Jesse Plemons e Kirsten Dunst em "O Poder do Cão" © Cross City Films Limited/ Netflix

O Poder do Cão, em análise

“Estrela Cintilante” (2009) foi o último filme realizado por Jane Campion, realizadora que já ia num hiato de 12 anos. A cineasta é uma das apenas sete mulheres a serem nomeadas para Melhor Realizador(a) nos Óscares, bem como a primeira realizadora a ganhar a Palme d’Or – estas duas conquistas foram para “O Piano” de 1993.

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Não sei se é devido à sua longa paragem, mas “O Poder do Cão” é minha primeira experiência com a filmografia de Jane Campion. Portanto, as minhas expetativas foram muito baseadas no feedback de festivais, no elenco e no inevitável ​​burburinho que praticamente todos os filmes lançados nesta altura recebem. Como fã de westerns, estava curioso para ver se esta adaptação da obra de Thomas Savage traria algo novo para o género.

Visualmente, este é um dos filmes mais deslumbrantes do ano. Costumo desconfiar das pessoas quando afirmam que uma obra cinematográfica é “bonita”, visto que este adjetivo é “atirado” de forma demasiado casual hoje em dia. A qualidade de imagem e de som melhorou drasticamente na última década, tal como a evolução exponencial dos efeitos visuais, logo já não é tão comum testemunhar uma longa-metragem verdadeiramente horrenda em termos visuais. No entanto, “O Poder do Cão”, sem dúvida, merece este elogio em particular. Ari Wegner (“Zola”) oferece imagens absolutamente lindas, semelhantes a pinturas belíssimas, de todos os ângulos. Desde os close-ups íntimos em cenas incrivelmente tensas aos planos amplos inspiradores, o trabalho de câmara persistente é elevado pela montagem minimalista mas essencial, de Peter Sciberras (“The King”).

Campion tira o melhor partido da sua equipa técnica, usando a cinematografia merecedora de prémios para atrair o público para mais perto das personagens complexas. Os interiores escuros e frios contrastam com as paisagens largas e de fazerem cair o queixo de uma forma notável. A banda sonora imersiva de Jonny Greenwood (“Spencer”) envolve os espetadores com uma atmosfera pensativa que, por vezes, pode parecer um pouco longa e entediante, arrastando a peça geral. No entanto, é o argumento de quatro atos e o seu desenvolvimento de personagem requintado que torna “O Poder do Cão” num dos mais concorrentes mais fortes do streaming esta temporada competitiva.

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Benedict Cumberbatch em “O Poder do Cão” | ©KIRSTY GRIFFIN/NETFLIX

Como alguém que não possuía qualquer conhecimento sobre a obra original, trailers ou mesmo sobre o que o filme realmente abordava, senti a primeira metade sem rumo e parcialmente confusa devido à rapidez com que alguns pontos de enredo foram sendo resolvidos. O tempo flui de uma maneira estranhamente rápida, mas o ritmo do filme é propositadamente e continuamente lento. Dividido em quatro atos explicitamente definidos por cartões, só quando o filho de Rose, Peter – interpretados por Kirsten Dunst (“Woodshock”) e Kodi Smit-McPhee (“X-Men: Fénix Negra”), respetivamente – chega ao rancho para as férias de verão é que a história começa a avançar através de desenvolvimentos surpreendentes com um objetivo claro e chocante. Em retrospetiva, a primeira metade é, de facto, muito importante para estabelecer as inúmeras diferenças entre os irmãos, Phil (Benedict Cumberbatch) e George (Jesse Plemons).

Enquanto George é um homem gentil, decente e apresentável que trata as mulheres com o máximo respeito, Phil é o completo oposto: uma presença masculina cruel, rude e desprezível que se recusa a tomar banho ou a mostrar qualquer tipo de fraqueza. “O Poder do Cão” é uma narrativa tematicamente rica sobre masculinidade (tóxica), ciúmes, ressentimento, bullying e também aborda um tópico sensível e inesperado que prefiro que os leitores vivenciem por si próprios sem conhecimento prévio – está um tanto presente nos trailers, mas considero uma pista demasiado sugestiva para um dos maiores spoilers do filme. Independentemente disso, é o tema da masculinidade que rouba os holofotes. Desde o seu verdadeiro significado às perceções de outras pessoas, a definição de “ser homem” é examinada através de uma história complexa e instigante.

Apesar da narrativa decorrer em Montana de 1925, a ideia de que para ser um homem é preciso ser forte, independente, corajoso, confiante e mostrar níveis significativos de masculinidade ainda se encontra presente nos dias de hoje, embora admitidamente mais como um estereótipo do que como um princípio básico de vida. Phil e Peter são os melhores exemplos do famoso ditado “não se deve julgar um livro pela capa”. Estes dois personagens partilham um arco emocionalmente convincente que aprofunda o que os mesmos entendem como fraquezas, apesar de levar a uma conclusão algo anti-climática, considerando o drama western não convencional. No final, as prestações transformam o que seria um “bom filme” numa obra para os estúdios publicitarem nesta época de cerimónias.

