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O Ritmo de ‘Coda’ até ao Óscares

Como explicar o sucesso de ‘Coda’ ou melhor de ‘No Ritmo do Coração’, desde o seu sucesso com o público em Sundance, até à projecção na Casa Branca, ontem? Será o grande vencedor da ‘Noite dos Óscares no próximo domingo? Veremos?

Coda (as iniciais de Children of Deaf Adults) ou No Ritmo do Coração, no título português, o filme da actriz e argumentista Sian Heder, que se estreou aqui na realização de longas-metragens é um daqueles inexplicáveis casos de sucesso da indústria de cinema norte-americana contemporânea. Começou por ser um fenómeno de audiência no exigente Festival de Sundance 2021, estreou na Apple TV+ e apareceu surpreendentemente na lista de candidatos a melhor filme do ano dos Óscares 2022. E agora, para surpresa de todos, tornou-se um dos mais fortes candidatos ao galardão máximo dos Óscares 2022, pois foi escolhido esta semana, como o Melhor Filme do Ano pela Associações de Produtores e Argumentistas de Hollywood, que normalmente apontam o vencedor. Ontem, salvo erro, toda a equipa foi recebida e o filme foi visto por todo staff, — Joe Biden, inclusive fez uma pausa em relação, às suas ‘preocupações’ com o conflito russo-ucraniano — no cineteatro dentro Casa Branca, em Washington D.C.. Algo diria quase inédito na história da Academia de Hollywood. Com efeito, o filme é um remake da comédia francesa A Família Bélier‘, que Eric Lartigau filmou graciosamente e sem pretensões em 2014 e que acabou por ser um razoável sucesso de bilheteira em França e na Europa.

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VÊ TRAILER DE ‘NO RITMO DO CORAÇÃO’

No Ritmo do Coração conta a história da jovem Ruby (Emilia Jones), a única ouvinte de uma família surda, de um casal e dois filhos. Acontece que a jovem protagonista Ruby, e contra toda suposta lógica genética, não apenas fala e ouve, como também canta em sintonia, com uma vida alegre e despreocupada, mesmo a sendo a única carta fora-do-baralho. Canta muito e sempre muito afinada, ao ponto de se tornar candidata a uma bolsa de pobres — tal como o seu professor mexicano —  para estudar para a universidade e assim ‘libertar-se’ dos condicionalismo familiares. A novidade, em relação à produção francesa é que Sian Heder, leva-a de um ambiente rural da França profunda, para as suas origens, em Cambridge, Massachusetts, centrando a história na vida difícil de uma família de pescadores — proprietários de uma traineira e surdos —  da costa Leste dos EUA, onde como é sabido os sistemas de proteção social, não existem ou, melhor destacam-se pela total ausência. Talvez por isso a Casa Branca fez ontem o seu mea culpa. Vale a pena recordar também, que a bonita e simpática realizadora é responsável pela produção televisiva da Little America (2020, Apple TV +), que, na sua essência, é uma curiosa viagem pelo lado talvez menos óbvio da imigração nos EUA: ‘Little America’ procura ‘ir além das manchetes para olhar para as vidas engraçadas, românticas, sinceras, inspiradoras e inesperadas dos imigrantes na América, em um momento em que suas histórias são mais relevantes do que nunca’. Portanto, em No Ritmo do Coração a realizadora sabe do que está a falar e conhece bem os estragos do neoliberalismo, na América das últimas décadas, que matou completamente o sonho de uma vida melhor, aos mais desfavorecidos.

CODA
A talentosa Ruby Rossi (Emilia Jones), a única falante. ©AppleTV+

Contudo, o que conta em ‘No Ritmo do Coração’  parece ser, acima de tudo, a família. A família, como um refúgio, um horizonte de sentido, um espaço civilizador, um banco de investimentos pessoais de afectos, a custo zero, sem inflações ou concorrência desleal; mas também uma prisão que limita o nosso espaço de crescimento e a nossa individualidade. Por vezes a família até pode-se tornar uma espécie de manicómio de emoções, como é o caso da ilustre e simpática Família Rossi, em alguns dos momentos mais hilariantes do filme. ‘No Ritmo do Coração’ não só se orgulha de jogar neste terreno do familiar e universal, como também é um daqueles filmes que oferece exatamente o aquilo que o espectador quer, deseja e até antecipa em cada plano ou situação. Na melhor das definições é um filme simples, fácil e simpático, que é difícil não gostar, mas daí a ser um dos melhores do ano falta-lhe bastante. De facto, também é bastante difícil entender o seu sucesso desproporcionado, que vai desde importantes festivais de cinema  — saber as audiências do streaming é mais difícil, como se sabia antes os resultados de bilheteira — aos referidos prémios de prestígio — e talvez mais aí virá no próximo domingo — não fosse essa fachada de bons sentimentos e belas intenções, atrás da qual se esconde sobretudo, algo mais grave: uma evidente falta de ideias e falta de apostas de risco dos executivos e criativos da indústria de Hollywood. À falta de melhor faz-se um remake de um sucesso europeu ou um filme de super-heróis. A lista de candidatos a melhor filme já de si este ano não é das mais famosas. Já é assim há algum tempo, e aqui está um bom argumento contra os detractores da qualidade e diversidade do Cinema Europeu.

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Emilia Jones e Troy Kotsur numa das cenas fulcrais de “CODA” |©AppleTV+

Digamos que ‘No Ritmo do Coração’ pertence à partida aquele tipo de produções cujo único, ou mais óbvio, propósito é fazer o público sentir-se bem, passar um bom bocado, como se estivesse a assistir ao The Voice ou aos dramas tipo ‘Casos de Vida’. E isso não é propriamente mau e faz bem à saude mental, sobretudo,  nos tempos que correm, um pouco de esperança faz muito bem. Além disso, os actores são fabulosos nos seus papéis e nos diálogos em linguagem gestual, a começar pela lendária Marlee Matlin — lembrei-me agora dela em Filhos de um Deus Menor, em 1986, ao lado do recém-falecido William Hurt no papel da agitada mãe, de Troy Kotsur no inefável e carinhoso pai ou de Daniel Durant, no pragmático e inteligente irmão da talentosa Ruby Rossi (Emilia Jones), a única falante. Porém, o objetivo ou melhor a pretensão do filme parece também ser o contrário do entretenimento. É antes, tornar-se um filme político, para denunciar de uma forma amarga, toda a sociedade americana e as injustiças que ela causa, sobretudo sobre esta família mais desprotegida do que as outras. Mesmo com um insistente estilo quase documental, — mas muito longe da narrativa de um ‘Nomadland- Sobreviver na América’ — em boa parte do filme, continua a não se perceber até que ponto é justificável este remake americano do singelo  ‘A Familia Bélier’. Eles lá sabem ! Porém preparem-se pois o filme poderá ser a surpresa da Noite dos Óscares do próximo domingo? On vera? Está disponível na plataforma de streaming Apple TV+.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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