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Ursos Não Há, em análise

Jafar Panahi apresenta aos espectadores a sua nova obra, “Ursos Não Há”, protagonizada por Naser Hashemi e Vahid Mobaseri.

Para os que conhecem o singular percurso de vida e a muito consistente filmografia do realizador, argumentista e montador iraniano Jafar Panahi, não constitui novidade que o cineasta foi condenado a 20 de Dezembro de 2010 a seis anos de prisão e desde então está proibido de exercer por outros vinte a sua profissão. Tudo na sequência de um julgamento onde o acusaram de exercer actividades subversivas contra a segurança da República Islâmica e de fomentar acções de propaganda contrárias ao regime. De igual modo, ficou impedido de sair do país, excepto por razões extremas de saúde ou para integrar a Hajj, ou seja, a sagrada peregrinação a Meca. Não foi essa a primeira nem a última vez que se cruzou com a justiça do seu país, nem sequer foi a primeira em que sofreu as arbitrariedades de outras polícias internacionais, nomeadamente quando a 15 de Abril de 2001, durante uma viagem entre Hong-Kong e Buenos Aires, se viu a braços com uma detenção no aeroporto JFK de Nova Iorque. Não obstante a pesada sentença a que foi submetido, Jafar Panahi nunca desistiu de desafiar o destino imposto, manifestando de forma indómita a sua vontade de expressar o que lhe vai na alma. Na prática, apesar de condicionado na sua liberdade de movimentos, vem demonstrando ao longo dos anos de cativeiro querer ser uma personalidade livre. Porque a liberdade não se resume a um factor meramente material. Ela exige uma maior e mais vasta percepção que se pode encontrar mesmo dentro dos limites da prisão domiciliária em que se encontra desde 15 de Outubro de 2011. Neste contexto, com a cumplicidade de outros cineastas iranianos, realizou clandestinamente um filme que não era suposto realizar, na verdade co-realizado com Mojtaba Mirtahmasb, uma espécie de documentário produzido com parcos meios mas com uma grande eficácia de propósitos, intitulado com evidente sarcasmo IN FILM NIST (ISTO NÃO É UM FILME), 2011. Escondida num bolo, uma flash drive com a obra em causa foi contrabandeada para o estrangeiro, chegando ao Festival de Cannes, onde seria recebida e anunciada como o filme surpresa. Depois seguiram-se outros filmes que passaram por “modelos de produção e distribuição” similares, como as longas-metragens PARDEH, 2013, TAXI, 2015, SE ROKH (3 ROSTOS), 2018, e que convido quem se interesse pelo autor a descobrir ou redescobrir, uma vez que alguns podem ser adquiridos ou visionados com alguma regularidade nos circuitos alternativos, mas igualmente no circuito comercial, como sucede agora com o mais recente KHERS NIST (URSOS NÃO HÁ), 2022, nova estreia do realizador proporcionada pela MIDAS FILMES.

Ursos Não Há
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EXÍLIO INTERIOR, OU A DIFICULDADE DE ATRAVESSAR A FRONTEIRA

Desta vez, sobretudo para quem conhecer a obra de Jafar Panahi, a primeira sequência de URSOS NÃO HÁ gera alguma interrogação. Porque o estilo não parece ser o dele, nem a localização parece ser, e não é, um espaço situado no Irão. Basta ler os letreiros das lojas, e o que lemos está escrito numa das línguas da Turquia. Uma rua, um café, uma empregada e um homem que com ela vive, aparentemente mais velho, mas muito mais abatido pelo peso de uma qualquer doença do que pela idade. Este vai ao encontro da rapariga e diz-lhe que lhe conseguiu um passaporte no mercado negro que lhe permite sair do país, neste caso, apanhar um avião e viajar para Paris, França. Mas a jovem recusa, não concebe a ideia de partir sozinha, sem o companheiro, diz mais uma ou outra palavra solta até que se ouve “Corta!” E quem dá a ordem não está no local da rodagem mas sim do outro lado da fronteira, no Irão. Descobrimo-lo num quarto a olhar para um computador. Está a dirigir um filme através de um portátil onde recebe as imagens, os sons, os diálogos dos actores, e ainda as comunicações dos seus cúmplices e colaboradores da equipa de rodagem a quem dá indicações até que o sinal de wi-fi desaparece. O realizador fica assim isolado do resto do mundo, pelo menos do mundo que ele controlava remotamente. Mesmo sem o querer, para encontrar de novo o sinal precisa do apoio daquele que o alberga, homem simples e de uma reverência calculada para com o seu inquilino que se chama, já adivinharam, Jafar Panahi. Sim, o realizador que faz de realizador e que procura levar a bom porto um filme a partir de um espaço acanhado de um exílio forçado, onde iremos daí para a frente confrontar o distanciamento físico da sua deslocalização geograficamente relevante (por isso importa saber a real origem do mesmo, para melhor interpretar a ficção que a sua personagem representa, independentemente do filme dentro do filme) com um outro exílio, o espiritual, que obriga Jafar Panahi a rever a sua perspectiva existencial e os valores que defende enquanto membro da classe média de Teerão, na proximidade de uma estrutura fechada, arcaica, supersticiosa e reacionária da aldeia onde encontrou refúgio, situada na raia e afastada dos grandes centros urbanos. Nesta aldeia, representativa de um Irão rural que parece imutável e onde a própria Revolução Islâmica não parece influenciar o que quer que seja, a maioria da população aceita, sem questionar, a validade de leis ancestrais não escritas, que encaram como se fossem verdades absolutas. Tarde ou cedo, o homem educado e moderno encontra uma barreira entre ele e o modo de ser dos outros, que já era visível nos sinais exteriores de diferença (o carro de luxo, o vestuário informal, o uso de material fotográfico sofisticado, hábitos de linguagem pouco comuns naquelas paragens), sobretudo quando se vê envolvido numa intriga de contornos difíceis de analisar sob um ponto de vista puramente racional. Tudo por causa de uma suposta fotografia que estaria na posse do realizador, o senhor engenheiro, como a ele se referem os aldeões, e que alegadamente podia ser prova da relação atormentada e proibida de dois jovens que, segundo as referidas normas repressoras que por ali eram encaradas como leis, não podiam almejar um futuro enquanto marido e mulher.

