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Opinião | 2019: A Odisseia da Netflix

‘Roma’, de Alfonso Cuarón estreou ao mesmo tempo em sala e na Netflix e outros filmes se seguirão na mesma lógica de distribuição. As polémicas parecem estar já longe e 2019 será o ano da consolidação da plataforma digital da Netflix e de outras…e o cinema não vai morrer.

A estreia mundial de ‘Roma’, de Alfonso Cuarón, simultaneamente em sala e na Netflix, a plataforma acessível a todos os utilizadores-assinantes, a partir de qualquer dispositivo digital (computadores, smartphones ou tablets) incluindo as televisões, veio mostrar até que ponto a distribuição e consumo de cinema vivem actualmente uma transformação irremediável. Isto, tanto no modelo de negócio, como nos hábitos dos espectadores. E é mesmo uma enorme mudança desde há algumas décadas, onde as cassetes e mais tarde os DVD, tinham que respeitar as janelas de exibição.

‘Okja’, do coreano Bong Joon Ho foi dos primeiros filmes a estrear em streaming e nas salas.

Não foi o primeiro de uma estreia numa plataforma VOD e em salas comerciais — como aconteceu o ano passado com o espectacular ‘Okja’, do coreano Bong Joon Ho —, só que com ‘Roma’, tornou-se inevitável, até porque o filme demonstrou que nada ficará como antes, ao nível da produção internacional de Hollywood e de filmes independentes. Além de ‘Roma’, o Festival de Veneza 2018 estreou mais 3 filmes produzidos pela própria Netflix: ‘O Outro Lado do Vento’, a obra inacabada de Orson Welles, Paul Greengrass, realizador de Jason Bourne, apresentou ’22 July’, e em competição ‘A Balada de Buster Scruggs’, o western em capítulos dos Irmãos Coen. Mas nenhum se compara aos planos suaves, lentos, aos detalhes a preto e branco, em 65 mm de Cuarón em ‘Roma’, que nos levam a mergulhar profundamente no quotidiano rotineiro de Cleo, a empregada de origem indígena, que vive na moradia de uma família abastada num selecto bairro da capital mexicana. Pode parecer estranho e mesmo uma ironia que esta proposta intimista do realizador, mais adequada a uma sala de cinema convencional,  e com o brilho de uma projecção num grande ecrã, possa entretanto ser desfrutada igualmente num televisor ou num telemóvel, dando a possibilidade ao espectador até de fazer uma pausa para interromper essa experiência, que é efectivamente de uma rara beleza cinematográfica.

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Gravidade
‘Gravidade’ (2013), de Alfonso Cuarón um filme feito para ser visto em grande ecrã.

Talvez isso não fizesse tanto sentido para ‘Gravidade’ (2013), o filme anterior de Cuarón, uma odisseia no espaço, em grandes dimensões protagonizado por George Clooney e Sandra Bullock, que é um filme feito inclusive para um IMAX. Contudo e com conhecimento de mercado seria pouco provável que um filme mexicano a preto e branco, falado em espanhol e mesmo de um realizador muito conhecido como Alfonso Cuarón, que trabalha sobretudo em Hollywood e já ganhou Óscares, tivesse uma distribuição e exibição internacional tão ampla como tem com a Netflix; e dificilmente esta obra conseguisse chegar à lista de nomeações aos Óscares de Melhor Filme em Língua Estrangeira e com possibilidades de ser ainda nomeado para Melhor Filme, no próximo dia 22 de Janeiro.

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‘Roma’, é uma pérola intimista e autobiográfica e um verdadeiro hino ao amor e ao cinema.

A Netflix como produtora do filme permitiu ainda que o filme fosse ante-estreado no Festival de Veneza 2018 onde teve a ressonância de uma vitória do Leão de Ouro — e um forte apoio da crítica — em outros festivais como o LEFFEST em Lisboa; e depois numa das últimas estreias do ano, em várias salas de cinema, que habitualmente estreia filmes mais comerciais.  Como em todas as mudanças, há as inevitáveis resistências — como foram as velhas do mudo para o sonoro — mas neste início de 2019, estamos no olho do furacão, com muitas alterações e ofertas que se avizinham nos hábitos cinéfilos. É o mesmo que dizer que estamos numa transição que evolui a um grande velocidade — muito maior que as mudanças anteriores, graças às novas tecnologias e à internet — e talvez até os espectadores mais conservadores, nos modos de ver cinema, se sintam um pouco perdidos, tal como o astronauta Dave Bowman em ‘2001-Uma Odisseia no Espaço’ (1968), de Stanley Kubrick.  Quer se queira ou não, 2019, vai tornar-se uma odisseia para o mercado de cinema, com uma espécie de monólito, que corresponde a um passo para o desconhecido, para todos os players — salas, espectadores, críticos, festivais, distribuidores, academias, cinematecas e legisladores. Um período que vai exigir ao mesmo tempo uma profunda reflexão sobre esta nova realidade e um novo ecossistema cinematográfico resultante destas rápidas mudança tecnológicas.