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Benedict Cumberbatch (“Vingadores: Endgame”) pode mesmo ter apresentado a sua melhor performance da carreira. Todo o elenco oferece interpretações repletas de subtilezas, mas Cumberbatch brilha num papel complexo onde o personagem é dominado por sentimentos pesados ​​como amor, luto, ciúme, raiva e incerteza, mas não pode, na verdade, mostrar nada disso. Então, Phil torna-se no epítome de um homem tóxico, que comete bullying psicológico com Rose, constantemente chama o seu irmão uma variação de “gordo” e goza com os maneirismos de Peter, tudo para esconder o que ele reconhece como sentimentos pouco másculos. Sem dúvida, o destaque de um filme que pode dar ao ator britânico a sua segunda nomeação para um Óscar.

Kodi Smit-McPhee é excelente como Peter, um jovem que se entretém com atividades que a maioria dos homens não se interessa na sua idade, como construir flores de papel ou brincar com um hula hoop. Contudo, torna-se gradualmente percetível que o personagem segue o mesmo arco de Phil, apenas na direção oposta. Quando os seus arcos se cruzam, o filme oferece alguns dos momentos mais cativantes e tensos de todo o tempo de execução. Jesse Plemons (“Faminto”) e Dunst partilham uma boa química, embora a atriz claramente se coloque uns níveis acima ao entregar um desempenho fantástico como uma viúva e mãe com problemas crescentes de alcoolismo e sofrendo de violência doméstica. Thomasin McKenzie (“A Noite Passada em Soho”) surpreendentemente aparece, mas já é algo sobrequalificada para um papel tão irrelevante.

“O Poder do Cão” também participou no festival LEFFEST’21, onde poderão ler a crítica de Cláudio Alves.

O PODER DO CÃO | JÁ CHEGOU À NETFLIX PORTUGAL 

O Poder do Cão, em análise
O Poder do Cão

Movie title: O Poder do Cão

Movie description: O carismático rancheiro Phil Burbank (Benedict Cumberbatch) semeia medo e respeito em todos os que o rodeiam. Quando o seu irmão volta a casa com a nova esposa e o filho dela, Phil atormenta-os até ver que pode não escapar à mira do amor.

Date published: 1 de December de 2021

Country: EUA

Duration: 127'

Director(s): Jane Campion

Actor(s): Benedict Cumberbatch, Kirsten Dunst, Jesse Plemons, Kodi Smit-McPhee

Genre: Western, Drama, Romance

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  • Manuel São Bento - 75
  • Virgílio Jesus - 80
78

CONCLUSÃO

“O Poder do Cão” é um estudo profundo e instigante sobre masculinidade (tóxica), rodeado por prestações excecionais e uma cinematografia genuinamente deslumbrante. Jane Campion quebra o seu hiato de realização de mais de uma década, regressando com uma visão não convencional do género western, repleta com temas ricos e pesados, todos desenvolvidos através de arcos de personagem extraordinários e emocionalmente poderosos. Apesar do ritmo ocasionalmente monótono e da conclusão algo desapontante, a narrativa em camadas contém vários tópicos interessantes que Benedict Cumberbatch e companhia abordam em interações incrivelmente tensas através de uma câmara persistente, montagem minimalista e música contemplativa. A primeira metade não possuir um rumo definitivo pode ser apenas um problema de primeira visualização, mas nada que prejudique severamente a peça geral. Um candidato a vários prémios que definitivamente recomendo assistir, mais do que uma vez.

Pros

  • Narrativa tematicamente muito rica, com foco maior na masculinidade (tóxica).
  • Prestações do elenco, especialmente a de Benedict Cumberbatch.
  • Cinematografia belíssima de arregalar os olhos.
  • Banda sonora imersiva.
  • Arcos de Phil e Peter bem aprofundados, com interações tensas e momentos extremamente cativantes.

Cons

  • Primeira metade peca pela falta de um rumo ou objetivo claro.
  • Ritmo propositadamente lento torna-se ocasionalmente entediante.
  • Falta ao terceiro ato um fim mais catártico.
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Manuel São Bento

Um jovem engenheiro de 27 anos com uma paixão pessoal por cinema, televisão e a arte de filmmaking. Opiniões baseadas numa perspetiva imparcial de quem não vê trailers desde 2016. Membro de associações de críticos internacionais como GFCA, IFSC e OFTA. Podem encontrar-me em qualquer rede social através de @msbreviews.

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