Emily Blunt | © NOS Audiovisuais

Um Lugar Silencioso 2, em análise

“Um Lugar Silencioso 2” chega às salas de cinema nacionais a 27 de maio de 2021, depois de vários adiamentos. A narrativa continua a acompanhar a (desta vez não tão) silenciosa luta pela sobrevivência travada pela família Abbott, num cenário pós-apocalíptico onde a humanidade permanece a moeda de troca mais valiosa. 

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“A Quiet Place Part II”  viu o estonteante resultado de bilheteira e apreciação crítica do seu antecessor como a raison d’être para a sua concretização. Tendo em conta que a primeira parte da história não tinha em vista uma continuação, seria expectável instalar-se a síndrome de sequela. Conseguiu-se suplantar a lufada de ar fresco que foi “Um Lugar Silencioso” (2018)?

Um Lugar Silencioso 2
Millicent Simmonds e John Krasinski em “Um Lugar Silencioso 2” |© 2019 Paramount Pictures

Apesar de não reinventar a roda, a longa-metragem é sem dúvida uma proposta competente e uma empolgante experiência cinematográfica (de sala). O franchise continuará para lá deste capítulo, com uma terceira e última parte já alinhavada, a qual poderá ou não ser uma continuação direta da história dos Abbott. John Krasinski, que ainda aparece brevemente em “Um Lugar Silencioso 2”, numa sequência inicial de flashback, deixará a cadeira da realização e argumento que tem vindo a ocupar até ao momento e ficará ligado ao projeto de forma menos direta. O seu leme ficará a cargo de Jeff Nichols (responsável pelo grande drama sci-fi “Procurem Abrigo)”, a quem o projeto assenta na perfeição. Quiçá venha a fechar em chave de ouro!

Um Lugar Silencioso 2
Um Lugar Silencioso 2 | © NOS Audiovisuais

Depois do climax inesquecível  e trágico do filme de 2018, o núcleo familiar que foi todo o universo da primeira obra é confrontado com a necessidade de abandonar a quinta e continuar estrada fora. Progredimos com Evelyn (Emily Blunt), Regan (Millicent Simmonds) , Marcus Abbott (Noah Jupe) e o bebé nascido na mais memorável e poderosa cena da primeira longa-metragem – o “parto em silêncio”.

Se antes o mundo estava reduzido a esta família, agora exploramos o terren0 pantanoso que é viver num regime depois do “fim dos tempos”. Algures entre os lugares-comuns do género do filme de zombie e os associáveis à narrativa alienígena, “Um Lugar Silencioso 2”  perde criatividade e remete-nos para pré-conceitos associáveis a cânones da cultura da ficção científica e terror. Não obstante esta limitação, Krasinski não se esquece da abordagem que tornou o capítulo inaugural tão valoroso. A desumanização nunca se apodera da história, continuando a esperança e resiliência a falar mais alto.

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A sonoplastia e o conceito tão particular vêem-se, contudo, destituidos do mesmo poder numa longa-metragem mais ruidosa e frenética. Não é dado o mesmo valor à instrospeção, optando-se pela criação de um produto que bebe muito mais do género da ação.  Já para lá do rótulo limitativo do  terror que por vezes recebe, “Um Lugar Silencioso 2” é um thriller repleto de momentos de carga emocional assinaláveis.

filmes adiados lugar silencioso
Cillian Murphy em “Um Lugar Silencioso 2” | © NOS Audiovisuais

Não é invulgar a ação motivar o argumento (onde na primeira parte, em 2018, era precisamente observado o inverso). Há mais “last minute rescues” (resgates de última hora), conveniências narrativas que propelam eventos-chave, e em geral a escrita parece-nos mais desinspirada. Isto quando comparada com a muito mais célere e emocionalmente angustiante história que nos foi anteriormente contada.

“A Quiet Place Part II” não deixa de ser um bom filme de sobrevivência. É de certo muito melhor que outros aos quais foi já comparado, como o lamentável fenómeno “Às Cegas” (Bird Box). Dito isto, a sequela repete vários dos seus maiores trunfos e perde algo com a excessiva auto-referenciação. Nos objetos seguidos pela câmara encontramos marcas de nostalgia face aos eventos do passado, quase como se esta segunda parte soubesse estar condenada a viver na sombra da primeira.