‘2001: Odisseia no Espaço’ (1968), de Stanley Kubrick, uma viagem para ver no grande ecrã.

Como vão funcionar por exemplo as selecções oficiais dos festivais de cinema? Este é apenas um exemplo a pensar. No entanto, uma coisa é certa, não será a Netflix a por em causa o cinema independente ou produções mais artísticas. ‘Roma’, é um bom exemplo e ganhou até mais visibilidade, com a plataforma. Aliás o mesmo aconteceu como o mockumentary ‘O Outro Lado do Vento’, a obra perdida e póstuma de Orson Welles, que a Netflix recuperou e trouxe aos nossos olhares, pela mão do veterano realizador Peter Bognadovitch, que já se rendeu às vantagens da Netflix. Para os cineastas-autores trata-se obviamente de uma forma mais alargada de chegarem ao público-espectadores!

The Other Side of The Wind, Orson Welles, Netflix
The Other Side of The Wind

O cenário de catástrofe e a polémica alimentada pela posição do Festival de Cannes de recusar filmes em competição de produção Netflix nos últimos dois anos, de que os serviços de streaming iriam matar as salas de cinema e a distribuição convencional foi marcante, criou uma discussão inevitável e importante. O argumento assentava na questão da diversidade de filmes — e séries de televisão que cada vez mais têm o apego dos espectadores e estas sim pela sua qualidade podem ser concorrentes dos filmes — disponíveis na plataforma e como ela iria prejudicar a distribuição tradicional.

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‘Black Panther’, um recordista de bilheteira que prova que o cinema não morreu para Netflix.

A Netflix possibilita que as pessoas desfrutem das obras em estreia, no conforto das suas casas, tal como nas salas. Para tirar dúvidas em relação ao futuro que se avizinha, um estudo realizado pela Quantitative Economics and Statistics, da consultora EY (ex-Ernst & Young.) vem refutar qualquer visão catastrófica do mercado de cinema, pelo menos nos EUA. Onde obviamente a economia de escala é muito grande e não se pode comparar com a Europa ou Portugal. Mas vamos achar por seguir a tendência. O estudo foi encomendado pela National Association of Theater Owners, como o nome indica uma associação de proprietários de salas de cinema, e por isso está acima de qualquer suspeita, principalmente para quem acredita que é importante haver alternativas complementares à distribuição independente e até à forma de organização e selecções dos festivais internacionais de cinema. O estudo prova que as pessoas que vão mais vezes ao cinema, são precisamente as que mais consumem conteúdos em streaming, por isso ‘cinéfilos pesados’, o que não parece grande novidade. Entre os cerca de 2500 inquiridos de várias idades, neste estudo realizado em novembro de 2018, e que tivemos acesso em resumo, as pessoas que foram ao cinema nove ou mais vezes nos últimos doze meses são igualmente os que passam em média 11 horas nas plataformas de streaming. Os que foram apenas uma ou duas vezes ao cinema passam apenas sete horas; quase metade das pessoas que não foram às salas também não assistiram a conteúdos online. O estudo vale o que vale, mas é uma referência importante mesmo com a diferença de conjunturas.

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No cinema de 2018, os Queen e Freddie Mercury foram um dos reis das bilheteiras de cinema.

Parece mais que evidente que a mudança é inevitável com ameaças e oportunidades para todos os envolvidos. A Netflix é uma revolução mas obviamente não vai matar as salas de cinema convencionais. O grande indicador é que as receitas da indústria de cinema vão certamente bater recordes globais em 2018. Curiosamente o fenómeno não é extensivo a Portugal, onde o número de espectadores nas salas de cinema voltou a cair. No mundo inteiro os espectadores foram às salas de cinema para ver Vingadores’, ‘Black Panther’, ‘The Incredibles 2: Os Super-Heróis’ ou ‘Bohemian Rhapsody’,  já que os filmes independentes contam muito pouco para esta contabilização de receitas. Mas é igualmente um momento de reflexão para a indústria e para a mudança de paradigmas: e a dupla estreia de ‘Roma’ em sala e streaming é um bom exemplo de conciliação, mas há que ter em conta o aumento da quota de mercado das séries de televisão, que têm cada vez mais qualidade e se aproximam do cinema e até que ponto faz sentido existir modelos de distribuição convencionais para o cinema. Não esqueçamos que para uma boa parte dos verdadeiros cinéfilos, para quem o cinema é uma magia, e ainda são muitos, ver cinema nas salas e num grande ecrã, é obviamente uma outra coisa. Mas temos que nos adequar ao sinal dos tempos!

José Vieira Mendes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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