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Paciente, mas com visível desconforto, Jafar Panahi, ou melhor, o seu duplo cinematográfico, atende aos pedidos de uns e esquiva-se das diferentes acusações de outros. Mas não nos esqueçamos que quem o faz possui razões de queixa relativamente a um plano bem mais grave de intolerância. Na verdade, a sua situação parece ser conhecida, e isso confere-lhe uma certa fragilidade. Esse aspecto não passa despercebido a alguém que invoca inclusivamente a sua meia paternidade estrangeira para o pressionar. Na verdade, as leis que na aldeia ditam a sorte dos seus habitantes são regras de comportamento que impõem uma certa estabilidade moral que, por sua vez, corresponde a um medo antigo de desafiar a autoridade. Sempre foi assim e não há maneira de dar a volta ao que já os antepassados consideravam o certo contra o errado. Por isso, para além da questão levantada pela fotografia, a aldeia vai ficar muito mais preocupada quando percebe que Jafar Panahi pode atrair outros e mais graves problemas. Isto porque sabem que durante a noite foi com o seu assistente até um local não muito longe dali, mas que aos olhos de muita gente significa a linha vermelha que não se deve ultrapassar. Esse local não é outro senão a fronteira entre o Irão e a Turquia. Numa das sequências mais poderosas de URSOS NÃO HÁ vemos os dois profissionais de cinema a percorrer as estradas poeirentas onde apenas circulam a alta velocidade os contrabandistas de pessoas e bens, os que não se dão a ver mas a quem nada escapa. Mesmo sob os olhos desse Big Brother anónimo, param e saem do carro. Nesta altura, por muito que nos custe, instala-se mesmo a dúvida de o assistente poder ser um provocador. Entretanto, ambos sobem uma duna naquele deserto iluminado por uma lua cheia. Do outro lado, a Turquia e a cidade onde decorria a rodagem do filme que fora interrompido. O assistente insiste com o realizador para ele aproveitar aquela oportunidade. Jafar Panahi observa as luzes ao longe e pergunta onde fica a fronteira e, logo que sabe que está em cima dela, numa demarcação que obviamente não está desenhada no chão, recua. Não, não se assemelha em nada a uma hesitação que seria, aliás, natural. Não, Jafar Panahi recua de forma clara. Os planos são magníficos, e o plano do esgar que faz ao perceber que podia já estar do outro lado é sublime de intenção. Tecnicamente são planos iguais a muitos outros, mas do ponto de vista do significado nada se compara a esse momento na perfeita estruturação narrativa de URSOS NÃO HÁ, com a provável excepção do último plano antes do corte a negro final, que constituiu um momento de pura estratégia visual e emocional de quem sabe manipular com muita segurança as potencialidades maiores da linguagem do cinema. Depoimento mais forte do que este sob a sua condição, não podia dar o realizador. Esta sequência capital serve neste filme para enviar uma mensagem igualmente clara sobre o sentido da sua luta interior, das opções que na verdade o movem para permanecer no Irão e não fazer aquilo que porventura seria o mais fácil. Seria? Perto do fim, saberemos que os jovens amantes, o Romeu e a Julieta improváveis de uma aldeia perdida na sua intolerância, não hesitaram, não recuaram e seguiram em frente, e por isso pagaram um preço que nenhuma falsa ou concreta liberdade pode resgatar.

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Ursos Não Há, em análise
Ursos Não Há

Movie title: Khers nist

Director(s): Jafar Panahi

Actor(s): Jafar Panahi, Naser Hashemi, Vahid Mobaseri, Bakhtiar Panjei, Mina Kavani

Genre: Drama, 2022, 107min

  • João Garção Borges - 95
95

Conclusão:

PRÓS: Se não bastasse ser um grande e corajoso projecto cinematográfico, pelo menos seria importante destacar a determinação de um cineasta em continuar a desafiar o regime que o confinou a uma pseudo-liberdade vigiada, porque ele sabe que o seu poder está na força de vontade que o mantém um homem de espírito livre numa sociedade onde as relações materiais entre o cidadão comum e o poder não são as mesmas que entre um cidadão mediático e o poder. E isso vale para o Irão como para qualquer outro país.

Para além da realização e argumento de Jafar Panahi, excelente estrutura de montagem, da responsabilidade de Amir Etminan, e muito segura Direcção de Fotografia de Amin Jafari.

No Festival de Veneza de 2022 recebeu o Prémio Especial do Júri.

CONTRA: Nada.

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