O inesquecível Cillian Murphy é-nos introduzido como Emmett, um antigo amigo dos tempos da normalidade. Este grande ator, experiente no género apocalíptico( que saudades de “27 Dias Depois), imiscuí-se na família e torna-se quase membro por direito. A sua dinâmica com a jovem Regan (Millicent Simmonds) acaba por ser a grande bússula moral desta aventura, onde se desenha a afetividade tão característica de John Krasinski.

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Já Millicent Simmonds, ela sim é extraordinária à medida que começa a ganhar mais espaço de protagonismo face ao primeiro capítulo. Esperemos que a sua incapacidade auditiva não impeça a sua carreira em Hollywood de se continuar a desenvolver e, preferencialmente, que sejam escritos papéis com esta jovem de 18 anos em mente. Noah Jupe, intérprete do seu irmão Marcus Abbott, é também uma estrelinha brilhante com um futuro inegável pela frente.

A Quiet place Part 2
© 2019 Paramount Pictures.

O filme acaba tal como começou, preso aos eventos que levaram a que “A+B fosse igual a C” e com a mesma intenção parca de os justificar. As criaturas mutantes que dominam o mundo permanecem um enigma, a força como percecionam o som idem aspas. Muitas questões (ou antes as mesmas questões) voltam a ser colocadas, e para lá da explosiva sonoplastia e cenas simultâneas de suspense montadas de forma exímia, uma vez mais em vão. Outras tantas surgem, numa quase exasperante sequência de pontas soltas.

“Um Lugar Silencioso 2” não foi um adeus mas antes um até breve. É bem possível que esta família volte a conceder-nos a honra da sua presença e, mesmo com menos inventividade à mistura, nunca recusaremos este universo onde a quietude é a mais poderosa arma. Finalmente pode ser visto nas salas de cinema nacionais, a partir de 27 de maio de 2021, depois de aguardar pacientemente melhores dias pandémicos.  Obrigada a John Krasinski por dizer não ao streaming direto, valeu a pena!

Um Lugar Silencioso, em análise
Um Lugar Silencioso

Movie title: Um Lugar Silencioso

Movie description: Após os acontecimentos mortais ocorridos em sua casa, a família Abbott (Emily Blunt, Millicent Simmonds, Noah Jupe) terá agora de enfrentar os terrores do mundo exterior enquanto continua a lutar em silêncio pela sobrevivência. Forçados a arriscar no desconhecido, rapidamente percebem que as criaturas que caçam pelo som não são as únicas ameaças que se escondem além do caminho de areia.

Date published: 27 de May de 2021

Country: EUA

Duration: 97 minutos

Author: John Krasinski

Director(s): John Krasinski

Actor(s): Emily Blunt , Cillian Murphy, Milicent Simmonds, Noah Jupe, John Krasinski

Genre: Ficção Científica, Terror

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  • Maggie Silva - 75
  • Inês Serra - 70
73

EM CONCLUSÃO

“Um Lugar Silencioso 2” não consegue sair da sombra da obra maior e pivotal que lhe deu origem.

Não importa, faz algo muito mais precioso neste momento: celebra a sala escura e recorda-nos o quão poderosa é a partilha coletiva desta experiência.

 

Para ver (e ouvir) na maior tela possível!

Pros

As maravilhosas prestações, com destaque para a de Millicent Simmonds.

O retorno a uma história que é em igual medida enternecedora e tensa.

Enquanto exercício de entretenimento puro e duro, “A Quiet Place Part II” é quase irrepreensível.

 

 

Cons

A conveniência narrativa.

A incapacidade de justificar a história com algo que não seja o lucro. Bem espremido, “Um Lugar Silencioso 2” é muito o reviver de uma mesma lógica.

A qualidade da ação é notória, mas há um claro trade-off: a profundidade emocional vê-se reduzida.

O som já não é o veículo condutor, não com a mesma força. O primeiro filme fazia do silêncio tensão, terror, desespero. Esta continuação é eficaz nesse ponto, mas não memorável.

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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