 2” termina com mais um ponto alto, “Ice Merchants”, realizado por João Gonzalez, célebre na temporada de 2022/2023 por se ter tornado a primeira obra portuguesa indicada a um Óscar (e, já agora, uma das curtas mais premiadas no ano, vencedora de prémios afamados, como por exemplo em Cannes ou em Annecy, os ‘Óscares’ da Animação) – neste caso na categoria de Melhor Curta-Metragem de Animação.

“Ice Merchants” distingue-se através do seu estilo de animação, simples mas ‘limpo’, bem como através da sua palete de cores, centrada nos pretos e vermelhos e antagónica em relação à temática da obra. Isto porque a curta centra a força da sua mensagem na ecologia, entregando um aviso poético e leve, mas claro, em relação aos perigos das alterações climáticas.

Nota: 80/100

Estás a acompanhar a presente edição da MONSTRA? Viste os filmes da Competição de Curtas 2?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *