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Um Iaque na Sala de Aula, em análise

Aos ecrãs nacionais chegou “Um Iaque na Sala de Aula”, uma obra do premiado cineasta Pawo Choyning Dorji que acompanha um jovem professor da zona moderna do Butão.

QUASE, QUASE… NO TOPO DO MUNDO!

Um Iaque na Sala de Aula
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Há uns anos, um comandante da marinha mercante contou-me uma história que, segundo ele, os marujos usavam como parábola para descrever o sentimento dos marinheiros que perdiam as graças do mar. Rezava assim: cansado da vida marítima, um velho lobo do mar pegou num remo, pô-lo ao ombro, deu corda aos sapatos e iniciou uma viagem a pé por esse mundo fora. Mas por onde passava havia sempre alguém que perguntava que coisa andava ele a fazer com aquele remo pesado e sem par, ainda por cima inútil porque não se vislumbrava por ali barco nenhum. Desolado, o marinheiro estava prestes a desistir do seu périplo quando um cidadão mais sábio lhe explicou que, se queria mudar alguma coisa na sua vida, precisava era de ir para longe da costa. Naturalmente, perto do mar as pessoas sabiam reconhecer a diferença entre um remo e um simples pedaço de madeira. Por isso fez-lhe a proposta de mudar de rumo, e deu-lhe como exemplo subir uma montanha, uma que fosse bem alta e lá para o interior do continente. E assim fez o nosso homem. Passadas algumas semanas alcançou finalmente, numa mistura de suor e força de vontade, um lugar a que alguns chamariam o “cu de judas”. Foi aí que o marinheiro cruzou o seu caminho com o de um aldeão, que a medo lhe perguntou: “Mas que raio de coisa leva o senhor ao ombro…?” O nosso homem sorriu de orelha a orelha e decidiu imediatamente que era ali que ia ficar e era ali que desejava acabar os seus dias. Para ele, aquele espaço perdido que nem sequer vinha no mapa era um autêntico paraíso onde, assim esperava, ninguém se iria lembrar de puxar conversa para qualquer assunto sobre coisas do mar. Moral da história, entre outras conclusões possíveis: muitas vezes, precisamos de ir longe para encontrar o que desejamos e viver a vida que realmente nos seduz, longe das rotinas do quotidiano. Ou como se diz no cartaz do filme: “Encontra o que procuras no lugar que menos esperas”.

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De facto, mesmo antes de ler essa frase, lembrei-me desta história durante o visionamento de LUNANA: A YAK IN THE CLASSROOM (UM IAQUE NA SALA DE AULA), 2019, escrito e realizado por Pawo Choyning Dorji, que não fala de marinheiros nem de remos nem do mar, mas sim de um rapaz, Ugyen (interpretado pelo estreante Sherab Dorji), professor e funcionário ao serviço do governo do Reino do Butão que, contra a sua vontade, será recrutado para ir dar aulas em Lunana, uma aldeia remota daquele país interior situado no extremo leste dos Himalaias. O Butão faz fronteira a Norte com a República Popular da China, a Sul, Leste e Oeste com a União Indiana, mais a Oeste está separado do Nepal pelo Estado Indiano do Siquim, mais a Sul está separado do Bangladesh pelos Estados Indianos de Assam e Bengala Ocidental. O referido rapaz, protagonista desta ficção (nomeada em 2022 para os Óscares na categoria de Melhor Filme Internacional), vive a sua vida perfeitamente ocidentalizada em Thimbu, capital do país que muitos conhecem igualmente pelo significado literal do seu nome em butanês, ou seja, Terra do Dragão. Se a grande cidade apresenta o perfil que qualquer cidade do primeiro mundo, ou aparentada com este, gosta de ostentar, habitualmente descartando a sua herança histórica e cultural a favor da massificação e uniformização dos gostos importados das placas giratórias da globalização a qualquer preço, já o interior do Butão não se orienta pelo mesmo diapasão redutor. Nem sequer o nível de desenvolvimento se processa com a mesma velocidade e de forma equitativa, sendo algumas regiões autênticos museus vivos de práticas ancestrais misturadas com inúmeras carências de natureza material mas, felizmente, muito fortes e seguras no plano espiritual. Neste último domínio, as manifestações do que de melhor a natureza humana possui são assumidas sem esforço, falsos sorrisos, ou hipocrisias dissimuladas por aqueles que ali se debatem com condições difíceis, devido em grande parte ao isolamento, e que no seu quotidiano frugal contam sobretudo com a natural amizade e solidariedade entre homens e mulheres. Dito isto, não será o Shangri-Lá da fábrica de sonhos de Hollywood, mas não fica muito longe do conceito associado a esse espaço mítico, sendo um local muito mais modesto mas seguramente mais verdadeiro aquele para onde Ugyen se desloca. No filme veremos como o relutante professor não consegue a princípio abandonar as suas rotinas, nomeadamente a obsessão pelas mensagens electrónicas, sempre com os auscultadores enfiados na cabeça para ouvir as músicas em voga, e uma das sequências simultaneamente mais amargas e divertidas desses “vícios” modernaços acontece em Gasa, onde o autocarro o deixa e onde ele irá começar a perceber que o seu confortável mundo está a ficar cada vez mais distante. Descobre que a rede se foi, logo, wi-fi…bye bye, e a electricidade nem sempre está disponível. Por isso, carregar o iPhone… esqueçam! Depois, Ugyen inicia a pé uma longa jornada de oito dias, sofrendo os horrores de quem nunca foi obrigado a caminhar por montes, vales e florestas, mesmo usando os sapatos, ou melhor, as botifarras chiques que as estrelas de cinema recomendam e que ali não servem para grande coisa, comparadas com umas simples e proletárias galochas. Neste percurso, o futuro professor da escola designada como a mais remota do mundo será acompanhado por dois rapazes, Michen (um magnífico Ugyen Norbu Lhendup) e Singye (Tshering Dorji) que, na sua franqueza e disponibilidade, mostram o que de melhor o povo das montanhas oferece aos que o visitam, e neste caso ao que eles esperam ir ser o homem e professor capaz de ensinar as suas crianças de modo a que possam um dia “Tocar o futuro”, como alguns habitantes irão definir de forma singela o papel de Ugyen na escola de Lunana. Percurso quase sempre a subir e, pior do que isso, sempre cada vez mais alto o que, para quem não saiba, constitui para quem vive habitualmente a baixa altitude um sacrifício brutal. Sei bem o que se sente porque sofri várias vezes de cansaço extremo, não nos Himalaias mas nos Andes. Sempre que via as populações locais a correr alegremente de um lado para o outro, dizia para mim: devem ser de outro planeta… e são: de um planeta a quatro, cinco mil ou mais metros acima do nível do mar. Garanto-vos, é um outro mundo. Os pulmões dos que lá nasceram e vivem devem ser maiores do que os dos que vivem nas costas marítimas, para poderem aguentar o ar rarefeito de oxigénio.

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Nas imediações da aldeia de Lunana, a duas horas da dita e onde os habitantes foram receber respeitosamente o professor, Ugyen recebe pela primeira vez um sinal do que representa para aquele colectivo de poucas pessoas a sua desejada vinda. Neste ponto, na verdade o portal de entrada para esse outro mundo, o modo como esta recepção foi encenada pelo realizador não esconde o que o argumentista e autor desejara desde cedo destacar: o contraste entre o desdém até ali demonstrado pelo rapaz, que rejeitara a comida local, criticara os seus guias e recusara os rituais religiosos budistas que ali se praticam (nomeadamente a colocação de uma pedra num santuário com o objectivo de proteger os que por ali passavam) e a pura dignidade de quem o acolhe e que não lhe pede mais do que ele possa oferecer. E a gratidão do chefe da aldeia, o brilho no olhar dos homens, das mulheres e das crianças, são como suaves bofetadas de luva branca que, mais para diante e uma vez instalado nas parcas instalações da aldeia, o professor irá interiorizar, pouco a pouco, até aceitar a sua estadia como o princípio e o fim de uma peregrinação física, que deu lugar a uma outra interior, onde se irá descobrir a si próprio num contexto novo, que não precisa necessariamente de rejeitar o velho. Uma descoberta pessoal e uma lição para a vida que o fará pensar duas vezes antes de decidir regressar a Thimbu, onde irá aproveitar o visto para a Austrália, a viagem que planeara anteriormente em busca do “sonho australiano”, leia-se, fazer a viagem errada para uma ilusória felicidade e para um mais do que duvidoso bem-estar material.

Um Iaque na Sala de Aula
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Num qualquer bar de Sydney, as derradeiras imagens de UM IAQUE NA SALA DE AULA mostram Ugyen a cantar uma musiquinha anglo-saxónica para uma multidão que pouca ou nenhuma atenção lhe dá. Cala-se de repente – silêncio e espanto dos clientes – e pouco depois reinicia a sua actuação com uma antiga canção que aprendera em Lunana. Desta vez canta na sua língua natal e o derradeiro plano, que deixa a narrativa em aberto, mostra-nos a sala de aula onde muitas memórias ficaram. Memórias dos poucos mas bons alunos e da luminosa Pem Zam, uma rapariguinha que ronda os sete anos e que mais parece, na sua delicada inteligência e personalidade, a personificação de uma flor rara dos Himalaias. Memória de Asha (Kunzang Wangdi), o velho senhor da aldeia que exerce, na sua subtil atitude de chefe, a arte do equilíbrio existencial. Memória dos já citados Michen e Singye, dois pastores de iaques e os braços esquerdo e direito de Asha e seguramente os seus sucessores em Lunana. Memória ainda, e que bela memória, de Saldon (interpretada por Kelden Lhamo Gurung), a jovem sedutora e misteriosa que Ugyen encontra a cantar no alto de um monte com vista para as montanhas cobertas de neve e com quem aprende o refrão da canção que ouviremos no final, a “Yak Lebi Lhadar”, expressão musical e emotiva do laço sagrado que une os pastores aos seus iaques, os animais mais comuns e indispensáveis naquelas longínquas paragens. Por fim, memória do iaque na sala de aula, um corpulento bicho que para ali foi, oferecido por Saldon, uma dádiva que uniu a alma dos que não chegaram a ser amantes, mas seguramente irão partilhar para sempre um lugar especial no coração. Estas são as memórias que aqui resumo e para as quais convido os espectadores que se dispuserem a partilhá-las com o protagonista e os habitantes de Lunana.

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Nos dias que correm e num mundo voltado do avesso, não me importava nada de ir dar aulas numa aldeia a mais de cinco mil metros de altitude, onde um iaque pastasse pachorrentamente no chão de madeira e no interior de uma sala de aula. Em plena comunhão com os alunos, que assim podia preparar para um dia poderem TOCAR O FUTURO.

Um Iaque na Sala de Aula, em análise
Um Iaque na Sala de Aula

Movie title: Lunana: A Yak in the Classroom

Director(s): Pawo Choyning Dorji

Actor(s): Sherab Dorji, Ugyen Norbu Lhendup, Kelden Lhamo Gurung

Genre: Drama, 2022, 110min

  • João Garção Borges - 70
  • José Vieira Mendes - 75
73

Conclusão:

PRÓS: Em 2022, foi a primeira longa-metragem do Reino do Butão a ser nomeada para os Óscares, acabando por integrar a lista dos cinco finalistas.

Na verdade, o filme possui a verdade nua e crua das narrativas que jogam na dialéctica entre a maior simplicidade de meios ao nível dos valores de produção, e não estamos aqui a falar só de dinheiro, e as estruturas mais complexas dos projectos de ficção que procuram ser relevantes do ponto de vista social e cultural num determinado contexto geo-estratégico.

Um filme ideal para a grande família, cinéfila e não só. Filmes assim fazem falta para fugir ao modelo 100 planos por minuto mais as cascatas de decibéis, que farão as delícias futuras dos fabricantes de aparelhos auditivos, patente numa grande parte das produções ditas de acção. Neste caso, a acção rima com emoção.

CONTRA: Ser longe que se farta. Se não fosse, ia até lá para ver de perto o iaque na sala de aula e passar um bom bocado rodeado por aquelas gentes e pela imponência daquelas montanhas que circundam Lunana, onde a proximidade das nuvens parece dar-nos a sensação de podermos dizer, como na composição do Jimi Hendrix, “S’cuse me while I kiss the sky”.

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